quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Feliz ano novo de novo.

É incrível mas, todo final de ano eu faço promessas, aquelas que todos fazem.
Alimentar-se melhor, fazer exercícios, um esporte, dar mais amor, amar mais, permitir ser amado, ter mais desejos, assumir os desejos, organizar as contas, ganhar mais dinheiro, estudar, aprender outro idioma, inglês ou alemão, um mestrado, um novo emprego, cortar o cabelo sistematicamente, fazer a barba também, beber menos, parar de fumar, estar mais presente na família, reunir mais os amigos, ficar menos bravo, resolver os problemas pendentes, arrumar o escritório, o consultório, viajar mais, escrever mais, escrever melhor, ler mais, muito mais. Resumindo tudo isso numa unica promessa, seria a de ser homem melhor, mais próximo do que considero melhor, ideal.
E não sei quanto ao leitor aí do outro lado, mas nessa época tenho uma sensação otimista e verdadeira nessas promessas. Eu faço planos, esquemas, vejo os preços dos cursos que quero fazer e digo, em voz baixa, num segredo comigo que agora sim, vai dar certo!
E quando me afasto dessa empolgação do mundo global e ocidental penso que eu poderia começar a fazer tudo isso agora, nesse momento. Ou então, dia quinze de fevereiro seria a data para tais compromissos. Por que fazer isso tudo agora, justamente nos poucos dias de férias que tenho? Por que preciso que o ano acabe e comece outro para fazer o que quero? O que tem essa noite, qual é a mágica?
Bom, aí o peso da realidade bate em minha porta até então trancada para ela. Se mudar fosse fácil como imaginar... Já tantos anos mudando a agenda e tendo a certeza de um ano realmente novo. Mas, vamos em frente. Até porque o tempo é como uma bússola e preciso dela para ter a certeza de que hoje não é mais ontem e ainda não é também amanhã.
Um feliz e realmente ano novo a todos.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Sexta-feira


Sexta-feira. Acabo de arrumar o relógio do consultório que estava com o dia atrasado. Ainda era ontem por aqui. Calor de novo com trinta e dois graus. Ontem foi o maior calor do ano e hoje promete mais, assim como a chuva que caiu também não foi pouca, levando junto a luz, as árvores e carros. Temporal que anda em mim ultimamente. Momentos de tormentas, confusões e desencontros. Afetos caindo em mim como raios no horizonte.
Levantei mais tarde hoje de novo. Isso é algo que me incomoda. Tenho muita preguiça pela manhã e odeio a idéia de levantar depois dela. Ela, aliás, está cada vez mais bonita. Grávida e bela, ainda com pouca ou quase nada de barriga. Razão do meu alento e de minhas confusões. Aquela barriga que agora cresce e vai dando a ela o jeito de mãe que está por vir. E, lógico, em mim vai dando os sinais precisos de um pai que se anuncia.
Tenho um trabalho, mas não é aquele dos tempos do meu pai. Não sou o provedor de uma família, como já foi a regra e a metáfora viril. Tenho aqui meu consultório, meu trabalho que vai bem até, mas não é capaz, sozinho de sustentar uma família. Coisas da vida. Sou, como diria Freud, um jovem psicanalista. E como todo jovem ainda numa efervescência de energia que se espalha, explode para todo lado sem focalizar um lugar, um ponto no mundo. E espero, assim, com a vinda desta pequena criatura, que eu possa extrair de mim a força que esta palavra impera, um pai. Digamos que meu filho nem nasceu e já há uma troca implícita e além de qualquer escolha. Sim, eu ganho um lugar de pai e ele ganha a vida. Ou então, melhor, ambos ganhamos a vida.
'Agora sim, tudo vai ser diferente'. É nisso que acredito e sempre acreditei com todas as minhas forças. Todas a mudanças em minha vida vieram acompanhadas por esta frase. Mas, é claro, nunca é bem assim. Um ideal que vai aos poucos esvaindo de força, desmoronando com a pontual maré. Mas, mesmo assim, nunca deixei de construir meus castelos perto demais do mar. Um segredo que aqui compartilho, porque agora sim, tudo vai ser diferente!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Suco Vermelho

Manhã de sol forte, porém, um pouco menos que dos dias anteriores. São dias quentes aqui em Curitiba desde que voltamos de viagem no feriado de Finados. Hoje fraquejei pela manhã. Acordei tarde, quase oito e meia. Nos dias anteriores estava levantando em torno das sete horas, ou até antes. O calor me empurra com mais força para fora da cama. Nos primeiros movimentos dos cachorros já levantava, até para poupá-la de acordar naquela hora. Os cachorros por volta das sete horas já estão esperando por comida. E reclamam bastante no que resta de silêncio da manhã.

Ela levantou mais cedo e do quarto escutava a centrífuga barulhenta, imaginei um suco com cenoura e laranja e que ela faria um agrado levando um pouco de suco para mim ainda na cama. Fiquei ali, entre um sonho e a vida.

Então, escuto a porta se abrindo, viro na direção dela e vejo ela entrando e indo ao banheiro com uma toalha. Não teve suco na cama desta vez. Levantei e fui para a cozinha, vi a centrífuga suja com uma pasta vermelha. Não foi de cenoura, foi de beterraba. O filtro do café na pia foi a certeza de que o café estava feito. Fiz uma xícara e fui para fora acender um cigarro. Um cão foi ao meu lado, pediu carinho. Fumei e bebi o café, olhando a roseira seca que quase morreu no feriado por conta da falta de água. O suco não estava na cozinha, pensei, ela fez um copo de suco apenas e bebeu. Voltei para dentro da casa e na mesa da sala estava o pote de manteiga com uma faca em cima, farelos de pão e uma jarra transpirando o suco gelado pela metade. O suco vermelho. Peguei o copo usado por ela que também estava ali, e bebi um pouco. Voltei para o quarto, entrei e pensei que ainda estava no banho. Abri a porta do banheiro e não estava lá. Quando voltei os olhos para o quarto novamente, na eminência de chamá-la, ali estava ela, nua, colocando a calcinha, vindo talvez do meu ponto cego, que não a vi quando entrei.

Comentei, ué, onde você estava? Ela respondeu com um sorriso doce - quem sabe achando graça de meu jeito meio perdido quando ainda despertando - levantando as sobrancelhas e apontando com o queixo a direção do canto do quarto ao lado do cabide. Ela, ainda de calcinha, pega dois vestidos e pergunta, esse ou esse? Sugiro o primeiro e ela comenta, meus seios estão pesados, enquanto coloca o vestido. Está linda, pensei indo para o banho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nada

Criação é algo que vem de dentro
Dentro de onde?
Um corpo inscrito, descrito, traduzido
Um corpo vivo.

Das inscrições de um corpo
O mundo traduz
Das inscrições de um mundo
O corpo cala.

Olho o mundo ao meu redor
Procuro tudo aquilo que incomoda
A dor, angústia, tristeza
Para que buscar felicidade?

O que traz a felicidade?
Aquela sensação de prazer momentânea
E logo vai embora...
Nada.

Criação é algo que vem de dentro
Dentro de um buraco
Arranca de lá um nada
Vazio de si.

Como diz nas escrituras,
"No princípio era o nada"!
Diria, cometendo meu novo pecado,
No princípio era a dor!

Há que sofrer, ao menos um pouco
Um tanto suficiente
Para encostar o peito na terra
Esticar a mão

Encostar o rosto na terra
Esticar os dedos
Alcançar lá no fundo
O nada.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

De repente

Assim de repente
Escrevo essa história
Um tanto demente
Que vem na memória

Palavra que é dita
Não pode falhar
Se ela é bonita
Melhor decifrar

Perdi esse fio
Não tenho meada
Transbordo esse rio
De vida aguada

Que coisa estranha
Começo bonito
Na letra insana
Acabo aflito

Na página branca.

sábado, 17 de outubro de 2009

Existir




Contava as ondas batendo na praia
No tempo lento e vão da solidão
Era alegria que embora esquecia
Logo sobrava a imensa aflição

Ah, como desejo àquilo de outrora
Crucificando hoje no passado
Novas escritas não cabem agora
Só amanhã, permaneço calado

Quantas ondas ainda baterão?
Sempre outro dia é mais fácil que hoje
Seguindo a vida, constante ilusão
Alma vazia, história que some

Fantoches dessa vida desgraçada
Agonizando nas mãos da tragédia
Vou caminhando, levando porrada
Logo amanhece e será outro dia

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dia das crianças

Dizem que bom é ser criança sempre, que devemos cultivar a criança que está em nós, que, por Deus, sejamos crianças eternamente!
Será isso saudade? Será a memória seletiva de um tempo que também teve lá seus grandes problemas?
É amiguinhos, ser criança é sim muito bom, mas é também um tempo de muitas batalhas, muitas derrotas e algumas vitórias. Claro que não vou acabar com esse dia assim, tão feliz a tantos bacuris, fazendo aqui a defesa do vilão.
Mas, se há uma criança em todos nós, diria então que ela é como aquelas visitas chatas, que bagunçam sua casa, demoram para ir embora, falam alto, quebram seus copos, sujam a mesa com cerveja e não têm vergonha de invadir seus albúns de família e debocharem de suas fotografias. Aí você pensa, 'parece criança, credo!'
Criança tem tempo de ser. Depois, adeus! Se despede da pequena, diz que vai sim sentir muitas saudades, que foi muito bom, mas o tempo acabou. A gente cresce, sem demora, cresce e segue a vida. E na vida adulta, criança só atrapalha.
Então, hoje digo, viva o dia das crianças de verdade, aquelas divertidas, choronas, espoletas, manhosas, sinceras, delatoras, que falam com as bonecas, que são os heróis, que voam com a imaginação.

domingo, 27 de setembro de 2009

Rotina

Vou batendo no compasso
Tenho sempre um compromisso
Repetição sem acaso
Não sei do desconhecido

O tijolo não tem graça
Construção de ironia
O cimento é só uma pasta
Vida escura, desvalia

Não há nada nesse poço
É beleza esquecida
O céu azul fica fosco
O sol brilhante alucina

Vou assim, sendo forçado
no amor, um compromisso
Casamento amarrado
Dinheiro, conforto, filhos

Mas, não passa de exagero
Quem é vivo tem magia
Um tijolo é barro vivo
Se transforma em moradia

Quem ama sabe bem disso
Não escapa da rotina
Desafio para o homem
Reinventar todo dia.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Fissura

Letras mancando no branco
Eu, que de pouca alegria
Busco a história vazia
O que da vida é só pó

Silêncio que faz o tempo
Deste que resta do dia
Na sombra da noite fria
Vazia, mesmo tão só

Na mesa o papel esqueço
Traço de minha agonia
De longe a morte vigia
Enquanto desato o nó

Manchas da tinta escura
Do nada, primeiro o risco
Ferida que busca a cura

Depois a palavra pura
Assim, com medo insisto
Vou gotejando loucura.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O contrário de si

Se eu me chamasse Raimundo
Vindo lá do sertão

Um poço sem água no fundo
Teria calos nas mãos

A terra rachada gritando
A brasa cortando a noite

Se eu me chamasse Raimundo...

O contrário do sertão
Aqui, na terra da chuva que mata

Também há calos nas mãos
Mas, eu não me chamo Raimundo

Falta-me a inspiração

Terra gigante
Meu país

Toma todo um continente
Faz fronteira com o mar

Mas, o povo é quem sente
Tem muito pra melhorar

Seu Raimundo, meu vizinho
Nascido em Pernambuco

Assim como meu bisavô
Veio de lá um menino

Nunca perdeu o sotaque
E quando lembra de lá

Da fome que já passou
É água salgada na vista

Nos olhos de sonho e dor.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Desisto

A vida passa
Estranha palavra
Escassa

Existo
Rabisco
Persisto

Lavra a terra
Morde a fera
Espera

Escuto
Silêncio
Luto

A caneta
A letra
Poeta

Estranho
O pranto
Lamento

Faz de conta
Apronta
Nega

No fundo
Escuro
Um segredo

Da vida
Maldita
Merda

De novo
Assustado
Morto

Renova
Inventa
A garra

Desisto.

sábado, 8 de agosto de 2009

Não se decide

Não falarei das alegrias
Aqui não erguerei as conquistas
Boas novas não cabem nestas rimas

Da parte boa da vida muito já é sabido
Do bom e afinado riso
Satisfação no bom sentido

A boa e aguardada surpresa
O tempo onde vale a pena
A pena de toda letra

Arlequim diz ao que veio
Entra vivo pela janela
O começo e o fim, sem meio

Aqui também não cabe a tristeza
Essa de todo dia
Preocupação, dor ou apatia

Dinheiro, amor, desapego
Falta constante
Instante

Tristeza do Pierrot
Vem pela porta da frente
É o fim de todo amor

Alegria ou tristeza
Nada disso interessa
Basta! Já chega!

Dessa vida, qual a graça?
Uns fazem pela vida
Outros vivem para nada

O que dizer aqui?
História sem pé nem cabeça
Alegria de uns, tristeza de outros.

Dizer que não vai dizer
É negação de antemão
Acaba falando do dito

Ilusão.



quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Casaco do Gigante

Quando penso no universo
Imagino a terra como aquelas bolinhas que fazem nos casacos de lã
No casaco de um gigante

Frágil e desprezível
Fica por conta de seu humor
Enquanto ele não se importa, vivemos

E como o tempo é uma instância humana
Os dias, os anos, séculos...
Tudo pode ser relativo

Ao invés da grande explosão
Quem sabe não nascemos no dia em que o casaco do gigante foi lavado
E, o que pode ser contado como milhões ou bilhões de anos, para o gigante, foi o tempo de lavar e secar.

Quando o homem foi até ali na lua, foi como ir até a bolinha do lado
Insignificante

Só torço para que este gigante alheio nunca fique entediado
Nunca assista uma aula chata
Que seu ônibus nunca atrase
E principalmente, nunca encontre o ínfimo prazer de arrancar as bolinhas do seu casaco.

O sol?
Ah sim, o sol é um pedacinho de purpurina que veio do último carnaval
Na terra dos gigantes.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A caneta

Ganhei de presente uma caneta bordô. Achei bonita, diferente das demais que tenho. Uma caneta pesada e com uma escrita leve, vai caminhando rápida no papel. Boa para anotações para a mesma velocidade.

Deixo ela aqui no consultório, só uso aqui. Tenho várias razões para essa escolha feita dentre as demais canetas. Primeira, por ser um presente, segunda, por ter recebido de minha entusiasta companheira e terceira, por ser a única caneta que ainda tem tinta.

Mas, algo muito interessante acontece com ela. O que me faz deixá-la no consultório é algo que me intriga, pois todas as vezes em que estou indo embora e começo a guardar aquilo que levarei comigo, olho para ela e tenho a nítida impressão que ela também me olha.

Hesito por um instante diante do seu apelo e um conflito diário com a caneta é colocado e sempre com um ar de primeira vez. Dura poucos segundos, mas tempo para pegá-la, girá-la e vê-la se esconder em sua estrutura metálica e oca. Coloco então em cima da escrivaninha, num lugar de fácil visibilidade, talvez para vê-la imediatamente após chegar no dia seguinte. Sinto uma tristeza nessa hora, como numa despedida, um até breve... E no dia seguinte, é a mesma coisa.

Então, pensei no que poderia acontecer se levasse minha caneta embora comigo. Fico desde já imaginando sua alegria ao ser despertada nos caminhos que farei. Quantas novidades ela ainda pode ter. Viver além das pequenas anotações de agenda, dos compromissos, nomes e números. Percorrer histórias nas idéias que a memória pode esquecer, nos pequenos recados, lembretes, inspirações. Que realce seus caminhos no papel vai deixar, suas curvas, traços e pontos.... Quantas histórias tem nessa vida para contar?

sábado, 18 de julho de 2009

Ex pôr


Se falo, não sei
Se não falo
Sei!

Quem pergunta?
Quem responde?
Silêncio!

Verdades e mentiras na terra da boa vontade
Onde o inferno está cheio

O silêncio na mesa
A cerveja e o vinho
Tempo de procurar

Espera por uma isca
Uma palavra para falar
Qualquer coisa não dá

O que falar será?
Presos numa esfera de pudores
Isso dá
Isso não dá
O que vão pensar?

Confusão
Branco
Preto

Escreve o silêncio?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Esboço II

Era difícil entender como pode ter aquele momento de lucidez com um trauma tão intenso na cabeça.
Até hoje Eustáquio se pergunta sobre isso, não sabe dizer na verdade o que aconteceu e uma mistura de saudade e culpa lhe toma todas as noites. E nesta, especialmente, a raiva também participa. A chuva não para e num ato de desespero, mais pelos pensamentos que lhe atormentam que pela chuva em si, calça uma bota, coloca uma capa de chuva e seu chapéu. Sai de casa, vai até o galpão, vê lá seus bichos assustados com a luz do lampião que cega pela noite escura. Pega uma picareta e vai até a pedra onde Antônia escorregou. A pedra é convexa, como um rosto sem nariz ou boca e faz a margem da nascente, tem em torno de dois metros de comprimento por um de largura. A água já estava pela metade da pedra. Ali começa a cavar. Indo pelos cantos vai expondo o tumor de sua alma.
A noite passou assim, Eustáquio abrindo um imenso buraco ao redor da pedra. Já era possível ver sua dimensão, quando tomado pelo cansaço, parou. Um pedaço de céu azul por onde chegavam luzes de sol e calor anunciava o fim da chuva e o começo de um pouco de paz. A pedra ficou ali, exposta, junto com a água barrenta em que se transformou a nascente. Os bichos já chamavam para a rotina dos dias mas, aquela pedra tinha que ser removida. Talvez para remover a culpa, a saudade, as lágrimas de todas as noites, a solidão...
Largou ali a picareta, e foi cuidar da rotina. Acendeu o fogão de lenha, passou no galpão, abriu as portas, deu comida aos bichos, tomou um café, enquanto seus pensamentos arquitetavam um plano para expelir a pedra daquele lugar. ‘Vou quebrar ela inteira’ pensou.
Coisa rara era ver Eustáquio na vila. Ia lá uma vez por mês apenas para levar os ovos, os queijos, as verduras e legumes que cultivava em seu sítio. Em troca trazia sal, açúcar, café e charque. Mas, desta vez levou apenas quatro bananas de dinamite, alguns metros de pavio e uma garrafa de pinga. Seu João da venda estranhou o seu aparecimento fora de hora e dia, assim como o que estava levando. ‘Vai explodir o que seu Eustáquio?’ tentando puxar uma conversa enquanto embrulhava as bananas. ‘Vou acabar de vez com a tristeza do mundo’, respondeu de forma séria e com os olhos nitidamente cansados. ‘Se quiser ajudo o senhor com isso, deve ser trabalho duro...’
‘Não, agradeço, mas isso é coisa minha e vou resolver’.
Saindo da venda, parou e olhou a rua principal, a Igreja, a praça e a lotérica. O movimento normal da cidade parecia estranho, como se fizesse tempo que não ia para lugar nenhum. No caminho de volta parou numa borracharia e levou junto seis pneus velhos.
Na pedra fez um buraco ao lado e enfiou a dinamites nela. Os pneus foram colocados por cima e amarrados. Afastou todos os bichos para o lado oposto do sítio, abriu a garrafa de pinga, deu um gole e acendeu o pavio. Viu a luz correr pelo fio e se afastou rápido. A primeira explosão rachou a pedra em duas partes. Repetiu com as outras três dinamites e a cada explosão via a pedra se transformar em pedaço cada vez menores, deixando um vazio em seu lugar, assim como ia ficando cada vez mais bêbado.
Ao término das explosões já falava sozinho, ria e chorava ao mesmo tempo. Entrou em casa e tomado pelo cansaço dormiu.
Acordou apenas no dia seguinte. Era como se tivesse sonhado tudo aquilo. Lembrou da criação que ficou a noite solta no sítio. Levantou e saiu rápido para comprovar o que tinha feito. Ao abrir a porta, Angelita, sua vaca mais velha ruminava na varanda olhando para ele com um ar manso e calmo. Eustáquio sorriu e levou-a, junto com os demais bichos até o galpão onde deu de comer e beber. A pedra não estava mais lá, nem Antônia, nem a tristeza. Ficou o vazio da saudade e a verdade de que agora pode voltar a viver.

sábado, 11 de julho de 2009

Esboço

A chuva caia torrencialmente. A pequena casa vibrava com o som da água caindo nas telhas, nas calhas, nas árvores, na nascente que ia tomando a cada minuto proporções de um riacho. As galinhas, patos e gansos eram os pensamentos de Eustáquio, no galpão que ficava entre a casa e a nascente. Eram oito dias chovendo. Por vezes abrandava, parava, mas o céu escuro denunciava uma nova e violenta precipitação.
Há cinco anos estava ali sozinho, desde que sua esposa, Antônia, faleceu de forma inesperada, escorregando na pedra ao lado da nascente, quando resolveu pegar dali a água para dar aos bichos. Eustáquio encontrou Antônia, um tempo depois que não soube definir, ainda viva, com uma poça imensa de sangue que deixava a nascente sangrando junto. "Ela não teve culpa, ninguém teve culpa", repetia ela enquanto Eustáquio tentava desesperadamente erguê-la dali, mas seu pescoço mole e o crânio aberto davam a impressão que iria cair tudo de sua cabeça para fora. Tentando confortá-la disse que estava tudo bem, era só um corte, que iria chamar o médico. Antônia, sabendo de seu destino, disse "Eustáquio, meu amor, siga sua vida e não se esqueça de mim". Contendo as lágrimas e o desespero, Eustáquio viu sua esposa de um casamento de trinta e cinco anos ir embora, parte em seus braços, parte a nascente levando embora.

terça-feira, 7 de julho de 2009

E então...


E então, quanto se perdeu
Foi-se o tempo
Passou
Não volta mais

E então, quanto se perdeu
De tudo isso
Quase nada
Quase tudo

Então, quanto se perdeu
Por ficar em casa
Por estar chovendo
Por ficar triste

Por não saber
Por saber demais

Ir embora cedo demais
Não esperar o apagar das luzes
Sono demais

Então, quanto se perdeu
Por não falar na hora "H"
Achar que não sabe dançar
Desculpas, argumentos
Vergonha

Aquela música que não vai tocar
Então, quanto se perdeu

Coleção de fragmentos
Pequenos versos
Pedras
Conchas
Cacos
Panos
Cheiros
Sabores

A história não conta
O tempo perdido na cama
O tempo esquecido nos vazios da solidão

E então, quanto se perdeu.


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cafezinho

O vapor que sai da chaleira
A água que vai pelo ar
O pó cheiroso na prateleira
Coador e destreza na hora da água passar

A boa hora do café
Dia frio, cigarro e prosa
Vai bem essa bebida quente
Aquece o corpo, estimula a alma

Tem café, tem cafezinho
Não importa o que vem misturado
É só passar devagarinho
Água quente, pó e cuidado

Café tem sempre razão de fazer
Depois de comer ou antes da grande viagem
Amor, amigos, uma carta para ler
Pela manhã, pelo cansaço, desculpa para vadiagem

Na hora que nasce a criança
É café admirando a tenra idade
Na hora de velar a lembrança

Aquece a dor da saudade
Na hora da visita
Café é passado na hora
Na vida, no dia-a-dia
Café, vale até requentado

terça-feira, 30 de junho de 2009

Botas Aladas

A tragédia incomoda
Algo de familiar está lá
Os desavisados correm para ver
Susto

Viver ou virar pedra
A harpe é erguida ao céu
Espelho de bronze é escudo
Medusa decapitada

Olhar proibido
Justiça
Sangue e pedra

Vingança
Oráculo
Morte

Perseu

Já faz tempo que o homem inventa
Inventa histórias

Histórias para não esquecer
Para dizer, perguntar
Assim, sem querer

Como se faz para viver?


terça-feira, 9 de junho de 2009

Vida

Na vida a gente vê de tudo

Quanto mais se vive, mais se vê

Vida de casa, de rua, de praia

Vida sem graça diante da tevê


Urubu sobrevoa a cabeça vazia

Gira preguiçoso pairando no ar

É coisa de quem espera

Espera a vida acabar


Na vida a gente sente de tudo

De tudo o que a vida dá

Frio, fome, sono

Paixão, só quando a hora chegar


Querubins, fadas e piratas

É sonho de meninos

É conversa de meninas

Crescendo, falando, criando


Vida vazia das fantasias

Vida sem graça e pura apatia

Beco escuro sem saída


Vida viva

Aventuras no quintal

Pau vira espada, árvore vira nau.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Inércia

Pêndulo
Sou
Não sou
Inércia

Sou
Se Desejo
Se sou
Quem sou?

A idade que vem
Escondida nos dias que passam
Se esqueço
Não sou

Roda de ciranda
Canta música conhecida
Roda cutia, de noite de dia...
E, enfim, a casa caiu

Se sou pedra
Não sou eu quem estou parada
Foi o mundo que perdeu o ritmo
Alegria alienada

Estranho é o espelho trincado
Se sou
Não sei
Pedaços...

Fragmentação
Pedacinhos conhecidos
Decifrados
Esquecidos

Confusão de sentimentos
Duas músicas ao mesmo tempo
O samba da boa vida
A marcha da despedida...

Quem me dera
Até em Pasárgada
Ser amigo do Rei

Se sou
Deixo de ser
Quem sou...

Quem?

terça-feira, 2 de junho de 2009

Curitiba II


Três graus

O sol aquece
Do jeito que pode

A sombra mantém o gelo
No tempo da manhã

O vento espalha arrepios
Nos corpos encasacados

O vinho acalma a alma
Enebria o corpo

O beijo renova o calor
Que não vem do sol

Debaixo do cobertor

terça-feira, 26 de maio de 2009

Azedo

Contradição
Quero ir, mas não vou
Amarro firme o corpo em pedra
Viro a pedra

De tempos em tempos, fico tão bem
Tão bem que nada sai
Nada vem
E a escrita fica assim...

É como expremer um limão
Forçar o suco azedo e ácido
Tirar da casca
Esperar o açúcar

O doce demora
Não chega
A sede aumenta

A vida é intensa todos os dias
Mas, tem dias que não fazem parte
De todos os dias.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tempos de guri


A minha história é um poema
Tem rima, tem beleza, tem amor
Mas, também tem a tristeza
Consequência de quem é um sonhador

Os caminhos que outrora percorri
Têm pegadas bem marcadas
Do meu tempo de guri
Dos amigos, das fogueiras e das boas gargalhadas

Foi-se o tempo de menino
Que saudade da Usina
Altura que dava medo
Pular era uma sina

Agora, aqui, longe da minha infância
Sou crescido, gente grande
Ensaiando poesia

Da saudade, vou adiante
Foi um tempo de alegria
A palavra surge e marca a batida dessa vida pulsante.
Foto: cachoeira da Usina - Corupá, SC.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Penas

Pena de sentimento
Identificação

Pena que desce do vôo
Sobra da evolução

Pena que risca o papel
Marca de produção

Pena do tribunal
Castigo para o ladrão

Sujeito

A imagem captura, aliena, hipnotiza
Ignora qualquer palavra, som ou gesto
Miragem de completude que a morte finaliza
É Narsciso afogado na beleza do reflexo

Quem da imagem ainda espera
Uma palavra, um som ou um gesto
Espelho trincado, cacos de uma quimera
É tristeza que transborda da imagem em puro resto

A imagem despedaçada
Pedaços do corpo em vidro

Um história 'embaraçada'
Imagem humana... Ser vivo

Cicatriz de costura cega
Fantoche, retalho, marionete
Pano, vidro e luz de vela

A tesoura corta a morte
De um lado, tem a lembrança
De outro, a pura sorte.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Vida cotidiana




Meu descanso na varanda
O sol ainda é intenso lá fora
Teu gesto suave de mulher amada
Que vontade de ir embora

Caminho entre pedras pequenas
Busco um lugar com sombra
Bebo água dada por moça bonita
Olhos vivos de menina que namora

A beleza não conforta

É paisagem conhecida
Vou embora lá em casa
Tenho amor, comida e pinga

Pouco importa a cor do céu
Quero noite em vigília de saudade
Sem estrelhas ou de papel

Minha amada vem chegando
Quero paz nesse horizonte
Traz a música, a festa e enfim, o descanso.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Escre(mo)vendo


Eu tenho
Tu tens?
Ele tem?
Quem não tem?

Eu sou
Tu és?
Ele é?
Quem não é?

Tens
És
O quê?

Todo dia
Todo santo dia
Alguém me pergunta: És bom? Tens uma moeda?

Não
Não sou bom
Não tenho moedas

O que tenho... não sei
O que sou, menos ainda
Fácil é dizer o que faço

A pena...

sábado, 9 de maio de 2009

Dia de mãe

Mãe?
Mãe?
Ô mãe???
Quié meu filho...
Tive sonho ruim... posso entrar?
Pode, mas não acende a luz, teu pai não gosta.
Deixa eu dormir com vocês?
Ai meu filho, teu pai não dorme direito assim... fica muito apertado.
Ali mãe, no pé, ninguém vai sentir...
Ai meu deus! Que sonho foi esse?
Foi sonho ruim, pesadelo...
Peraí... Vamos lá na cozinha, vou te fazer uma água com açúcar. Teu pai roncando me dá certeza que não acordou...
...
Bebe essa água... vai te ajudar a dormir melhor... essas coisas de sonho meu filho, são coisas só do sonho...
Mas, mãe e como faz pra esquecer?
Não esquece, meu filho, se teve um sonho ruim, lembra dele resolve o problema no pensamento...
Mas, mãe... era o diabo!!!
O diabo?
Sim... ele primeiro me dava uma bala e eu comia, depois eu vi ele vindo prá nossa casa... quando vi ele de costas, tinha rabo e pé de porco...
E aí... o que aconteceu?
Eu gritei, pra avisar, mas minha voz não saia, não conseguia correr também...
E aí menino, fala?
Aí eu acordei...
Vem, volta pra cama e leva essa garrafinha com você.
O que tem dentro?
Água benta... se ele aparecer, você joga no rabo dele...
Tem certeza mãe?
Claro, ou você acha que a gente cresce como?
Como?
Perdendo o medo, meu filho, o medo da vida...
Mas, era o diabo mãe?
Vai meu filho, to com sono... se ele aparecer, já sabe... água nele...
Tem certeza que é benta?
Sim, eu que levei pro padre Bento benzer.
Então tá...
Boa noite meu filho.
Boa noite mãe...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Prosa de Dor


Dor?
Que dor? Mesmo se tivesse, negaria até o fim diante do mundo.
Dor eu tenho sim, doutor. Dor é como segredo, todo mundo tem um. Aposto que o doutor tem aí dentro uma mão cheia de dor. É assim mesmo, quem não tem que atire a primeira pedra, assim mais do que acertar a pecadora, passa a ter uma nova dor... a dor da raiva.
Pois é, dói nascer, crescer, amar, acordar, dormir, odiar. Tudo dói nessa vida. E dúvido que o doutor tenha remédio para qualquer uma dessas dores. Com todo respeito, o doutor sabe curar um monte de dor, mas é dor do corpo, não da alma.
A dor que me traz aqui até o senhor, sei que tem remédio, esse meu calcanhar... como? Tendi o quê? Tendinite? Cada dor tem um nome né? Deve ter um remédio pra isso... tem? Ainda bem. Porque pra dor que tem remédio, pronto, tá resolvido... pra essas tantas aí que falei por senhor, essas a gente convive, acalma elas com o dengo da patroa, com a cerveja, os amigos, o futebol, a igreja. Não, não, o senhor não se preocupe, não bebo todo dia não, só de vez em quando... porque se beber demais, a patroa reclama e aí é dor que não acaba mais... Igreja? vou de vez em quando, não gosto muito daquela gritaria, desespero... e na católica me dá um sono...
Obrigado doutor, vou tomar esses remédios, essa dor eu tiro de letra, o resto vou vivendo...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Segredo

Quem não tem?

No obscuro porão de nossas vidas escondemos caixas e envelopes, encostados no canto mais frio. Torcendo pela insaciedade das traças, esperamos que os segredos se percam em nada. Que a traidora memória não alcance aquele segredo que de nós mesmos esconde. Jogue fora a chave, esconda o mapa e nunca aponte o caminho.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

"Drummondeando"

Mundo, mundo, vasto mundo...
Para lembrar o poeta
Procurando uma solução

Dos olhares inquietos
Dos corpos em silêncio

A vida agarrada em barras de ferro
O trem segue até a estação final
O ponto final

Homens
Mulheres
Procurando uma solução

Caminhos iguais
Caminhos que se dividem no ponto final

Até mais!

Seguem-se sozinhos
Pensamentos e músicas distraem a caminhada
Sós

Nem o sol apareceu o mundo, mundo...
Para que uma solução?

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Frase simples


Quando a vida retoma seus passos, é melhor ter pressa para não perdê-la de vista... Ainda mais depois de uma garrafa de vinho...
Imagem: aquivo pessoal

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O sermão

Os olhos ardem na noite já escura
O corpo vai arcando, arcando
Quando percebo estou tão próximo de mim que me assusto
Ergo com força o resto que ainda resta
Esfrego os olhos por debaixo dos óculos
Eles ainda funcionam, os óculos

É quarta-feira
Escuto o jogo pela televisão do vizinho
Bobagens

Insisto, empurro, arranco a última gota deste bagaço
Que vida meu deus!

Acendo um cigarro
Retiro o relógio do pulso
Liberdade
Ilusão

Vejo os livros
Freud, 1984 - George Orwell, Clarice, Don Quijote, João Guimarães Rosa...
Arrepios de fantasmas quando encontro... Jacques Lacan

O cigarro já foi a metade
Sófocles - Édipo Rei

Que vida meu deus!

Destituo o altíssimo
Deus é surdo!

Quando vi meu pai dormindo sentado durante o sermão do padre pensei: mas, que merda!
O que estamos fazendo aqui homem?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Segunda-feira

Por que não começou na primeira? Primeira é Domingo!
A gente começa na segunda...
Como num carro, se sair na segunda, sai lento, engasga, morre, .
Segunda-feira é sempre um bom dia.
A gente reclama, mas segue adiante.
Terça, quarta, quinta, sexta.
Quem não gosta de segunda deve ter seu dia preferido a Quinta... Afinal é o dia mais distante daquela que passou e da próxima.
Eu mesmo até gosto. Sofro mesmo na véspera. Domingo é dose.
Um silêncio que antecede...
Mas, quando é segunda... o mundo vibra
Vida e morte em pleno movimento.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Feliz Páscoa

Ressus cita
Re nova
Re veja
Res pire
Res posta
Re...

Um calvário
Uma cruz
Barrabás
Judas
Maria
Madalena

"Pai, porque me abandonaste?"
E, nessa hora Deus disse: "Faça-se a culpa!!!"

terça-feira, 7 de abril de 2009

Preguiça




No começo das coisas é muito forte


No meio é a tentação mordendo a carne


No fim, não há.


Preguiça é o peso morto que carrego na vida
Sou preguiçoso assim, todo dia, mas não toda hora
Ainda bem que meus cachorros são mais, muito mais

De manhã ela aparece para levantar
Durante o dia para não trabalhar
De noite para não dormir

Uma luta constante
A preguiça nunca vence
Ela apenas retarda sua derrota

As vezes mais
As vezes menos

Mas, quantas vezes senti o gosto bom da preguiça nos dias de domingo
E quantas vezes esse gosto bom ficou amargo

Coragem

A vida exige a preguiça em pequenas doses
Apenas o suficiente para sentir esse pequeno prazer de sempre derrotá-la.

Imagem: arquivo pessoal

Resumo

Começo
Meio
Fim

Nasce
Vive
Morre

Letra maiúscula
Vírgula
Ponto final

Difícil
Trabalhoso
Gozo

Desejo
Sexo
Sono...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pingo

Quando entro
Quando saio
Daqui
Dali
De ti

Quando ocupo
Quando mudo
Escondido
De mim
De ti

As histórias
Dos dias
Dos lugares
Minhas
Tuas

Um pingo de chuva
Teu ombro

Desfaz em mil
Inunda
O tempo

Arrepio.

domingo, 5 de abril de 2009

Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791)

Apenas para os de pouca fé
Apenas para os de pouco latim
Apenas para os de pouca música


"Agnus Dei, qui tollis peccata mundi

Miserere nobis

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi

Dona nobis pacem."

(Missa em Do maior KV 167 Trinitatis Messe)

Imagem: arquivo pessoal - Capela Santa Maria Curitiba

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Se...

Se todo sapo fosse príncipe...
Se toda maçã possuísse o sono eterno...
Se todo beijo fosse encantado...
Se toda garrafa tivesse uma mensagem...
Se toda ilha fosse deserta...
Se todo mar tivesse sereias...
Se todo louco escrevesse...

Se vivêssemos eternamente
Seria?


quarta-feira, 25 de março de 2009

Rascunho de gente (felicidade II)


Se tudo pudesse ser feito antes num rascunho, boa parte de nossos problemas seriam resolvidos. Por exemplo, poderia ter sido nascido antes num rascunho... Daria para ver, com a obra rascunhada, o que de bom seria, ou o que de ruim deveria ser refeito. Apagava um risco aqui outro ali e depois passava a limpo. Sairia bem melhor.
Chamo isso de um devaneio no silêncio da noite. Afinal, é assustador ver a ciência criando rascunhos de gente, aparando as arestas, pintando os olhos de verde, esticando a altura, reduzindo a largura. Uma promessa de perfeição.
De tão perfeito, já nasce morto.
A imperfeição é a vida humana em si. Cheia de contradições e confusões. A beleza humana eu diria, está na feiura da alma cansada de sustentar um mínimo que seja de singularidade.
Nas rua vemos as pessoas passadas a limpo. Uma sequência de mesmos... mesma moda, mesma cara mascarada da alegria passada a limpo. Uma felicidade desproporcional à sua tragédia.
O belo está escondido, triste e humano.
Mas, você que está lendo este rascunho, não pense que este humano que nasceu rascunho faz uma exaltação à tristeza. Bem, dizendo assim talvez até faça, mas o que está em jogo aqui é dar espaço à beleza do triste... A ilusão de receitas prontas para uma vida feliz é infinitamente mais triste que viver, com todas as lágrimas, dolorosos momentos de tristeza. A beleza do triste não é estática, mas tem movimento, passa. Cair é ter a chance então de sentir os joelhos ardendo, o gosto da terra e sangue. Mas, é também a imensa e momentânea alegria em curar as feridas e erguer-se da terra viva.
Imagem: arquivo pessoal

terça-feira, 24 de março de 2009

Felicidade

A regra geral dos dias correntes, é ser feliz

Mas, não seria um paradoxo entre o ser e a felicidade?
Você conhece alguém feliz?
Mas, por que essa exigência?

Bem, ser feliz deve ser muito bom.
Mas, parece-me que nessa confusão “só feliz” é quem sai ganhando
O ser, quanto trabalho, quanto esforço para manter-se feliz

As vezes cansa
Chora
Grita

Demonstra sua raiva, sua frustração
Depois volta ao imensurável solitário trabalho de ser feliz

Ser feliz é previsível, chato. Chega ao limite do bobo. Ri atoa.
Francamente, prefiro o Ser

Deixo o Feliz para breves momentos, intercalados com os demais afetos. Fazendo dos dias um espanto, cheio de surpresas.
Ser Vivo.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Eu vou Viajar

Lá vou
Em busca de algo

O que emana uma força
Que parece ser louca
Tonta

Um amor fiel
Platônico

Um deus piedoso
Um céu azul

Gente inteligente
Como (ve)gente

Impossível
Maravilha!

Como a vida!

Procuro dentro de mim
Algo único.

Urbanóide

Muros grades portões
Cheiro de cola
Traficantes meninos

Pedra e pó

Trapos como roupas
A podridão que invade nossas narinas
O quase insano que arranca nossos orgulhos

Muros grades portões
Quantas chaves
Aniquilados
Amedrontados

É o hoje

Muros grades portões
Cidade grande
Grande demais

Punks
Hippies
Tribos
Medo

Ao inferno
Na próxima quadra

Sempre

Tempo Teu

Pelo teu presente
Escancarado
Sem pacote

Pelo teu passado
Mal passado
Bem passado

No tempo

Pelo teu futuro
Nada mais

terça-feira, 17 de março de 2009

Familiar


Estranho mundo novo
Admirável é para quem inventa
Arde nos olhos como pimenta
Céu estrelado é só o cosmos

Dores nas vidas cruas
Homens invisíveis e ágeis
Esquinas escuras, avenidas e ruas
Drogas, sexo e sangue

Arma branca
Pele negra
Arma negra
Pele branca

Pecado contém o caos
Igreja que confunde o bem e o mal
Estado viciado alienado
Crianças dormem debaixo do beiral

Curitiba cidade fria
Terra urbana desprotegida
País sul-americano
Deputado diz que bandido é “gente trabalhadeira”.
Imagem: arquivo pessoal

quinta-feira, 12 de março de 2009

Atraso

Só achando graça
Risada à toa
Ri para não chorar
Desgraça

Vida estranha pausada
Arranca do peito essa mágoa
Volte a cantar
Silêncio que provoca o nada

Cheiro de chuva
Acalma o calor
Tristeza é pouca
Cadê minha dor?

Tempo marcando um encontro
Com a roupa mais bonita
Vai depressa levando uma flor
Lá está ela toda cheirosa

Aproxima com beleza
Cheio de gente ao redor
Encosta a flor em seu peito
Não te esquece da tristeza

No fundo escuta um gemido
Vê seus olhos cerrados
Alguém lhe diz no ouvido
Se despede... Tempo esgotado

terça-feira, 10 de março de 2009

Prosa Poética - "Posso!"

Pergunto e eu mesmo respondo
Respostas desses sonhos insanos, tiranos, alienados
Sonhos em forma de pesadelos, pesados, suados, calados

Como se fosse inútil
Como se sorrir fosse a ordem...
Como se não fosse necessário chorar

Respondo aquilo que sei
Já chorei... Acabou

Pergunto o que sei que sei, mas penso não saber, só para perguntar e
Quem sabe sorrir

Não quero mais perguntas
Não tenho mais dúvidas sobre a realidade

O que sou ninguém será e nunca foi
E o que fui me faz ser o que sou hoje

Orgulhosamente me apresento
Aqui estou numa quinta-feira
Manhã
De banho tomado e mente de carona num aglomerado de letras tentando exorcizar

Amor Tece Dor

Peguei o tempo
Segurei firme, mas escapou
Bichinho danado
Nem sei mais onde pousou

Peguei o tempo
O tempo da máquina
Da
Ti
Lo
Gra
Fia

O curso tinha tempo
Tempo de acabar
Mas, deixei o tempo passar
Fiquei o tempo do tempo da máquina acabar

Hoje
O tempo
A pressa
Passa

Tempo
Com
Pu
Ta
Dor

Tempo
Pu
Dor

Tempo
Dor

segunda-feira, 9 de março de 2009

sincronia

É
Definitivamente é
Está
Existe

Não resta dúvida alguma
Pedra sobre pedra

Uma imensidão de areia
Um deserto que não precisa de chuva.

O tempo não existe mais
Sincrônico
É

Dar as costas ao vento e se deixar empurrar
Cair

Se misturar na areia, na lama.
Ser envolvido pela água
Virar água

Ah, que tempo louco
O divã está lá
Todo retorcido

Qual dos Édipos?

Quanto tempo faz
Aqui estou de novo
Deu-me saudade

Primeiro um três, oito, meia
Depois um quatro, oito, meia
Hoje, sei lá que computador é esse.

Quanta revolta, tanta tristeza.
Vou repetir o que disse há quase sete anos atrás...
“Agora é hora de ler. E de produzir algo para o mundo e não só para mim.”
Talvez, completaria.

Seria bom ter uma certeza.
Que medo de tropeçar, de vacilar nisso que está nítido em mim
Mas, desta vez vou enfrentar, encarar isso de frente.
Tocar a vida adiante. Vencer na vida!

A vida é assim, como um quadro.
Está lá, aqui...
Se ela é uma desgraça, se ela é um sucesso, uma fortuna....
Está lá igualzinha para todos. O que cada um faz com ela é isso que importa.
Não se trata de vencer na vida, mas sim de viver apenas.

Viver apenas
Apenas, o que é?
Viver é tomar em mãos as rédeas de um destino.
Vencer na vida é vencer a si próprio
Perder a apatia, a passividade, a loucura, o gozo e vencer num desejo de viver

Ando mais psicanalista aqui.
Queria ser mais poeta.
Qual a diferença?
Talvez um escute e outro escreva.
Talvez um apresente o resumo intenso das emoções
E outro receba na íntegra as verdades da vida.

Sol

Após um passo olhei para trás Sol
A morte bailava com minhas palavras

Hoje ela só assiste
Perplexa
Encantada
Olhos vidrados

Vê-me da sombra em que vive
Às vezes dou umas voltas por lá

Meu mundo é sob o sol
Forte
Intenso
Nada modesto

Insano

quinta-feira, 5 de março de 2009

Aos pequenos

A gente cresce
Calma amiguinhos
A gente vai crescer
Vixi Maria!!
Quanta coisa a gente ainda vai viver.

A gente cresce
Para não dizer envelhece
Calma
Tudo vai dar certo
Um dia
Amaduresse

A gente cresce
Pensa que não?
Talvez não seja tanto assim
O pé, a mão
Tudo não cabe mais em mim

Será tão emocionante
Te ver daqui
Com tuas pernas, andante
Aventuras de saci.

terça-feira, 3 de março de 2009

Pato Lógico

Tudo isso é necessário?
Se sou ou não, o que importa ?

Firmar objetivos
Ganhar dinheiro
Comprar um carro

Escrever um livro
Deixar recado
Pedir fiado

Ter uma mulher
Amar alguém
Odiar também

Parar de fumar
Envelhecer
Fumar

E se não bastasse morrer, ainda sofremos, penamos.
Claro que sorrimos, sentimos a vida nos arrepios de nossos pêlos.

É isso o que buscamos?
Arrepios?
E se não bastar?
E se eu quiser voar?

O que é que faz mover os homens?
Qual é a sensação mais intensa
A mais incrível
Aquela que nos faz olhar o céu com risos ou lágrimas?

Extremos.

Hesito

Há um buraco

Entre o ser
E o querer ser

Entre sonhar
E os sonhos a Realizar


Quem é o primeiro a se jogar?

Evolução

Não, não quero mais!

Como criança que desiste da ciranda...

O resto de bicho
Cria força e vai de encontro a sua presa!

O resto do humano.

domingo, 1 de março de 2009

Um mais Um


Que loucura esse ser apaixonado, tímido, calado
Que anda nas sombras olhando para luz

Agonia de só olhar, apreciar
Alívio de sonhar

Sonhos de tocar, beijar
Sonhos de falar, expressar

Mãos suadas escondidas nos bolsos
Olhar perdido, surpreendido, envolvido por um encanto

Alimentando um desejo
Sorrindo num sonho

Que loucura sonhador
Que por uma sorte
Ou azar

De estar vivo
Fica apenas em sonhar

É ela
Um anjo
Seus beijos
Tocá-la

Quanta embriaguez
Mágico é vê-la sem ser notado

Sei de seus defeitos
Sei de seus risos
Sei de suas lágrimas

Sei que dela eu tenho parte
E ela
Sempre parte com um pedaço de mim.
foto: Obra de Josué Demarche - local Museu Oscar Niemeyer

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Entorpecido


Teus cabelos castanhos
Nem longos nem curtos
Finos
Insanos

Olhos límpidos
Mágicos
Alucinam num doce delírio

Sem entender
Por escrever
Talvez por mim
Talvez por você

Apaixonar-se por tua utopia
Tão delicada
Quase alegria
Por estar assim
Meio às avessas

Com os pés na cabeça
Como se num mergulho
Ao mar mais turvo
A lembrança mais doce

De uma pérola escondida no meio de tantas pedras estúpidas
Só por você.

Por nada adiantaria sorrir ou chorar
Ir ou voltar
Correr sem olhar
Escrever poesia sem saber amar.
Foto: "o Beijo" de Rodin

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quintal


A pena chegou voando

A dor saiu rastejando
O riso pulou dos dentes

O samba baixou nos pés
O abraço engoliu os braços

Piruetas da capoeira
Preguiça de urubu

Sombra para um dia de sol
Sol para um dia de chuva

Roupas no varal!


foto: http://br.olhares.com/varal_de_roupas_foto534471.html

Conhaque

Aquele que tomava sozinho, no balcão do bar
O melhor lugar para se ficar num bar é no balcão

O hoje pelo ontem?
Qualquer dia apareço por lá

Sei lá
Lá sei

Melhor esperar o inverno chegar

Quinta-feira

Amanheceu com chuva

Friozinho
Sair da cama

Coragem

O inverno nem chegou ainda
Saudade

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dínamo

Talvez eu seja apenas um sonhador
Quero correr atrás deles

Fico aqui lutando contra mim mesmo
Meu lado escuro, que me faz parar

Se fosse impossível
Não é

Se fosse fácil
Não é

É Preciso achar forças para tudo
Como se não houvesse controle

Parece que estão escondidas...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

São Tomé

São Tomé

Lembrei que há muitos anos, num acampamento...
Vamos voltar um pouco. Naquele tempo sempre gostei do mato, do morro, dos rios, das cachoeiras. Vivia neles. Sempre que podia estava acampando, percorrendo trilhas, escalando pedras, descobrindo lugares incríveis.
Participei de um grupo do meu colégio, orientado pelos professores de lá. Um grupo que tinha pretensões religiosas, e até conseguia transmitir seus princípios. Coisa importante para a Santa Igreja.
Permito um parêntese aqui, que eu mesmo fui envolvido por esses princípios e segui-os durante anos de minha vida, mas algo no meio do caminho falhou. Fiz primeira comunhão, mas não conta tanto, pois era mais escolha de meus pais que minha, mas fiz também crisma. E essa foi escolha minha. E acreditava, tinha fé que se dissesse tudo ao padre na hora da confissão, com toda certeza teria um lugar melhor aqui e além daqui. Mas, não quero me prolongar aqui, pois tenho outra história para contar, tive um pequeno desvio, a peste tomou conta de mim. A tal da psicanálise e o compromisso de não recuar diante do meu desejo puseram em mim um ceticismo tamanho que hoje só acredito em mim mesmo. Porém paradoxalmente, sinto-me o próprio São Tomé.
Então, como ia dizendo, participava deste grupo. Era realmente muito bom participar daquilo. Foi através daqueles encontros que tomei gosto pela escrita. Não sou daqueles que tiveram pais sedentos por leituras, que na sala de estar havia uma biblioteca ou coisa assim. Minha mãe, eu lembro que gostava de ler a Veja e meu pai, não conseguia entender como ele lia tanto aquele jornal Gazeta Mercantil. Ambos também, até onde sei, não eram adeptos a escrita como forma de expressão de si mesmo. O máximo que conheci disso eram pequenos bilhetes e agora lembro que meu pai, de tanto pedir para puxar a descarga do banheiro e não alcançando um satisfatório êxito, certo dia me fez deparar com um bilhete colado no azulejo, em letras bem desenhadas, solicitando cordialmente que não esquecêssemos de puxar a tal descarga.
E de leituras fui gostar delas só lá na vida adulta, não tinha gosto por isso, nem no colégio, nem em casa, isso foi me apresentado como algo agradável. Bem, gibis há até hoje. A família toda é fã incondicional das criativas histórias de Maurício de Souza.
Aprendi a gostar de escrever sozinho mesmo. Aliás, nem tão sozinho. Foi graças a esses grupos de jovens que participei que conheci dezenas de pessoas. E, como naquela época não havia Internet, eram por cartas as correspondências e notícias dos amigos e principalmente amigas. Francamente não era lá muito inclinado a escrever para amigos. Gostava mesmo das amigas. Não por acaso. Tinha uma timidez absurda. Uma dificuldade incontestável nessa esfera. Então, me dava muito bem com essas cartas e com essas amigas. Tive um grande amigo, com quem me correspondi por meses, mas uma menina, que foi minha grande paixão a distancia, pôs esta amizade em banho Maria. Morri de paixão por ela, mas é outra história.
Então escrevia muito. Escrevia tanto que cheguei ao ponto burlar o sistema de correios, arrancando delicadamente com uma chaleira fervendo os selos usados para reaproveitá-los. Funcionava. Economizei uns trocos com este pequeno delito adolescente.
Então, nesse grupos nutria duas paixões: minhas correspondências com as amigas e os acampamentos com os amigos e amigas. Lá também aconteciam romances silvestres com minhas conterrâneas.
Nesses acampamentos, o sistema era sempre o mesmo: Num campo aberto, no meio ficavam os professores e de um lado a barraca dos meninos e de outro a barraca das meninas. Aí já dá para imaginar a euforia, os planos e as aventuras para alcançar os segredos do corpo e da sexualidade. Éramos todos jovenzinhos, ansiosos pelas descobertas da vida.
A história que quero contar, deixo tantas outras aí para depois, aconteceu num desses acampamentos. Foi um final de semana péssimo, choveu quase o tempo todo. Lama, roupas molhadas, tênis molhado. Dormindo em barraca. Era coisa de louco. Mas, quem estava lá, não pedia para voltar. Foi numa noite. Geralmente dividíamos as barracas. Francamente não lembro quem dormia na mesma que eu, mas, apenas o barulho do rio tomava conta de tudo. Estava desconfortável, não encontrava posição para dormir. Meu amigo, lembro que não se mexia ali do lado. Ou fingia ou dormia profundamente. Em certo momento, naquela escuridão. Lá sim é escuro. Vejo uma luz forte para há uns 10 metros de minha barraca. A luz era branca, diferente das lanternas ou dos faróis dos carros. Olhei pelo forro da barraca, sem coragem de abrir o zíper, a luz que ficou ali parada um tempo. De repente ela sobe e desce, sobe e desce. Umas três vezes.
Você já pode imaginar o que poderia ser.
Bem, até hoje não sei o que foi aquilo, mas no outro dia estávamos todos certos de que tivemos a visita de uma nave espacial!
Ninguém duvidou de mim, tão pouco riu de minha covardia. Todos meus amigos concordaram de que é melhor não brincar com essas coisas.
Mas, na noite seguinte, você deveria estar lá para ver, não foi uma nave espacial. Fomos advertidos pelo Curupira. Sim, eu estava lá. Eu vi aquele baixinho pular da árvore no meio da trilha escura e olhar nossos rostos assustados. O mato era dele.
Foi o acampamento mais calmo de todos que participei. Ninguém foi pego pelos professores tentando ultrapassar a linha imaginária dos sexos, tão pouco não houve bagunça nem gritaria nas noites seguintes. Afinal, o pouso da nave espacial, o aviso do curupira e os uivos sedentos do lobisomem fizeram, todos nós, pequenos heróis, mergulharmos nos labirintos criativos de nossas histórias.
Você é claro que não está acreditando nisso. Também está acreditando estar seguro em sua casa, sua cama, sua poltrona. Não duvide das histórias que ouves por aí. Mesmo sendo a maior das mentiras, São Tomé deve ter se borrado inteiro quando Jesus voltou para lhe afirmar sua ressurreição. Não acredita?

Manhã no parque


O jacaré se espicha no sol.
Ai que preguiça!
Boa demais!

O corpo lateja
O tempo todo

Pulsa
Respira
Expira

Pira.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sonho nunca mais dormi

Desde que acordei de um sonho nunca mais dormi.

Recuso-me a sonhar novamente
Mas, me sinto sem forças.
Parece que sonho acordado.

Vivo um faz-de-conta.
Um espetáculo do bizarro, da fragilidade.
Escravo sendo exposto nu, para compra.

O meu passado tem becos escuros.
A minha história tem encontros com a dor.
Dor normal.
Dói, mas passa.

Um novo tempo promete, mas não agora.
A vida passa depressa.
O espaço entre uma letra e outra.
Entre uma palavra e uma frase.

Nada se faz sem o vazio.
Isso que se apresenta agora.
Um céu escuro e sem fim.
A história sem palavras.
A letra sem traço.
A poesia sem rima.
Um dedo aponta

Ao chão.

fotografia: Museu Oscar Niemeyer

Sou apenas

Escrevo para um dia ler novamente e tentar enxergar um passo novo.
Porque não sei

Sou poeta ou meramente atleta das letras
Que vive a correr em busca dessa coisa estranha
Que vem de repente na gente

Um engolir seco sorrindo ou espantando
Uma medalha ao mais novo cochicho
Ao mais recente brilho

Se arrisco a fazer poesia,
Sei lá se sai o que deveria sair...

Quando aquela coisa que vem como uma onda, cega,
Rouba meus desenhos e leva consigo meus castelos...

O sol beija as montanhas e se vai mais um dia.

Sequer percebo o que vai com ele.
Sequer percebo o que as estrelas me trazem...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ao Poeta

A vida segue não segue?
Independente de nós.
Estranho isso.

Como se fossemos passageiros de um trem
Em trilhos cravados na terra
O destino é inequívoco, absoluto.
Eu, um passageiro entediado, olhando a vida passar.

Encontrar-te, assim, de vez em quando, quase raramente,
É como uma parada numa estação, uma saída,
Caminhar sem o surdo barulho das rodas assassinas no aço imutável dos trilhos.

Sentir o chão batido da vida,
A alegria estranha de andar sozinho quando estou ao teu lado,

Volto ao trem absurdo que me leva,
Numa velocidade sem verso, nem prosa,

Nem a mais amarga das frutas, apenas o ritmo incessante e intransigente do aço.
Fico esperando a próxima vez
A próxima estação...

Quando vou descer para caminhar num caminho escolhido por mim?
Quando tomarei a vida nas mãos?

Deixar o destino aos marcados pela ignorância,
Deixar aos crentes de que não tem jeito?

Melhor não esperar tanto pela resposta.
Melhor seguir adiante, esperar a próxima estação...
Ou então, colocar a vida em jogo e pular pela janela.

Razão de ser assim

A morte é uma estranha que sempre que passa aqui fica me olhando
Eu me pergunto, o que quer essa estranha, feia e magrela
Ela não sorri, não pergunta, não responde
Passa

Estranho
Sinto faltar palavras
Tenho poucas
Resumidas demais

Tento
Juro que tento

Essa morte me tira a concentração
Sei que agora ela está passando ali
Olhando-me

Desgraçada
O que ela quer comigo?

Talvez devesse inverter a pergunta
O que eu quero com a morte?

Deixa ela lá, não é?
Não consigo.

O que não me faz esquecê-la?
Ela passa ali
Eu aqui

Resumo já sei por que!!!
Tenho pressa
Sei que a morte passa ali
Pressa de escrever, escrever, escrever...

A morte um dia chega aqui.
Ela me leva

Mas, a pobre desgraçada e isso eu sei, não sabe ler, não sabe escrever
Tem foice, mas não tem...
A morte não tem borracha.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Brincadeira

A escuridão do céu
Sem estrelas
O mato
O morro

Lá, longe daqui
Sem luz
Sem som
Sem pressa

Lá, bem longe daqui
Lá eu brinco de ser grande
Tão grande

Tão grande
Do tamanho do mundo
Tão grande
Bem longe daqui

Pego uma estrela nas mãos
Com um olho apenas, espio no meio dos dedos
O vaga-lume brincalhão

Sustentabilidade

foto Obra de Josué Demarche - local Museu Oscar Niemeyer



Pedra que precisa de pressão para mover-se
Talvez seja característica do homem entrar dentro de si
Com todas as forças
Evocar monstros
Lutar contra a morte
Percorrer os mais nebulosos caminhos para conquistar a si mesmo


E derrotar-se.