terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nada

Criação é algo que vem de dentro
Dentro de onde?
Um corpo inscrito, descrito, traduzido
Um corpo vivo.

Das inscrições de um corpo
O mundo traduz
Das inscrições de um mundo
O corpo cala.

Olho o mundo ao meu redor
Procuro tudo aquilo que incomoda
A dor, angústia, tristeza
Para que buscar felicidade?

O que traz a felicidade?
Aquela sensação de prazer momentânea
E logo vai embora...
Nada.

Criação é algo que vem de dentro
Dentro de um buraco
Arranca de lá um nada
Vazio de si.

Como diz nas escrituras,
"No princípio era o nada"!
Diria, cometendo meu novo pecado,
No princípio era a dor!

Há que sofrer, ao menos um pouco
Um tanto suficiente
Para encostar o peito na terra
Esticar a mão

Encostar o rosto na terra
Esticar os dedos
Alcançar lá no fundo
O nada.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

De repente

Assim de repente
Escrevo essa história
Um tanto demente
Que vem na memória

Palavra que é dita
Não pode falhar
Se ela é bonita
Melhor decifrar

Perdi esse fio
Não tenho meada
Transbordo esse rio
De vida aguada

Que coisa estranha
Começo bonito
Na letra insana
Acabo aflito

Na página branca.

sábado, 17 de outubro de 2009

Existir




Contava as ondas batendo na praia
No tempo lento e vão da solidão
Era alegria que embora esquecia
Logo sobrava a imensa aflição

Ah, como desejo àquilo de outrora
Crucificando hoje no passado
Novas escritas não cabem agora
Só amanhã, permaneço calado

Quantas ondas ainda baterão?
Sempre outro dia é mais fácil que hoje
Seguindo a vida, constante ilusão
Alma vazia, história que some

Fantoches dessa vida desgraçada
Agonizando nas mãos da tragédia
Vou caminhando, levando porrada
Logo amanhece e será outro dia

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Dia das crianças

Dizem que bom é ser criança sempre, que devemos cultivar a criança que está em nós, que, por Deus, sejamos crianças eternamente!
Será isso saudade? Será a memória seletiva de um tempo que também teve lá seus grandes problemas?
É amiguinhos, ser criança é sim muito bom, mas é também um tempo de muitas batalhas, muitas derrotas e algumas vitórias. Claro que não vou acabar com esse dia assim, tão feliz a tantos bacuris, fazendo aqui a defesa do vilão.
Mas, se há uma criança em todos nós, diria então que ela é como aquelas visitas chatas, que bagunçam sua casa, demoram para ir embora, falam alto, quebram seus copos, sujam a mesa com cerveja e não têm vergonha de invadir seus albúns de família e debocharem de suas fotografias. Aí você pensa, 'parece criança, credo!'
Criança tem tempo de ser. Depois, adeus! Se despede da pequena, diz que vai sim sentir muitas saudades, que foi muito bom, mas o tempo acabou. A gente cresce, sem demora, cresce e segue a vida. E na vida adulta, criança só atrapalha.
Então, hoje digo, viva o dia das crianças de verdade, aquelas divertidas, choronas, espoletas, manhosas, sinceras, delatoras, que falam com as bonecas, que são os heróis, que voam com a imaginação.