quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A FREIRA VOADORA


É difícil aprender a voar.
Mais difícil ainda é alcançar a arte do pouso.
Os pássaros voam por aí, simplesmente. E pousam numa habilidade que me faz inveja.
Queria escrever como o pouso dos pássaros.
Aqui dentro desta máquina voadora, sentado do lado de uma freira que folheia a revista da companhia.
A comissária de bordo me pergunta, biscoito doce ou salgado.
Que falta do que dizer, penso.
A freira, que também não sabe voar, preferia vê-la rezando.
Só os pássaros não se perguntam como e aonde irão pousar. Tão pouco rezam. Não precisam.
Eu, que já rezei nessa vida, acho de bom grado ver a freira rezando por nós todos aqui.
O tédio é tenso e quieto aqui dentro.
Vamos pousar.
Nunca como pássaros, que não sabem o que é rezar. Não precisam.
E a freira ali. Aposto que reza por dentro. Reza porque duvida do homem e não tem certeza de si.
Aposto.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Nota muda

Vejo homens passando
Seus sapatos fazem ploc ploc ploc
São retos
Sisudos

Apavorados com o tempo
Que não para
Tic tac tic tac

Vejo homens na fila do elevador.
Como aguentam esses ternos e gravatas nesse calor, me pergunto.
Eu aqui, estou de saia.

Amigas sonhadoras dizem que buscam ter um homem para si.

Para quê querem um homem, penso.
Eu tenho um gato.

Vejo homens bem de perto dentro do elevador.
Seus sapatos, ternos, sisudos, seus tempos.
São cheios de perfumes, as barbas aparadas mas, não falam.
Pelo menos aqui em Curitiba, quase todos se calam no elevador.

Será que eles me notam, penso aqui, enquanto fixo nos números subindo.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis.

Com licença, digo ao homem que nem me nota, preso ao celular.

Homens! Meu deus, manda um milagre, pois ainda prefiro gatos.

Milagre para quem, pergunta meu analista.
Eu ainda prefiro os gatos, respondo, na bucha.

sábado, 30 de setembro de 2017

Fragmento

A água mesmo sendo fria 
Mal sabia
Que o fogo não se apaga
Nem deu pra piscar o olho
Assim que a novela acaba
A água já ferve de novo.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Gotas presas na janela

Enfim, o dia acaba com vento frio e gotas de chuva presas nas janelas. A cidade, quando o relógio marca dezoito, é caos de tudo num cotidiano tedioso. O caos já é um tédio por pura teimosia.

É quando se tem certeza de que o dia se foi e a noite chega mais rápida do que se espera. Noite que é fim para muitos e começo para alguns.

Fragmentos de palavras se misturam nos barulhos e a língua já tanto faz quando a ínfima dúvida de não ser ouvido se mostra entre a boca e o ouvido.

João, aquele que amava Tereza, que amava Raimundo, tem sonhos, dorme pouco e acorda no meio das noites sobressaltado pelas imagens que imprimem no fundo de seus olhos é só mais um despercebido na rua. Ninguém sabe de onde veio ou para onde vai, se é casado, se reza, se bebe e como é sua voz.

João mora longe dali. 

É dezoito horas e tem muito chão debaixo de si até chegar. E quando chegar já será noite e o dia já foi. Tereza não lhe receberá com comida quente pois ama Raimundo e o dia acabou.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Redenção

Na espera, quando se tem fome e solidão, ninguém quer nada que leve para o céu.
Comida saudável é sacrificio. Só por Deus para achar bom alguns troços que chegam opacos, sem cor ou cheiro e de tão saudável, vem com gosto de terra e tenro como poeira.
O que eu quero nesse estado faminto e tão só é aquele Big Fucking Double Shit que os caras preparam na mão, enfiam tudo num pão, enrolam num papel que parece jornal e te dão gritando teu nome. Cena surreal que só falta o cara te xingar e está tudo certo.
Cheio de sal, gordura e carne. Isso tudo dá sede. Aí eu peço o combo. Com a batatas-colesterol-fritas e o refil insano de refrigerante estúpido de máquina. Açúcar. A lot of sugar, baby!
Mais um real pela batata Grande?
Obrigado. Dispenso.
Se aqui é o inferno, o diabo que esqueça do meu abraço.
E aquele conjunto de coisas nem cabe na sua boca e é aí que a selvageria se mostra em seu ápice. E não me vejo sozinho. Vários iguais a mim se lambuzam e mastigam e devoram suas insanidades. Somos animais, mesmo domesticados, continuamos animais.
Mas, quando volto para companhia dos meus, me humanizo. Aceito o integral, a calma dos dias, o alface crocante, a troca de palavras gentis, a rúcula, as sementes, sorrisos, os orgânicos, os sucos com couve, detox. E, para redenção geral, aceito água.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Anti monotonia


Sentado na praça eu me sinto antigo

Um moço jovem se aproxima e me pergunta as horas, dezesseis e quarenta, eu respondo

Ele diz obrigado e me estende a mão

Também lhe estendo e nos cumprimentamos

Lá vai o jovem embora

Talvez esteja na direção de um encontro

Por isso quis me cumprimentar pelas horas

Talvez quisesse ouvir de mim: vai lá rapaz! Ame até o fim.

Sentar na praça me faz sentir antigo.

Talvez do jovem quisesse eu ouvir: vai lá homem! Ame até o fim.

domingo, 20 de agosto de 2017

Brevidade

Choveu na madrugada.

Ventou tanto que pétalas brancas das flores da laranjeira se espalharam pelo quintal. 

Quantas laranjas foram abortadas antes de sequer se arredondarem?

Acordei. 

Ouvia zumbidos de ventos raivosos querendo passar por frestas de janelas fechadas. Árvores ao longe acenavam, dançavam.

Certa beleza na violência do temporal.

Do tempo, de um intervalo.

sábado, 12 de agosto de 2017

Pardos

Na noite
É prudente ir devagar
Com cuidado

Nos cantos e esquinas
Gatos e gatunos
Ou Caçam
Ou morrem.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Batucada

Se sou oco
Sou também bordas e lascas
Repiques de contradições
Esse vazio que ecoa barulhos

Se na minha pele toca
Faço um som que vibra lá dentro
E volta
Por dentro sou tambor, sou surdo.
Tum
        Tum
                Tum
                        Tum........

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Entre aspas

Não tenho certeza de quase nada
A única que carrego é a da morte
Mas, quanto mais certeza tenho dela
Mais duvido de que estou certo.

Suave coisa nenhuma

Sou feito em pedaços.
Difícil sair rápido sem me deixar caído para trás.
Vou com cuidado
Me equilibrando em mim para não me perder

E vou me perdendo.
O que cai por aí, deixo.
Sou papel perdido no vento.

Eu achei que era forte
Achei que não sentiria
Que sairia dali ileso
Que a vida seria uma banal formalidade.

Não sou inércia
Sou carne e letra
Sinto
Talvez uma sina

No que me sobra
Do que me carrego
Sou ancorado em coral

Lá de um mar
Suavemente profundo
Aonde pulula vida.

domingo, 30 de julho de 2017

Lua pequena

A lua na mão da menina
Não que ela é pequena
É o que a ciência ensina

É só em perspectiva
Só serve para entreter
Coisa imaginativa 

Porém ao poeta que vê 
Isso diz quase nada
Só da fase do porquê 

Escolhe outra mirada
Outra forma de dizer:

A menina aqui
A lua lá
Nem perto aqui
Nem longe lá

É coisa de ilusão 
Isso que só parece

É a lua encolhendo
Enquanto a menina cresce

Põe essa lua no bolso
Leva São Jorge e o dragão
Vai fazer um chaveiro
E grudar no coração.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pela metade

Vi a rua por entre a persiana de uma janela como se aquela paisagem fosse censurada com faixas horizontais.
Alguém não quer todo o sol, nem tudo que os olhos alcançam. Só uns pedaços de inevitáveis verdades. Mais suportáveis.
Que a rua está ali para chegar e partir.
E o sol vai aquecer, iluminar, queimar a pele.
A censura sugere pequenos pedaços de sol, linhas desenhadas de luz no chão.
E a rua, a paisagem recortada, vela e revela ao mesmo tempo um caminho cheio de fins abruptos. Os olhos cansam.
Ali dentro um rádio toca músicas para preencher o espaço inteiro que a persiana recortou.
Escuto.
Duas mulheres conversam ao lado. Espero.
Falam de amor, de risos e de um homem.  Quem é esse homem na boca dessas mulheres, eu penso.
A janela e a música me atrapalham. Queria saber do homem que faz àquelas mulheres daquele jeito.
Pouco antes de seguir embora e ter a rua inteira coberta de sol escuto Merda! seguido de um choro contido mas,  desaguado.
Falavam de um homem inteiro.

Espelho

Quem é esse homem?

Posso dizer que tem um nome e esse nome diz dele. Mas, não diz tudo.

Posso dizer que tem uma história, só que essa história não diz tudo dele.

Posso dizer que ele faz isso ou aquilo mas, nem Isso, nem aquilo dizem.

Quem é esse homem?

Esse que anda, que fala
Ser que se aquieta por fora
Enquanto é loucura por dentro

Esse aí, ali.
Que te olha
Atravessa

Posso dizer que não.
Não posso dizer desse homem.

Nem ele pode.
Não podemos.