quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Casaco do Gigante

Quando penso no universo
Imagino a terra como aquelas bolinhas que fazem nos casacos de lã
No casaco de um gigante

Frágil e desprezível
Fica por conta de seu humor
Enquanto ele não se importa, vivemos

E como o tempo é uma instância humana
Os dias, os anos, séculos...
Tudo pode ser relativo

Ao invés da grande explosão
Quem sabe não nascemos no dia em que o casaco do gigante foi lavado
E, o que pode ser contado como milhões ou bilhões de anos, para o gigante, foi o tempo de lavar e secar.

Quando o homem foi até ali na lua, foi como ir até a bolinha do lado
Insignificante

Só torço para que este gigante alheio nunca fique entediado
Nunca assista uma aula chata
Que seu ônibus nunca atrase
E principalmente, nunca encontre o ínfimo prazer de arrancar as bolinhas do seu casaco.

O sol?
Ah sim, o sol é um pedacinho de purpurina que veio do último carnaval
Na terra dos gigantes.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A caneta

Ganhei de presente uma caneta bordô. Achei bonita, diferente das demais que tenho. Uma caneta pesada e com uma escrita leve, vai caminhando rápida no papel. Boa para anotações para a mesma velocidade.

Deixo ela aqui no consultório, só uso aqui. Tenho várias razões para essa escolha feita dentre as demais canetas. Primeira, por ser um presente, segunda, por ter recebido de minha entusiasta companheira e terceira, por ser a única caneta que ainda tem tinta.

Mas, algo muito interessante acontece com ela. O que me faz deixá-la no consultório é algo que me intriga, pois todas as vezes em que estou indo embora e começo a guardar aquilo que levarei comigo, olho para ela e tenho a nítida impressão que ela também me olha.

Hesito por um instante diante do seu apelo e um conflito diário com a caneta é colocado e sempre com um ar de primeira vez. Dura poucos segundos, mas tempo para pegá-la, girá-la e vê-la se esconder em sua estrutura metálica e oca. Coloco então em cima da escrivaninha, num lugar de fácil visibilidade, talvez para vê-la imediatamente após chegar no dia seguinte. Sinto uma tristeza nessa hora, como numa despedida, um até breve... E no dia seguinte, é a mesma coisa.

Então, pensei no que poderia acontecer se levasse minha caneta embora comigo. Fico desde já imaginando sua alegria ao ser despertada nos caminhos que farei. Quantas novidades ela ainda pode ter. Viver além das pequenas anotações de agenda, dos compromissos, nomes e números. Percorrer histórias nas idéias que a memória pode esquecer, nos pequenos recados, lembretes, inspirações. Que realce seus caminhos no papel vai deixar, suas curvas, traços e pontos.... Quantas histórias tem nessa vida para contar?

sábado, 18 de julho de 2009

Ex pôr


Se falo, não sei
Se não falo
Sei!

Quem pergunta?
Quem responde?
Silêncio!

Verdades e mentiras na terra da boa vontade
Onde o inferno está cheio

O silêncio na mesa
A cerveja e o vinho
Tempo de procurar

Espera por uma isca
Uma palavra para falar
Qualquer coisa não dá

O que falar será?
Presos numa esfera de pudores
Isso dá
Isso não dá
O que vão pensar?

Confusão
Branco
Preto

Escreve o silêncio?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Esboço II

Era difícil entender como pode ter aquele momento de lucidez com um trauma tão intenso na cabeça.
Até hoje Eustáquio se pergunta sobre isso, não sabe dizer na verdade o que aconteceu e uma mistura de saudade e culpa lhe toma todas as noites. E nesta, especialmente, a raiva também participa. A chuva não para e num ato de desespero, mais pelos pensamentos que lhe atormentam que pela chuva em si, calça uma bota, coloca uma capa de chuva e seu chapéu. Sai de casa, vai até o galpão, vê lá seus bichos assustados com a luz do lampião que cega pela noite escura. Pega uma picareta e vai até a pedra onde Antônia escorregou. A pedra é convexa, como um rosto sem nariz ou boca e faz a margem da nascente, tem em torno de dois metros de comprimento por um de largura. A água já estava pela metade da pedra. Ali começa a cavar. Indo pelos cantos vai expondo o tumor de sua alma.
A noite passou assim, Eustáquio abrindo um imenso buraco ao redor da pedra. Já era possível ver sua dimensão, quando tomado pelo cansaço, parou. Um pedaço de céu azul por onde chegavam luzes de sol e calor anunciava o fim da chuva e o começo de um pouco de paz. A pedra ficou ali, exposta, junto com a água barrenta em que se transformou a nascente. Os bichos já chamavam para a rotina dos dias mas, aquela pedra tinha que ser removida. Talvez para remover a culpa, a saudade, as lágrimas de todas as noites, a solidão...
Largou ali a picareta, e foi cuidar da rotina. Acendeu o fogão de lenha, passou no galpão, abriu as portas, deu comida aos bichos, tomou um café, enquanto seus pensamentos arquitetavam um plano para expelir a pedra daquele lugar. ‘Vou quebrar ela inteira’ pensou.
Coisa rara era ver Eustáquio na vila. Ia lá uma vez por mês apenas para levar os ovos, os queijos, as verduras e legumes que cultivava em seu sítio. Em troca trazia sal, açúcar, café e charque. Mas, desta vez levou apenas quatro bananas de dinamite, alguns metros de pavio e uma garrafa de pinga. Seu João da venda estranhou o seu aparecimento fora de hora e dia, assim como o que estava levando. ‘Vai explodir o que seu Eustáquio?’ tentando puxar uma conversa enquanto embrulhava as bananas. ‘Vou acabar de vez com a tristeza do mundo’, respondeu de forma séria e com os olhos nitidamente cansados. ‘Se quiser ajudo o senhor com isso, deve ser trabalho duro...’
‘Não, agradeço, mas isso é coisa minha e vou resolver’.
Saindo da venda, parou e olhou a rua principal, a Igreja, a praça e a lotérica. O movimento normal da cidade parecia estranho, como se fizesse tempo que não ia para lugar nenhum. No caminho de volta parou numa borracharia e levou junto seis pneus velhos.
Na pedra fez um buraco ao lado e enfiou a dinamites nela. Os pneus foram colocados por cima e amarrados. Afastou todos os bichos para o lado oposto do sítio, abriu a garrafa de pinga, deu um gole e acendeu o pavio. Viu a luz correr pelo fio e se afastou rápido. A primeira explosão rachou a pedra em duas partes. Repetiu com as outras três dinamites e a cada explosão via a pedra se transformar em pedaço cada vez menores, deixando um vazio em seu lugar, assim como ia ficando cada vez mais bêbado.
Ao término das explosões já falava sozinho, ria e chorava ao mesmo tempo. Entrou em casa e tomado pelo cansaço dormiu.
Acordou apenas no dia seguinte. Era como se tivesse sonhado tudo aquilo. Lembrou da criação que ficou a noite solta no sítio. Levantou e saiu rápido para comprovar o que tinha feito. Ao abrir a porta, Angelita, sua vaca mais velha ruminava na varanda olhando para ele com um ar manso e calmo. Eustáquio sorriu e levou-a, junto com os demais bichos até o galpão onde deu de comer e beber. A pedra não estava mais lá, nem Antônia, nem a tristeza. Ficou o vazio da saudade e a verdade de que agora pode voltar a viver.

sábado, 11 de julho de 2009

Esboço

A chuva caia torrencialmente. A pequena casa vibrava com o som da água caindo nas telhas, nas calhas, nas árvores, na nascente que ia tomando a cada minuto proporções de um riacho. As galinhas, patos e gansos eram os pensamentos de Eustáquio, no galpão que ficava entre a casa e a nascente. Eram oito dias chovendo. Por vezes abrandava, parava, mas o céu escuro denunciava uma nova e violenta precipitação.
Há cinco anos estava ali sozinho, desde que sua esposa, Antônia, faleceu de forma inesperada, escorregando na pedra ao lado da nascente, quando resolveu pegar dali a água para dar aos bichos. Eustáquio encontrou Antônia, um tempo depois que não soube definir, ainda viva, com uma poça imensa de sangue que deixava a nascente sangrando junto. "Ela não teve culpa, ninguém teve culpa", repetia ela enquanto Eustáquio tentava desesperadamente erguê-la dali, mas seu pescoço mole e o crânio aberto davam a impressão que iria cair tudo de sua cabeça para fora. Tentando confortá-la disse que estava tudo bem, era só um corte, que iria chamar o médico. Antônia, sabendo de seu destino, disse "Eustáquio, meu amor, siga sua vida e não se esqueça de mim". Contendo as lágrimas e o desespero, Eustáquio viu sua esposa de um casamento de trinta e cinco anos ir embora, parte em seus braços, parte a nascente levando embora.

terça-feira, 7 de julho de 2009

E então...


E então, quanto se perdeu
Foi-se o tempo
Passou
Não volta mais

E então, quanto se perdeu
De tudo isso
Quase nada
Quase tudo

Então, quanto se perdeu
Por ficar em casa
Por estar chovendo
Por ficar triste

Por não saber
Por saber demais

Ir embora cedo demais
Não esperar o apagar das luzes
Sono demais

Então, quanto se perdeu
Por não falar na hora "H"
Achar que não sabe dançar
Desculpas, argumentos
Vergonha

Aquela música que não vai tocar
Então, quanto se perdeu

Coleção de fragmentos
Pequenos versos
Pedras
Conchas
Cacos
Panos
Cheiros
Sabores

A história não conta
O tempo perdido na cama
O tempo esquecido nos vazios da solidão

E então, quanto se perdeu.


sexta-feira, 3 de julho de 2009

Cafezinho

O vapor que sai da chaleira
A água que vai pelo ar
O pó cheiroso na prateleira
Coador e destreza na hora da água passar

A boa hora do café
Dia frio, cigarro e prosa
Vai bem essa bebida quente
Aquece o corpo, estimula a alma

Tem café, tem cafezinho
Não importa o que vem misturado
É só passar devagarinho
Água quente, pó e cuidado

Café tem sempre razão de fazer
Depois de comer ou antes da grande viagem
Amor, amigos, uma carta para ler
Pela manhã, pelo cansaço, desculpa para vadiagem

Na hora que nasce a criança
É café admirando a tenra idade
Na hora de velar a lembrança

Aquece a dor da saudade
Na hora da visita
Café é passado na hora
Na vida, no dia-a-dia
Café, vale até requentado