terça-feira, 26 de maio de 2009

Azedo

Contradição
Quero ir, mas não vou
Amarro firme o corpo em pedra
Viro a pedra

De tempos em tempos, fico tão bem
Tão bem que nada sai
Nada vem
E a escrita fica assim...

É como expremer um limão
Forçar o suco azedo e ácido
Tirar da casca
Esperar o açúcar

O doce demora
Não chega
A sede aumenta

A vida é intensa todos os dias
Mas, tem dias que não fazem parte
De todos os dias.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tempos de guri


A minha história é um poema
Tem rima, tem beleza, tem amor
Mas, também tem a tristeza
Consequência de quem é um sonhador

Os caminhos que outrora percorri
Têm pegadas bem marcadas
Do meu tempo de guri
Dos amigos, das fogueiras e das boas gargalhadas

Foi-se o tempo de menino
Que saudade da Usina
Altura que dava medo
Pular era uma sina

Agora, aqui, longe da minha infância
Sou crescido, gente grande
Ensaiando poesia

Da saudade, vou adiante
Foi um tempo de alegria
A palavra surge e marca a batida dessa vida pulsante.
Foto: cachoeira da Usina - Corupá, SC.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Penas

Pena de sentimento
Identificação

Pena que desce do vôo
Sobra da evolução

Pena que risca o papel
Marca de produção

Pena do tribunal
Castigo para o ladrão

Sujeito

A imagem captura, aliena, hipnotiza
Ignora qualquer palavra, som ou gesto
Miragem de completude que a morte finaliza
É Narsciso afogado na beleza do reflexo

Quem da imagem ainda espera
Uma palavra, um som ou um gesto
Espelho trincado, cacos de uma quimera
É tristeza que transborda da imagem em puro resto

A imagem despedaçada
Pedaços do corpo em vidro

Um história 'embaraçada'
Imagem humana... Ser vivo

Cicatriz de costura cega
Fantoche, retalho, marionete
Pano, vidro e luz de vela

A tesoura corta a morte
De um lado, tem a lembrança
De outro, a pura sorte.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Vida cotidiana




Meu descanso na varanda
O sol ainda é intenso lá fora
Teu gesto suave de mulher amada
Que vontade de ir embora

Caminho entre pedras pequenas
Busco um lugar com sombra
Bebo água dada por moça bonita
Olhos vivos de menina que namora

A beleza não conforta

É paisagem conhecida
Vou embora lá em casa
Tenho amor, comida e pinga

Pouco importa a cor do céu
Quero noite em vigília de saudade
Sem estrelhas ou de papel

Minha amada vem chegando
Quero paz nesse horizonte
Traz a música, a festa e enfim, o descanso.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Escre(mo)vendo


Eu tenho
Tu tens?
Ele tem?
Quem não tem?

Eu sou
Tu és?
Ele é?
Quem não é?

Tens
És
O quê?

Todo dia
Todo santo dia
Alguém me pergunta: És bom? Tens uma moeda?

Não
Não sou bom
Não tenho moedas

O que tenho... não sei
O que sou, menos ainda
Fácil é dizer o que faço

A pena...

sábado, 9 de maio de 2009

Dia de mãe

Mãe?
Mãe?
Ô mãe???
Quié meu filho...
Tive sonho ruim... posso entrar?
Pode, mas não acende a luz, teu pai não gosta.
Deixa eu dormir com vocês?
Ai meu filho, teu pai não dorme direito assim... fica muito apertado.
Ali mãe, no pé, ninguém vai sentir...
Ai meu deus! Que sonho foi esse?
Foi sonho ruim, pesadelo...
Peraí... Vamos lá na cozinha, vou te fazer uma água com açúcar. Teu pai roncando me dá certeza que não acordou...
...
Bebe essa água... vai te ajudar a dormir melhor... essas coisas de sonho meu filho, são coisas só do sonho...
Mas, mãe e como faz pra esquecer?
Não esquece, meu filho, se teve um sonho ruim, lembra dele resolve o problema no pensamento...
Mas, mãe... era o diabo!!!
O diabo?
Sim... ele primeiro me dava uma bala e eu comia, depois eu vi ele vindo prá nossa casa... quando vi ele de costas, tinha rabo e pé de porco...
E aí... o que aconteceu?
Eu gritei, pra avisar, mas minha voz não saia, não conseguia correr também...
E aí menino, fala?
Aí eu acordei...
Vem, volta pra cama e leva essa garrafinha com você.
O que tem dentro?
Água benta... se ele aparecer, você joga no rabo dele...
Tem certeza mãe?
Claro, ou você acha que a gente cresce como?
Como?
Perdendo o medo, meu filho, o medo da vida...
Mas, era o diabo mãe?
Vai meu filho, to com sono... se ele aparecer, já sabe... água nele...
Tem certeza que é benta?
Sim, eu que levei pro padre Bento benzer.
Então tá...
Boa noite meu filho.
Boa noite mãe...

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Prosa de Dor


Dor?
Que dor? Mesmo se tivesse, negaria até o fim diante do mundo.
Dor eu tenho sim, doutor. Dor é como segredo, todo mundo tem um. Aposto que o doutor tem aí dentro uma mão cheia de dor. É assim mesmo, quem não tem que atire a primeira pedra, assim mais do que acertar a pecadora, passa a ter uma nova dor... a dor da raiva.
Pois é, dói nascer, crescer, amar, acordar, dormir, odiar. Tudo dói nessa vida. E dúvido que o doutor tenha remédio para qualquer uma dessas dores. Com todo respeito, o doutor sabe curar um monte de dor, mas é dor do corpo, não da alma.
A dor que me traz aqui até o senhor, sei que tem remédio, esse meu calcanhar... como? Tendi o quê? Tendinite? Cada dor tem um nome né? Deve ter um remédio pra isso... tem? Ainda bem. Porque pra dor que tem remédio, pronto, tá resolvido... pra essas tantas aí que falei por senhor, essas a gente convive, acalma elas com o dengo da patroa, com a cerveja, os amigos, o futebol, a igreja. Não, não, o senhor não se preocupe, não bebo todo dia não, só de vez em quando... porque se beber demais, a patroa reclama e aí é dor que não acaba mais... Igreja? vou de vez em quando, não gosto muito daquela gritaria, desespero... e na católica me dá um sono...
Obrigado doutor, vou tomar esses remédios, essa dor eu tiro de letra, o resto vou vivendo...