terça-feira, 12 de setembro de 2017

Anti monotonia


Sentado na praça eu me sinto antigo

Um moço jovem se aproxima e me pergunta as horas, dezesseis e quarenta, eu respondo

Ele diz obrigado e me estende a mão

Também lhe estendo e nos cumprimentamos

Lá vai o jovem embora

Talvez esteja na direção de um encontro

Por isso quis me cumprimentar pelas horas

Talvez quisesse ouvir de mim: vai lá rapaz! Ame até o fim.

Sentar na praça me faz sentir antigo.

Talvez do jovem quisesse eu ouvir: vai lá homem! Ame até o fim.

domingo, 20 de agosto de 2017

Brevidade

Choveu na madrugada.

Ventou tanto que pétalas brancas das flores da laranjeira se espalharam pelo quintal. 

Quantas laranjas foram abortadas antes de sequer se arredondarem?

Acordei. 

Ouvia zumbidos de ventos raivosos querendo passar por frestas de janelas fechadas. Árvores ao longe acenavam, dançavam.

Certa beleza na violência do temporal.

Do tempo, de um intervalo.

sábado, 12 de agosto de 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Batucada

Se sou oco
Sou também bordas e lascas
Repiques de contradições
Esse vazio que ecoa barulhos

Se na minha pele toca
Faço um som que vibra lá dentro
E volta
Por dentro sou tambor, sou surdo.
Tum
        Tum
                Tum
                        Tum........

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Entre aspas

Não tenho certeza de quase nada
A única que carrego é a da morte
Mas, quanto mais certeza tenho dela
Mais duvido de que estou certo.

Suave coisa nenhuma

Sou feito em pedaços.
Difícil sair rápido sem me deixar caído para trás.
Vou com cuidado
Me equilibrando em mim para não me perder

E vou me perdendo.
O que cai por aí, deixo.
Sou papel perdido no vento.

Eu achei que era forte
Achei que não sentiria
Que sairia dali ileso
Que a vida seria uma banal formalidade.

Não sou inércia
Sou carne e letra
Sinto
Talvez uma sina

No que me sobra
Do que me carrego
Sou ancorado em coral

Lá de um mar
Suavemente profundo
Aonde pulula vida.

domingo, 30 de julho de 2017

Lua pequena

A lua na mão da menina
Não que ela é pequena
É o que a ciência ensina

É só em perspectiva
Só serve para entreter
Coisa imaginativa 

Porém ao poeta que vê 
Isso diz quase nada
Só da fase do porquê 

Escolhe outra mirada
Outra forma de dizer:

A menina aqui
A lua lá
Nem perto aqui
Nem longe lá

É coisa de ilusão 
Isso que só parece

É a lua encolhendo
Enquanto a menina cresce

Põe essa lua no bolso
Leva São Jorge e o dragão
Vai fazer um chaveiro
E grudar no coração.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pela metade

Vi a rua por entre a persiana de uma janela como se aquela paisagem fosse censurada com faixas horizontais.
Alguém não quer todo o sol, nem tudo que os olhos alcançam. Só uns pedaços de inevitáveis verdades. Mais suportáveis.
Que a rua está ali para chegar e partir.
E o sol vai aquecer, iluminar, queimar a pele.
A censura sugere pequenos pedaços de sol, linhas desenhadas de luz no chão.
E a rua, a paisagem recortada, vela e revela ao mesmo tempo um caminho cheio de fins abruptos. Os olhos cansam.
Ali dentro um rádio toca músicas para preencher o espaço inteiro que a persiana recortou.
Escuto.
Duas mulheres conversam ao lado. Espero.
Falam de amor, de risos e de um homem.  Quem é esse homem na boca dessas mulheres, eu penso.
A janela e a música me atrapalham. Queria saber do homem que faz àquelas mulheres daquele jeito.
Pouco antes de seguir embora e ter a rua inteira coberta de sol escuto Merda! seguido de um choro contido mas,  desaguado.
Falavam de um homem inteiro.

Espelho

Quem é esse homem?

Posso dizer que tem um nome e esse nome diz dele. Mas, não diz tudo.

Posso dizer que tem uma história, só que essa história não diz tudo dele.

Posso dizer que ele faz isso ou aquilo mas, nem Isso, nem aquilo dizem.

Quem é esse homem?

Esse que anda, que fala
Ser que se aquieta por fora
Enquanto é loucura por dentro

Esse aí, ali.
Que te olha
Atravessa

Posso dizer que não.
Não posso dizer desse homem.

Nem ele pode.
Não podemos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sete minutos

Que caia!
Disfarçadamente vi o intervalo entre o fim da esperança e o fato consumado. Não há tempo para que a palavra última ocupe esse lugar de ponto final.
Que caia de uma vez e se exploda tudo. Não deixe lembranças, restos de roupas, objetos. Que tudo que carrego derreta e volte de onde veio.
Foi o que imaginei no trepidar, oscilar e bagunçar toda aquela gente que apelava, discretamente, para rezas e mandingas.
São todos uns desgraçados, como eu, que entrei aqui nesse avião, no meio de uma forte chuva e com minhas próprias pernas. 
Ainda tive o cinismo de sorrir ao comandante que na porta da aeronave cumprimentava faceiro a todos que entravam.
Isso é um fato. Sempre que entro num avião tenho vontade de perguntar: vocês estão certos disso?
Posso pedir a opção "para-quedas" ao invés do biscoito doce ou salgado?
Mas, depois da decolagem e de todos esses meus pensamentos, subimos, ultrapassamos as nuvens, a chuva e os raios no melhor estilo Indiana Jones.
Então, foi possível ver as estrelas, tomar uma água e comer um biscoito salgado e crocante como se não fosse nada, o trivial de um vôo cotidiano.
Eu, que só tenho palavras e escutas, na pressa de chegar, lembro que não tenho asas que me façam voar e principalmente, pousar.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O canto

A vida ficou cravada, não em memórias de belos dias e sim na pele que se enrugou, se espremeu, se apertou e se dobrou em sulcos profundos.
O corpo encurvado, não para o chão e sim para dentro. Em força de seguir.
Tudo que foi para segurar essa vida ali dentro, só por um pouco mais. Só um pouco mais.
Foi como o marujo, encantado pelo canto da sereia que o levou para o fundo do mar e depois o devorou.
Entre o encanto e o fundo, nesse intervalo, é onde a vida aconteceu.
Alguns sabiam do fim desse mergulho, outros simplesmente foram. Mas, sabido ou não - e ele sabia - o que fez nesse intervalo é o que contou, o que justificou uma escolha carregada de força que valeu por toda imensidão de um mar.
O canto da sereia foi o engano, o furo e a causa mas, ao mesmo tempo, foi a certeza. A única que teve durante todo o mergulho.
A pele se dobrou, puxando toda a vida para dentro de si.
Não teve tempo de dizer mas, de certo diria, pelo que pude ver daqui em seu semblante:
- foi o canto mais lindo que já ouvi.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Quase sempre estranho

As pessoas são estranhas.
Olhei as pessoas ao meu redor, dentro do metrô e pensei que meu cabelo não estava estranho. Haviam outros muito mais estranhos que o meu.
Os bebês nascem quase todos iguais, a cara do joelho da mãe e vão crescendo e mudando, virando partes da mãe, do pai, de nenhum dos dois e depois se viram, num crescente de estranhamentos.
Se pintam, se furam, se cortam. Se pintam na pele para sempre, como se para sempre fosse mais que uma vida inteira.
As pessoas também devem me achar estranho. Acho que olho meio assustado, meio tenso e nunca sei direito o que fazer com minhas mãos.
Esse meu cabelo, talvez devesse dar um jeito nele e quem sabe usar sapatos e camisas alinhadas dentro de calças, seguradas por um cinto de couro preto, como se o couro, que também é pele, durasse para sempre.
Talvez o estranho ali seja o silêncio e a solidão de todos nós, pois ali do lado, três jovens, suponho que tenham a idade dos bons tempos, conversam e riem da vida, talvez se si mesmos, talvez de mim, são todos pintados, furados e com cabelos abusados de experimentos. Eles ali são agradavelmente estranhos. Que curiosidade a minha de saber do que riem.
Que vontade me deu aqui pendurado nesse mundo de ser um pouco estranho e esquecer a pele, o couro, a camisa, o cabelo e deixar para lá isso de que nada é para sempre. Um quase sempre, naquele instante.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Fiapo de gente

Por um fio de abandonar abismos e absurdos.
Quero a paisagem pulsando
Gente vibrante
Certamente como eu
Errante.
Deixo atrás de mim melancólicas perseguições entre céus e infernos.
Quero a terra.
Por outro fio, um fiapo já basta.

Lust for life.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Ensaio final.

E o palco ruiu, podre, por falta de vergonha.

O palhaço, inconformado com o fim da palhaçada, pôs-se a rir escandalosamente com lágrimas que vertiam derrubando junto as tintas de seu rosto.
O protagonista pedia ajuda para sair do buraco, justamente por estar no centro do palco decadente.
A donzela, que era a verdadeira protagonista, chorava em estado de pânico e ninguém sabia se ela já tinha saído da personagem.
O diretor, que tudo viu, em pé aplaudia enlouquecidamente gritando palavras numa língua desconhecida, enquanto o patrocinador, dono de uma marca de bolachas, permanecia sentado e catatônico, dando sinal de vida apenas por uma respiração silenciosa.
E por fim, o operador de som e luz, lá de cima, aperta o botão que fecha as cortinas, apaga as luzes do palco e acende da platéia, vazia.
Enquanto a poeira abaixa, devagar, os loucos vão desaparecendo.
Ensaio final e sem estréia.
Fim.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Pouso

Frio é solidão que flutua.
E foi como recobrir a pele fria com um abraço generoso e sentir o calor acalmar janelas abertas.
O vento parou.
Quis o silêncio de um café e poucas palavras, só para tirar o amargo de um  resto que o medo deixou.
E teve.