sábado, 28 de fevereiro de 2009

Entorpecido


Teus cabelos castanhos
Nem longos nem curtos
Finos
Insanos

Olhos límpidos
Mágicos
Alucinam num doce delírio

Sem entender
Por escrever
Talvez por mim
Talvez por você

Apaixonar-se por tua utopia
Tão delicada
Quase alegria
Por estar assim
Meio às avessas

Com os pés na cabeça
Como se num mergulho
Ao mar mais turvo
A lembrança mais doce

De uma pérola escondida no meio de tantas pedras estúpidas
Só por você.

Por nada adiantaria sorrir ou chorar
Ir ou voltar
Correr sem olhar
Escrever poesia sem saber amar.
Foto: "o Beijo" de Rodin

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Quintal


A pena chegou voando

A dor saiu rastejando
O riso pulou dos dentes

O samba baixou nos pés
O abraço engoliu os braços

Piruetas da capoeira
Preguiça de urubu

Sombra para um dia de sol
Sol para um dia de chuva

Roupas no varal!


foto: http://br.olhares.com/varal_de_roupas_foto534471.html

Conhaque

Aquele que tomava sozinho, no balcão do bar
O melhor lugar para se ficar num bar é no balcão

O hoje pelo ontem?
Qualquer dia apareço por lá

Sei lá
Lá sei

Melhor esperar o inverno chegar

Quinta-feira

Amanheceu com chuva

Friozinho
Sair da cama

Coragem

O inverno nem chegou ainda
Saudade

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Dínamo

Talvez eu seja apenas um sonhador
Quero correr atrás deles

Fico aqui lutando contra mim mesmo
Meu lado escuro, que me faz parar

Se fosse impossível
Não é

Se fosse fácil
Não é

É Preciso achar forças para tudo
Como se não houvesse controle

Parece que estão escondidas...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

São Tomé

São Tomé

Lembrei que há muitos anos, num acampamento...
Vamos voltar um pouco. Naquele tempo sempre gostei do mato, do morro, dos rios, das cachoeiras. Vivia neles. Sempre que podia estava acampando, percorrendo trilhas, escalando pedras, descobrindo lugares incríveis.
Participei de um grupo do meu colégio, orientado pelos professores de lá. Um grupo que tinha pretensões religiosas, e até conseguia transmitir seus princípios. Coisa importante para a Santa Igreja.
Permito um parêntese aqui, que eu mesmo fui envolvido por esses princípios e segui-os durante anos de minha vida, mas algo no meio do caminho falhou. Fiz primeira comunhão, mas não conta tanto, pois era mais escolha de meus pais que minha, mas fiz também crisma. E essa foi escolha minha. E acreditava, tinha fé que se dissesse tudo ao padre na hora da confissão, com toda certeza teria um lugar melhor aqui e além daqui. Mas, não quero me prolongar aqui, pois tenho outra história para contar, tive um pequeno desvio, a peste tomou conta de mim. A tal da psicanálise e o compromisso de não recuar diante do meu desejo puseram em mim um ceticismo tamanho que hoje só acredito em mim mesmo. Porém paradoxalmente, sinto-me o próprio São Tomé.
Então, como ia dizendo, participava deste grupo. Era realmente muito bom participar daquilo. Foi através daqueles encontros que tomei gosto pela escrita. Não sou daqueles que tiveram pais sedentos por leituras, que na sala de estar havia uma biblioteca ou coisa assim. Minha mãe, eu lembro que gostava de ler a Veja e meu pai, não conseguia entender como ele lia tanto aquele jornal Gazeta Mercantil. Ambos também, até onde sei, não eram adeptos a escrita como forma de expressão de si mesmo. O máximo que conheci disso eram pequenos bilhetes e agora lembro que meu pai, de tanto pedir para puxar a descarga do banheiro e não alcançando um satisfatório êxito, certo dia me fez deparar com um bilhete colado no azulejo, em letras bem desenhadas, solicitando cordialmente que não esquecêssemos de puxar a tal descarga.
E de leituras fui gostar delas só lá na vida adulta, não tinha gosto por isso, nem no colégio, nem em casa, isso foi me apresentado como algo agradável. Bem, gibis há até hoje. A família toda é fã incondicional das criativas histórias de Maurício de Souza.
Aprendi a gostar de escrever sozinho mesmo. Aliás, nem tão sozinho. Foi graças a esses grupos de jovens que participei que conheci dezenas de pessoas. E, como naquela época não havia Internet, eram por cartas as correspondências e notícias dos amigos e principalmente amigas. Francamente não era lá muito inclinado a escrever para amigos. Gostava mesmo das amigas. Não por acaso. Tinha uma timidez absurda. Uma dificuldade incontestável nessa esfera. Então, me dava muito bem com essas cartas e com essas amigas. Tive um grande amigo, com quem me correspondi por meses, mas uma menina, que foi minha grande paixão a distancia, pôs esta amizade em banho Maria. Morri de paixão por ela, mas é outra história.
Então escrevia muito. Escrevia tanto que cheguei ao ponto burlar o sistema de correios, arrancando delicadamente com uma chaleira fervendo os selos usados para reaproveitá-los. Funcionava. Economizei uns trocos com este pequeno delito adolescente.
Então, nesse grupos nutria duas paixões: minhas correspondências com as amigas e os acampamentos com os amigos e amigas. Lá também aconteciam romances silvestres com minhas conterrâneas.
Nesses acampamentos, o sistema era sempre o mesmo: Num campo aberto, no meio ficavam os professores e de um lado a barraca dos meninos e de outro a barraca das meninas. Aí já dá para imaginar a euforia, os planos e as aventuras para alcançar os segredos do corpo e da sexualidade. Éramos todos jovenzinhos, ansiosos pelas descobertas da vida.
A história que quero contar, deixo tantas outras aí para depois, aconteceu num desses acampamentos. Foi um final de semana péssimo, choveu quase o tempo todo. Lama, roupas molhadas, tênis molhado. Dormindo em barraca. Era coisa de louco. Mas, quem estava lá, não pedia para voltar. Foi numa noite. Geralmente dividíamos as barracas. Francamente não lembro quem dormia na mesma que eu, mas, apenas o barulho do rio tomava conta de tudo. Estava desconfortável, não encontrava posição para dormir. Meu amigo, lembro que não se mexia ali do lado. Ou fingia ou dormia profundamente. Em certo momento, naquela escuridão. Lá sim é escuro. Vejo uma luz forte para há uns 10 metros de minha barraca. A luz era branca, diferente das lanternas ou dos faróis dos carros. Olhei pelo forro da barraca, sem coragem de abrir o zíper, a luz que ficou ali parada um tempo. De repente ela sobe e desce, sobe e desce. Umas três vezes.
Você já pode imaginar o que poderia ser.
Bem, até hoje não sei o que foi aquilo, mas no outro dia estávamos todos certos de que tivemos a visita de uma nave espacial!
Ninguém duvidou de mim, tão pouco riu de minha covardia. Todos meus amigos concordaram de que é melhor não brincar com essas coisas.
Mas, na noite seguinte, você deveria estar lá para ver, não foi uma nave espacial. Fomos advertidos pelo Curupira. Sim, eu estava lá. Eu vi aquele baixinho pular da árvore no meio da trilha escura e olhar nossos rostos assustados. O mato era dele.
Foi o acampamento mais calmo de todos que participei. Ninguém foi pego pelos professores tentando ultrapassar a linha imaginária dos sexos, tão pouco não houve bagunça nem gritaria nas noites seguintes. Afinal, o pouso da nave espacial, o aviso do curupira e os uivos sedentos do lobisomem fizeram, todos nós, pequenos heróis, mergulharmos nos labirintos criativos de nossas histórias.
Você é claro que não está acreditando nisso. Também está acreditando estar seguro em sua casa, sua cama, sua poltrona. Não duvide das histórias que ouves por aí. Mesmo sendo a maior das mentiras, São Tomé deve ter se borrado inteiro quando Jesus voltou para lhe afirmar sua ressurreição. Não acredita?

Manhã no parque


O jacaré se espicha no sol.
Ai que preguiça!
Boa demais!

O corpo lateja
O tempo todo

Pulsa
Respira
Expira

Pira.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sonho nunca mais dormi

Desde que acordei de um sonho nunca mais dormi.

Recuso-me a sonhar novamente
Mas, me sinto sem forças.
Parece que sonho acordado.

Vivo um faz-de-conta.
Um espetáculo do bizarro, da fragilidade.
Escravo sendo exposto nu, para compra.

O meu passado tem becos escuros.
A minha história tem encontros com a dor.
Dor normal.
Dói, mas passa.

Um novo tempo promete, mas não agora.
A vida passa depressa.
O espaço entre uma letra e outra.
Entre uma palavra e uma frase.

Nada se faz sem o vazio.
Isso que se apresenta agora.
Um céu escuro e sem fim.
A história sem palavras.
A letra sem traço.
A poesia sem rima.
Um dedo aponta

Ao chão.

fotografia: Museu Oscar Niemeyer

Sou apenas

Escrevo para um dia ler novamente e tentar enxergar um passo novo.
Porque não sei

Sou poeta ou meramente atleta das letras
Que vive a correr em busca dessa coisa estranha
Que vem de repente na gente

Um engolir seco sorrindo ou espantando
Uma medalha ao mais novo cochicho
Ao mais recente brilho

Se arrisco a fazer poesia,
Sei lá se sai o que deveria sair...

Quando aquela coisa que vem como uma onda, cega,
Rouba meus desenhos e leva consigo meus castelos...

O sol beija as montanhas e se vai mais um dia.

Sequer percebo o que vai com ele.
Sequer percebo o que as estrelas me trazem...

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Ao Poeta

A vida segue não segue?
Independente de nós.
Estranho isso.

Como se fossemos passageiros de um trem
Em trilhos cravados na terra
O destino é inequívoco, absoluto.
Eu, um passageiro entediado, olhando a vida passar.

Encontrar-te, assim, de vez em quando, quase raramente,
É como uma parada numa estação, uma saída,
Caminhar sem o surdo barulho das rodas assassinas no aço imutável dos trilhos.

Sentir o chão batido da vida,
A alegria estranha de andar sozinho quando estou ao teu lado,

Volto ao trem absurdo que me leva,
Numa velocidade sem verso, nem prosa,

Nem a mais amarga das frutas, apenas o ritmo incessante e intransigente do aço.
Fico esperando a próxima vez
A próxima estação...

Quando vou descer para caminhar num caminho escolhido por mim?
Quando tomarei a vida nas mãos?

Deixar o destino aos marcados pela ignorância,
Deixar aos crentes de que não tem jeito?

Melhor não esperar tanto pela resposta.
Melhor seguir adiante, esperar a próxima estação...
Ou então, colocar a vida em jogo e pular pela janela.

Razão de ser assim

A morte é uma estranha que sempre que passa aqui fica me olhando
Eu me pergunto, o que quer essa estranha, feia e magrela
Ela não sorri, não pergunta, não responde
Passa

Estranho
Sinto faltar palavras
Tenho poucas
Resumidas demais

Tento
Juro que tento

Essa morte me tira a concentração
Sei que agora ela está passando ali
Olhando-me

Desgraçada
O que ela quer comigo?

Talvez devesse inverter a pergunta
O que eu quero com a morte?

Deixa ela lá, não é?
Não consigo.

O que não me faz esquecê-la?
Ela passa ali
Eu aqui

Resumo já sei por que!!!
Tenho pressa
Sei que a morte passa ali
Pressa de escrever, escrever, escrever...

A morte um dia chega aqui.
Ela me leva

Mas, a pobre desgraçada e isso eu sei, não sabe ler, não sabe escrever
Tem foice, mas não tem...
A morte não tem borracha.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Brincadeira

A escuridão do céu
Sem estrelas
O mato
O morro

Lá, longe daqui
Sem luz
Sem som
Sem pressa

Lá, bem longe daqui
Lá eu brinco de ser grande
Tão grande

Tão grande
Do tamanho do mundo
Tão grande
Bem longe daqui

Pego uma estrela nas mãos
Com um olho apenas, espio no meio dos dedos
O vaga-lume brincalhão

Sustentabilidade

foto Obra de Josué Demarche - local Museu Oscar Niemeyer



Pedra que precisa de pressão para mover-se
Talvez seja característica do homem entrar dentro de si
Com todas as forças
Evocar monstros
Lutar contra a morte
Percorrer os mais nebulosos caminhos para conquistar a si mesmo


E derrotar-se.