quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Hã?

No carro, voltando do trabalho ouvi o Boris Casoy dizer: “É como dar murro em puta de faca”. A frase certa seria, dar murro em ponta de faca. Fiquei na dúvida, será que ouvi direito? Foi um ato falho do Boris? O Boris, tempo vai tempo vem faz uma dessa em seus improvisos. Porém, logo em seguida minha dúvida submergiu numa cena: Um homem contrata uma garota de programa, ela tenta assaltá-lo e o homem, para se salvar, tenta dar um murro em puta de faca! Selvagens???

sábado, 21 de agosto de 2010

O Ditador

O barulho do chuveiro desperta o homem daquela cama estranha. Olha ao redor, a cabeça ainda pulsa, como se o cérebro com vida própria quisesse sair pelos olhos. A porta entreaberta do banheiro, percebe que dormiu nu. Avista sua calça jeans no chão, a camiseta, as meias, o sapato, um só, deve estar embaixo da cama, pensou já arquitetando uma saída rápida, não sabia onde estava, nem quem era no chuveiro, nem se estava numa casa, num apartamento, que horas eram?
Era melhor ser rápido, pela dúvida, estar vestido e pronto na hora que não sei quem sair daquele chuveiro. A calça, cadê minha cueca, vai sem ela, a camiseta, as meias, uma, duas, os tênis, um, outro, sabia, embaixo da cama. Pronto. A porta do quarto, vou abrir, sair, o chuveiro é desligado. Agora vou mesmo.
A porta do box do chuveiro range, abre, ouve a toalha. E agora? Não vou ficar plantado no meio do quarto esperando sei lá quem vir me explicar o que aconteceu.
Antônio? Uma voz feminina, de mulher mesmo. Ufa, pelo menos é mulher e não homem.
Oi?
Está acordado?
Sim, já levantei.
Não quer tomar um banho? A noite foi longa não foi? Em tom irônico ela diz.
Não, não precisa, responde ainda sem ver a mulher que se enxuga no banheiro.

A porta se abre inteira. Como numa lenta câmera, vê uma mulher enrolada numa toalha, secando os cabelos. Era linda, morena, alta e com seios e quadris proporcionais no quesito fartura. Tinha a pele morena, os cabelos pretos, os olhos castanhos grandes, a boca forte, lábios grossos. Aparentava no máximo vinte e oito anos. Não acreditou que dormiu com aquela mulher.
Para, sorri e lhe dá um beijo em sua boca.
Antônio, olha, não lembra de nada, tenta montar a história desde a última lembrança. Estava no trabalho, havia combinado com os colegas de irem num bar ali na esquina e beber umas cervejas, era sexa-feira. Foram.
Eram dias difíceis, havia acabado de encerrar um longo processo de separação de sua ex-mulher. Ela queria, ele não. Foi até o fim e se acabou inteiro nessa história, com seus quarenta e cinco anos, envelheceu uns dez. Agora estava só, sua filha ficou com a mãe e a cada quinze dias dormia em seu pequeno apartamento na praça Osório, barato e sem garagem, que seu carro ficou com o advogado nas custas do divórcio.
E, querendo sumir daquele quarto, exitou quando saiu daquele banheiro aquela mulher de feições fortes e ao mesmo tempo gentil.
Vamos tomar um café, perguntou ela com um sorriso.
Vamos, disse ele.
Ela deixou a toalha cair, viu seu corpo nu, era linda, em pleno mês de maio, sustentava marcas pequenas do biquíni, só embaixo, nos seios não haviam marcas. Quem é essa mulher, pensou.
Desculpe, mas estou um pouco confuso, acho que bebi demais ontem, eu não sei seu nome...
Lúcia, respondeu interrompendo-o, eu sei, você bebeu mesmo... deveria tomar um banho. Talvez melhore, erguendo os braços e deixando cair sobre seu corpo nu uma camiseta que cobriu seu sexo até o começo das coxas.
Caramba, pensou ele, já achando que havia tirado a grande sorte, sem saber nem como nem onde jogou.
Vamos tomar um café, já vai me ajudar, disse ele. Mas antes, posso usar o banheiro?
Ah, seu ditador lhe chama...
Ele não entendeu, mas foi ao banheiro, lavou o rosto, se viu no espelho, sentiu-se velho, preciso cortar o cabelo. E agora? Pensou.
Quando saiu, ela não estava mais ali. Abriu a porta do quarto, saiu, era uma casa, grande, desproporcional ao tamanho do quarto. Foi por um corredor, olhou ao redor, várias fotos nas paredes, outras portas, um banheiro aberto, uma sala grande, uma mesa, uma lareira, a cozinha, junto a sala uma janela grande dividia com um jardim, uma varanda, flores, sol.
Ficou ali olhando, ela estava na cozinha, que se ligava a sala por um balcão. O cheiro do café já surgia. Sentiu vontade. Sua dor de cabeça diminuía.
Mora sozinha?
Sim, essa casa era dos meus pais, morreram os dois naquele acidente da Gol, lembra?
Puxa, sinto muito, foi uma tragédia.
Agora já aceitei. Nesse país de merda, a gente morre sempre de forma absurda.
Verdade. Esse país é uma merda, disse pensando no seu divórcio.
Gosta de fotografia?
Você bebeu mesmo né? Eu te falei ontem, trabalho com fotografia.
Realmente, não lembro, aliás, não lembro de nada, nem sei como cheguei aqui.
Não acredito! Nos conhecemos lá no Beto...
Que Beto?
Meu deus, no Beto Batata.
Ah, peraí, você é a mulher do banheiro...
Isso mesmo, disse ela, sorrindo de forma maliciosa.
Por isso que gosto desses bares de banheiros unissex, brincou ele.
Antônio, já mal conseguindo ficar de pé, escorou-se na parede ao lado do banheiro. O bar estava cheio, o barulho alto, quase não se ouvia o piano, a flauta, o pandeiro e o cavaquinho que tocavam chorinhos sem parar, todos iguais. Apertado, esperando já não sabia quanto, bateu na porta para apressar o mijão.
Vamo porra! Quero mijar! Disse ele, coisa que nunca fez foi escândalo ou baixaria por causa de bebedeira. Sempre foi cauteloso e geralmente dormia antes de chegar nesse estágio. Mas, talvez por agora estar sozinho de novo, sentia-se livre também dos olhares censuradores de sua ex. Esta, uma mulher fina, de bom gosto, que sempre bebeu no máximo duas taças de vinho, acompanhadas por quase dois litros de água. Nunca ficava bêbada.
Mas, voltando, quando ia bater de novo na porta, sai Lúcia e outra mulher. Ela olha e diz, mas que pressa é essa? Temos a noite inteira, disse brincando. Ele, sem jeito, encontra a saída, sim temos sim, mas ele aqui é um ditador filho da puta que está me torturando para conseguir entrar aí. Ela acha graça, mais pelo seu estado do que pela tentativa de ser divertido.
Na saída do banheiro é outro homem, como se realmente tivesse se livrado do ditador. Seus amigos já foram, todos casados, pelo menos ainda. Era o primeiro novo solteiro que acabara de atravessar o purgatório da separação. Era tarde, o bar fecha cedo. Pediu outra garrafa de vinho. Saiu para beber cerveja e acabou no vinho. Já era a quinta garrafa da mesa, mas essa beberia sozinho, para fechar a conta. Olha ao redor, sua mesa no canto, vazia, grande e vazia, resolveu mudar, pegar outra mesa, menor, talvez para disfarçar o tamanho de sua solidão. Cambaleando, com a garrafa numa mão e a taça na outra, avista uma mesa e parte, numa agilidade indescritível, que só um bêbado consegue realizar, desviando das pessoas, das mesas, dos garçons e consegue. Senta, coloca a garrafa na mesa, com um cuidado, como se estivesse terminando uma pirâmide de cartas. A taça, em outro gesto de muita proeza, direciona à boca e deixa o líquido esfriar sua garganta. Relaxa.
Quando olha ao lado, a mulher do banheiro olhando e rindo. Talvez o bar inteiro tenha parado para olhar seu percurso ágil. Ele ri para ela, riso de bêbado. Ela pergunta, e o ditador? Ele responde, firme e forte...
Até aí eu sei. Agora como ele foi parar naquela casa...

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Revista

A caneca de metal barato vazia de todo líquido, seca de borda manchada do café que bebeu ontem. Hoje, só água, até agora. Quem me deu foi tia, na sua primeira vinda. Com ela trouxe zorba, gilete, bolacha e pão com mortadela e queijo. Chorava a tia de pena de mim. Eu não chorava. Nunca chorei, só tinha vergonha, mas, disfarçava. Não tinha culpa. Tia vinha sempre que podia. Cuidava de mim, que ninguém mais cuidava. Pegava 5 ônibus e tinha que andar mais um quilometro em rua de barro poeirenta até chegar aqui. E o pior era aqui. Revistada, pelada e se agachando na frente da agente, que se faltava quem fazia o serviço saia no sorteio e o Anselmo felizardo morreu faz pouco tempo por ter deixado a mulher do Luiz Trinta e Dois sem uma pecinha de roupa. Mas, tia não ligava, vinha de cabeça erguida, sempre bem vestida e para facilitar, de saia comprida. Devia ser mulher bonita quando jovem. Agora já tem seus cinquenta, eu acho. Depois que ficou viúva se fechou para a vida. Antes gostava de ir aos bailes, fazia feijoada no sábado com samba e pagode. Tio tocava pandeiro e sempre tinha uma desculpa para fazer festa. Morreu sambando de ataque. Tio foi um cara de sorte.
Saudades da tia. Faz dois meses que não vem aqui. Da última vez trouxe o que sempre trazia e como sempre sentamos no mesmo banco do pátio. Veio já triste, mas acho que não era por mim. Quando chegou me abraçou forte, alisou minhas costas e eu alisei as delas. Carinhosa, perguntou como estava e contou da família, da mãe que se recusa a vir aqui por causa da revista, dos irmãos, dos primos, de todo mundo. Me olhava fundo. As rugas de seu rosto marcavam seu tempo de alegria e agora de tristeza. Seu cabelo preso parecia estar comprido, que nunca mais vi solto. A blusa de botão tinha os dois de cima abertos e se eu fosse malandro olhava lá pra dentro e via o volume de sua vitalidade. A saia preta reta e comprida tinha um corte do lado muito discreto. O sapato preto também e fechado escondia uma meia fina, cor da pele.
E desta vez tia me disse que iria morar com ela quando saísse. Falta muito ainda tia. Mas, tudo bem, a gente espera.
Ela abriu a bolsa, tirou um espelhinho, se olhou e enxugou as lágrimas. Não sabia porque chorava. Tinha vaidade. E era bonita. Vou indo então. Obrigado. Ela se levantou e meu deu outro abraço, mais forte ainda e mais demorado. Depois beijou meu rosto e disse, fica com deus meu filho. Foi embora. Vi ela indo, com a bolsa preta a tira colo. Saiu. Até agora não veio mais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Dia internacional do Rock and Roll

“Domingo de manhã saí pra caçar rã
Foi quando à minha frente apareceu a sua irmã
Que sarro! Ah! Que sarro! Ah!
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o meu rock and roll!"
(Arnaldo Dias Baptista, Ritta Lee e Arnolpho Lima Filho - MUTANTES)

Não sei mais aonde está, quem toca por aí, o que acontece nos porões, se é que existam porões aonde tocam a boa e velha batida, marcada e que faz o coração entrar no mesmo ritmo. O Rock and Roll de sempre dá muita saudade. Mutantes, Lou Reed, Casa das Máquinas... Os Titãs no tempo do Cabeça Dinossauro, dos Bichos Escrotos, Polícia, Nome aos Bois e por aí vai. Raulzito, sempre maluco, sempre beleza. Sem contar Pink Floyd, Rush, Led Zeppeling.
Jovem, sempre jovem se descobre este ritmo, essa música que tem vida própria. Diziam que era feito pelo “coisa ruim”. Talvez por provocar no mais temente a Deus algum prazer indescritível.
E quando é descoberto, torna-se coisa íntima, confidente dos maiores segredos. Quando é ouvido ou dançado com alguém... canta junto, dança como vier, sem a regra da valsa, da salsa ou do samba. Neste dia, enfim, saudades do meu rock and roll...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Tá valendo

Vale a pena? Perguntaram-me um dia, sobre a vida. Questão existencial, humana, subjetiva.
Não respondi. Não sabia. Mas, pensei, a gente simplesmente vive, vai vivendo. Não se pergunta quando acorda, se vale a pena ir trabalhar. Ou se pergunta, logo encontra uma resposta com toda a certeza que vale! Sim, é meu emprego, meu salário, que poderia ser melhor, mas é o que tenho.
Então vale. Mas, vale a pena viver?
A gente nasce, sofre um bocado na vida para entender que o homem não é bicho, que come com talheres e finalmente consegue distinguir entre o que é bom e o que é ruim. Se bem, que nem sempre isso é assim tão simples. Ruim é salada de cebola para quem odeia a tal. Bom é um “rolmops” para quem adora as coisas ácidas, excentricidades dos gostos que a boca dá.
Mas, então, a gente nasce e sofre um tanto até aprender algum rumo na vida. E segue adiante. Um dia, pela primeira vez, geralmente no auge da juventude, surge esta pergunta, o que estou fazendo? Isso vale a pena? E logo uma resposta de plena erupção vem de encontro a uma explosão de hormônios, músculos, pele, boca, ânus, ouvidos... sexo. O sexo na forma adulta, genital se apresenta como uma saída já há muito tempo. Mas, junto com ele também encontra o primeiro grande amor e muitas vezes a primeira grande queda. Vale a pena?
Claro, diria qualquer rapazinho querendo namorar, ficar, trepar, beber, fumar, gozar, jogar, arriscar, driblar a morte, vencer a morte.
É certo que vale. Mas, vale o que o que? Geralmente, a pena, que seria então em regime fechado por toda a vida. Fechado numa jaula civilizatória com a seguinte ordem, você pode fazer o que quiser aí dentro, mas se abrir essa porta e sair estará condenado a nunca mais viver entre os homens e voltará ao encontro com os macacos e lá até poderá ser feliz, mas sob o risco sempre de morrer pela segunda vez.
Então, nesse caso, vale a pena não é? Até porque nessa jaula há muito o que se fazer. Você não pode matar, que seria sair da jaula, mas pode falar que algo morreu para você. Você não pode viver a vida toda agarrado em sua mãe, mas pode ter outras coisas ou pessoas onde se agarrar. E por aí vai... Cada um que invente o que fazer nessa vida. Uns inventam algo esperando a vida passar, outros têm objetivos mais nobres. Mesmo assim, um destino é certo para todos, sair da jaula, de cena, vestir o paletó de madeira... Até lá, que se faça a vida valer a pena.

domingo, 4 de julho de 2010

Faísca

Simples
Muito
Simples

Vida assim
Que a gente
Complica

Simples
Assim

Sem flor
Sem luz
Sem pudor

Simples
Vida

Assim
A gente
Sem flor

Pudor

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lado B

Arrasta a face escura
Ininterrupta circulação
Ignora em gesto constante
Parasitas em proliferação

Céu e mar iludem
Produzem alucinação
Terra seca e batida
É ser nada no sertão

Complexa simetria
Ora vida, ora morte
Terra santa em plena guerra
Terra a vista, pura sorte

Num canto escuro da cidade
Vira terra de ninguém
Tensão, paixão ou crueldade

Destino é o mais além
Ninguém escapa, nem o frade
Sete palmos de terra, amém.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Nova rotina

Depois de um tempo, que parece tão longo, tão distante, aqui estou para escrever de forma direta, sem muito que rever.
Posso falar de muito, de qualquer coisa e é isso que exige esforço. Escolher UM entre tudo.
Poderia falar do que está na moda, da copa, da insuportável e absurda forma de expressão cultural, da vuvuzela, de um povo tão rico. Poderia falar dos movimentos de mídia, do "cala a boca Galvão" ou da guerra entre a poderosa Globo e o surtado Dunga. Poderia falar do café que estou bebendo ou do cigarro que estou fumando ou do livro que estou lendo. Ou poderia falar da psicanálise, do sofrimento humano, dos conflitos psíquicos. Poderia falar das crianças, de todos nós.
Mas, nada disso por enquanto importa aqui.
Estou com uma certa preguiça agora de escrever alguma poesia. De certo quando fico um tempo assim, é como se precisasse voltar devagar, aquecer até pegar o ritmo, a rima, a métrica. Coisas que aliás faltam muito a muitos poetas desse tempo, onde qualquer coisa é poesia. Mas, não é disso que vou dizer aqui também.

Escuto o jogo ao fundo em que desclassifica a Itália ao mesmo tempo que fito para a babá eletrônica quase que aguardando o despertar de minha pequena. Vinte e quatro dias se passaram desde sua vinda. As noites viraram do avesso e o sono é algo que precisou ser relativizado. A ansiedade e todas as mudanças que um bebê proporciona num pai estão em mim, pulsando o tempo todo.
O tempo aliás ficou menor do que já estava. Vou parando por aqui. Ela acordou.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Outra face (paródia)

Quando cresci, uma pequena fada
Dessas que vivem nas flores
Disse: Vai, Maria! Vai ser rica na vida.

As esquinas espiam os homens
que correm atrás do dinheiro
O dia assim tão cinza
Na falta de um companheiro

Celulares, relógios e pressa
Olhares fugazes transpassam
Minhas pernas, meus seios, minha boca
Me olha homem bonito
Indo embora me deixa louca

Maria de lábios finos
Olhos redondos e negros
Sorri com leve doçura
Na pequena bolsa o batom
Da cor da boca profunda

Virgem Maria aqui estou
Vida vazia na rua
Sozinha e cheia de dor

Rua rua estreita rua
Talvez se fosse Anita
Ainda sem rima, ainda sem solução.
Meu mundo pequeno mundo
Menor ainda foi minha criação

Eu só posso dizer
Nessa rua
Essa cachaça
Fico excitada, querendo essa vida de puta.

domingo, 23 de maio de 2010

O descolamento

O velho na sala ao lado, via o jornal nacional enquanto a água fervendo, borbulhando vapor no envelope que dançava por cima da chaleira guiado pelo menino. Como um maestro o menino fazia e o envelope ia e vinha, subia e descia. No fundo a voz de Sidnei Moreira. A dança era interrompida de tempos em tempos para verificar o processo de descolamento do selo.
O envelope já aberto continha uma carta já lida. Não era de amor, mas de amizade que trazia notícias de outro lugar. O selo voltaria, depois de seco e o carimbo delicadamente apagado com uma borracha limpa, para sua terra de origem.
O menino já sabia ler e escrever e as contas eram o suficiente para saber que não tinha dinheiro para comprar um novo selo. Aquele já usado receberia novo carimbo do carimbador desatento, pois se olhasse bem, daria para ver os sinais de um carimbo antigo de outro lugar.
Casa de pouca conversa, dirá de pouca escrita. As cartas, o selo, o tempo de espera, o carteiro, formavam o mundo do menino. Escrevia uma carta, colocava na caixa perto da escola e então, era só esperar o efeito. Palavras vindas de outro lugar chegariam dizendo da vida bonita, dos amigos em comum, dos tempos de alegria. Palavras simples e de pouca poesia. Eram relatos vindos em papel bonito, pequeno, as vezes perfumado. E quanto menor, maior a decepção do menino. Queria mais, saber mais. Mas, diziam apenas das rotinas ou alguma novidade pequena, sem efeitos para sua vida. O que mais gostava dessas pequenas cartas eram os elogios que recebia de suas próprias cartas. Sentia-se bem e estimulado a escrever de novo. E escrevia como deveria ser, em folha fina para não pesar, em frente e verso. Escrevendo sobre tudo, filosofando, falando de si, como se falasse a um analista.
Haverá um dia em que terá muita curiosidade em saber o que escrevia, pois esquecerá. Então, fará análise talvez para lembrar, talvez para esquecer, as cartas, os selos, a distância, o velho, silêncio, o jornal nacional...

sábado, 15 de maio de 2010

Encontro condensado

Ela
Fêmea
Bela
Cena

Saia
Seio
Aia
Beijo

Rosto
Gosto
Sonho
Corpo

Destino

O sol lá bem longe desperta
Surge a sombra escura e fria
Fico ali, na porta entreaberta
Vendo a boa hora do dia

O vento gelado assobia
Descalço, é o chão que congela
A Sombra em mim arrepia
A luz ali é quase certa

Há de chegar a tal hora
Deixar a sombra vazia
A luz que já anuncia
O mundo inteiro lá fora.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ironia

A pobre da lagarta

É esmagada
É detestada

Devora toda folha

Escondida
Disfarçada

Só então que é lembrada
Quando em casulo adormece

Vira brinco pendurado
Na árvore que cresce

Quem falou da borboleta
Esqueceu daquela praga

Que nunca teve um sorriso
Foi motivo de desgraça

Só então, no fim da vida
Quantas cores borboleta!

Voa toda faceira
Esquece que foi a tal

Quem comeu toda a roseira.

terça-feira, 9 de março de 2010

Vida

De tempos em tempos, um vazio.
Esgotado de todas as inspirações. Finalmente, um vazio.
Buraco profundo que se faz pela borda. E pela borda, não é vazio.
De tempos em tempos, um vazio.
Assim, como agora, vou costurando as letras em volta.
E do vazio, que antes foi nada, faço da vida uma bela borda.
Com nada dentro.
Vazio.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tic-tac


Faz tempo que nasci. Faz muito tempo. Não é o fim da vida, ainda tem tempo, muito tempo. Mas, faz tempo que nasci.

Faz tempo que deixei a terra onde cresci menino, na rua, no mato, no rio. Faz tempo, mas nem tanto assim.

Difícil é ter a certeza do tempo que já passou. Não sou velho, pelo menos para mim, já sou tio para os púberes e senhor para os garçons.

O tempo sempre soa com estranhamento, por mais familiar que seja. Às vezes o susto diante do espelho, quem é você? Para onde olhar, para frente ou para trás?

Gosto dos olhos. Dentro dos olhos. Ali nada há de novo desde sempre. Os olhos, sempre os mesmos, apesar da visão não mais ser aquela.

Os olhos não têm surpresas, não assustam, acalmam a angústia, acalentam a vida já marcada nas rugas ao seu redor.

Faz tempo. Mas, bons tempos estes de hoje. Apesar da saudade, não me arrependo. Se tivesse escolha, seria por assim envelhecer.

No tempo de menino, no tempo da fúria da juventude, sim, foram bons tempos. Mas, difíceis.

Saudade a gente tem do que foi bom e prefere apagar da traiçoeira memória todo choro, todo corte, toda morte.

Faz tempo. Ainda bem.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Parando de fumar

Primeiro escolha o fatídico dia. Se gosta de ficar em casa, escolha o domingo. Se algo há profundamente irritante em casa, escolha segunda. Use os adesivos. O primeiro, de 21 mg durante um bom tempo. Com ele, se você fumar sentirá fortes dores de cabeça, náuseas e uma irritação maior ainda, primeiro por ter fumado, segundo pela dor de cabeça.
Se suportar isso, vá para o segundo adesivo, de 14 mg. Com ele você já pode fumar um ou outro cigarro escondido. Pode dizer que parou de fumar tranquilamente e que está tudo sob controle. Diga aos amigos que agora sim sente o gosto dos alimentos e os perfumes da natureza. Mas, cuidado. É um ou outro cigarro só. Não vá comprar uma carteira e um isqueiro.
Depois que aguentou firme esta fase, vá para o último adesivo, de 7 mg. Com ele você ainda poderá fumar um ou outro cigarro escondido. Mas, é mais perigoso. Verá que o custo do cigarro solto é mais alto do que comprar uma carteira inteira. Além disso, é melhor desconversar se alguém lhe perguntar sobre parar de fumar. Faça uma expressão de normal, que está tudo bem, que o pior já passou. Diga que teve algumas reacaídas, já antecipando o que vem por aí. Vão dizer que é difícil mesmo mas, que vale a pena.
Por fim, acabaram os adesivos. É a hora da verdade. Já pode comprar uma carteira e um isqueiro. Mantenha a discrição. E se perguntarem se parou de fumar, diga que sim, que parou de parar de fumar.
Repita esta operação até que desistam de lhe importunar.
O Ministério da saúde já faz tempo que adverte.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

a praia

Sábado de sol. Fervendo. A água quente da torneira fria torna o chuveiro um objeto ultrapassado. O sol bem quente. Na praia, também bem quente. Não refresca.

Ficamos embaixo do guarda-sol apenas contemplando as ondas quebrarem. A praia, o mar, nós, gaivotas, siris e um cão.

Num canto vazio da praia, onde o mar é bravo e não se vê pessoa alguma numa distância suficiente para apertar os olhos para alcançar.

As ondas batendo na areia grossa. Um barulho constante. Os siris dando a impressão de que alguém nos vigia, observa e aguarda a hora certa de aparecer. O sol, cruel e implacável.

E nós, protegidos por uma armação de ferro, pano e madeira. Ah, o vento. Sim, o vento. O vento era bom. Trazia gotículas de mar quando a onda forte batia na areia mole.

E nós, ali. Eu e ela, e ela. Tempo grande de um silêncio que por vezes incomodava, por vezes trazia o mar inteiro em paz.

Meu pé afundava a areia e ali o mar não chegava. Queria que chegasse e torcia pela onda forte que não chegava por muito pouco, centímetros. Mas, não chegava.

A onda vinha e eu a via, quase dormindo ali, embalada pelas ondas que não chegavam. Eu cuidando, do sol, das gaivotas, das ondas, dos siris e do cão que sumiu.

Vamos embora?

Quer ir?

Vamos?

Fomos. E lá ficou o mar, o vento, os siris, a areia, as gaivotas, o sol e o cão.

E fomos, eu e ela e ela.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Dia de Visita

*Criado e estabelecido por Eduardo Cassanho de Oliveira e Wagner Rengel

- Quarenta e quatro horas por semana! Pesado demais!
Esse pensamento se mistura com o som agudo e estridente do despertador. Uma manhã nublada e fria. Naquela hora da manhã é sempre uma incógnita se chove, se faz sol, se fica o dia inteiro naquele cinza frio e opaco. O primeiro cigarro já não espera mais a água fervendo atravessar o pó do café e já está na boca sendo sugado sem saber ao certo onde foi aceso.
Da janela olha a rua e se depara com o dia, 'hoje é quinta-feira!'

O movimento repetitivo e alheio aumenta progressivamente lá fora. As pessoas vão e vêm sem distinção. Lembra do filme do Pink Floyd onde crianças sem rostos aparecem numa esteira, todas enfileiradas indo à direção de uma máquina de moer carne. Viu incansáveis vezes durante sua adolescência. Assistia ao filme inteiro de qualquer jeito: alegre ou triste, são ou completamente entorpecido. Mas aquela rua lhe esperava. Mais um sem rosto estará lá para servir a outro que vai olhar na janela e sabe lá o que vai pensar! Objetos de um sistema sem rei, nem castelos.

Põe o pé para fora de casa e num gesto, já de sua rotina, acende outro cigarro. Esse já lhe faz mal, têm ânsia, pensa em jogá-lo fora, mas resiste, pois o ponto de ônibus está ali. ‘Fazer o quê ali parado sem cigarro?’ Claro que prefere o cigarro àquelas pessoas estranhas também ali paradas com as mesmas caras, talvez até interessantes, mas o Dr. Pacheco ‘Para que? Se eu começar a falar, nos outros dias estarão li todos de novo e aí sim vou ter que conversar sobre as misérias que já estou farto de saber: o preço do ônibus, o tempo, a falta de dinheiro; e se pegar intimidade ainda vão falar que fumo demais ou então vão me filar cigarros ou pedir qualquer outra coisa! Pior ainda se souberem aonde trabalho...’

Chega o ônibus. O mesmo ritual. Bom dia, bom dia, com licença. Tem vezes que o ônibus está cheio, aí fica em pé, procura uma janela ou uma mulher para olhar. Olhar só por olhar, olhar através. Se tiver lugar para sentar, senta e abre algum livro, mas não lê, apenas abre e deixa-o ali. O balanço do ônibus lhe dá enjôo. Esse enjôo não é novidade, ele já é sentido desde que o Dr. Pacheco tinha seus 10 anos quando, pela primeira vez, teve a curiosidade de abrir um livro e percorrer com seus olhinhos miúdos aquelas várias páginas dedicadas ao amor. Até então não havia conhecido algo tão repugnante que fizesse com que as pessoas fixassem um sorriso no rosto e se enchessem de esperança, boa vontade, felicidade, deixando-as num estado tal de exaltação que era impossível alcançá-las. Nesse dia um abismo se abriu entre Pachequinho e o mundo.
Ainda no ônibus e não havendo nenhuma mulher para olhar através, pensou na sua esposa. Ultimamente doutor Pacheco acorda com a estranha sensação de não reconhecer essa mulher que dorme ao seu lado. Toda lembrança da sua companheira desfaz-se no exato momento em que fixa a atenção naquele rosto imóvel. Para ele aquela imagem é uma confirmação da morte iminente onde aquele rosto será para toda eternidade apenas uma máscara sem lembrança. Não quer mais pensar nisso. Olha ao redor e toma consciência de onde está. Às vezes os pensamentos lhe deixa tão desorientado que até o equilíbrio é difícil. Está preste a desembarcar. Nesse momento mais ‘com licenças’.

Fora do ônibus um alívio aloja-se na sua pessoa. Como conseguia fazer essa via-crúcis todos os dias durante três anos? Um cigarro para acalmar, o alívio, e um instante parado até que aquela persistente força, que nunca soube de onde veio, tira-lhe do lugar.

‘Quem tem que vir que venha, quem tem que ir que vá... conheço um cara que comeu manga com leite, foi picado por serpente e conseguiu sobreviver. E aquele outro pisou numa taturana teve morte instantânea não dá nem pra entender’. Determinadas músicas sempre lhe vêem à cabeça quando transita nessa calçada. Parado em frente a grade verde esperando aquele passo decisivo leu em voz alta: ‘Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora dos Desavisados... senhora dos... desa.. visados?' Olhou para os lados e agradeceu não haver alguém por perto. As pessoas poderiam dizer que ele está ficando louco, que precisa tomar remédios, essas coisas que se diz quando se trabalha num lugar assim. E, pior ainda, se esses comentários fossem motivo de gracejos. Tudo que Dr. Pacheco odeia, principalmente pela manhã, são àquelas piadinhas que as pessoas fazem uma com as outras para se sentirem mais íntimas e que terminam com o dedo em riste cutucando a barriga da outra pessoa.

O passo é dado. Adentra na recepção e ‘bom-dia-como-vai-tudo-bem’ pra quem quer que seja. Afinal, é isso que diz a política da empresa com aquelas apostilas que ditam tudo o que deve ser feito como o sorriso e o bom dia pela manhã e toda a racionalidade ignorante que transforma as pessoas em máquinas gentis de produção. O que é bastante conhecido no mundo capitalista. Tudo o que acompanha determinações e regras subentendidas de um sistema de gestão chamado ISO que, mesmo tendo sido incansavelmente explicado por especialistas em sistemas de gestão, ou de gestação, ‘ainda não consigo seguir aquelas regras sem me dar um mal estar, um frio na barriga, estou traindo a mim mesmo’, pensou.

Não são por acaso que, para ele, a essa hora da manhã todos os rostos parecem novos com exceção dos olhos, esses sim não enganam. A amargura corre pelos riozinhos vermelhos que se destacam sob o fundo branco dos olhos e vão desembocar bem no centro onde tudo é escuridão. Os olhos das pessoas têm esse aspecto em comum, todos têm esse ponto negro que resiste à luz e que permite a visão. É no escuro que se vê.

O hospital passa por um processo de reconstrução. Apenas essa parte em que se encontra já foi reformado, o cheiro da tinta ainda persiste. Passa-se rapidamente nesse local, pois serve apenas como balcão de informações aos visitantes e lugar de passagem dos funcionários para o interior do hospital. É uma fronteira. Uma fronteira entre a incerteza no livre arbítrio dos homens e a confirmação da condição de espectadores da nossa própria vida. Antes de sair da recepção e encaminhar-se à unidade onde trabalha escuta: ‘Bom dia doutor. Pacheco’, e com a mesma cordialidade responde: ‘Bom dia’.

Um tremor toma conta do seu corpo, teve a ligeira impressão de que esse diálogo não aconteceu naquele momento, mas foi mais uma lembrança que persistia em tornar-se realidade. Talvez não esteja acordado ainda e tudo não passa de um sonho. Antes de entrar na unidade onde trabalha é indispensável mais um cigarro e café. No refeitório o café é amargo e o cigarro fraco.
- Bom dia Pacheco.
- Bom dia Pacheco!
- Ah...bom dia Rubens...Sim?
- O senhor está bem?
- Sim, sim... Hoje o dia é agitado não é... dia de visitas...
Esta manhã doutor. Pacheco não parece nada bem. Nem ele, nem ninguém.
Antes de entrar na Unidade parou para terminar o cigarro. Ficou ali vendo aquelas máquinas e homens re-construindo um jardim. Seu pensamento voa e vai muito longe.

O barulho das máquinas e a poeira lhe trazem na memória que havia ali, naquele emaranhado de terra, tubos e pedras, um belo jardim. Muitas árvores, grandes, fazendo boas sombras aos visitantes e aos funcionários. Haviam diversos caminhos com carvalhos e dizem que até pau-brasil tinha ali. Um tempo onde o jardim era belo. Uma beleza que formava um grande espaço entre as unidades e a administração, prédio central que abriga os senhores, donos de um sistema e antigamente também era o lugar das irmãs, senhoras com olhar sereno, mas que compartilhavam com um sistema de exclusão e abandono.

Muitas histórias aconteceram naquele jardim. Contam os mais antigos que paciente com risco de suicídio não há o que fazer. Dizem que um deles tentou se matar ingerindo um saco plástico utilizado para colocar as roupas sujas, mas foi socorrido a tempo. Não satisfeito com seu fracasso, num dia de visitas o dito sai da unidade e numa única investida se jogou dentro do poço de água, fundo o suficiente para atestar uma vitória. Enfim, descansou em paz. Essa frase é ótima. Descansou em paz. Ali naquele lugar não há paz. O horror esta instalado. E dizem que já foi muito pior. Haviam médicos bêbados com máquinas de choque, plantonistas com prostitutas e cocaína, enfermeiros psicopatas que estupravam os pacientes; haviam trocas, favores, regalias, torturas. Um horror silencioso que as paredes com um metro ou mais de largura escondiam.

Mas, quinta-feira sempre foi assim. Todos põem roupas e chinelos para sair. Lógico, somente para sair. Na volta as irmãzinhas como eram conhecidas recolhiam tudo o que era de bom. O bom é para as visitas.
- Nerso!!!
Uma voz grave e conhecida lhe chega ao ouvido. Um paciente lhe olha pela estreita janela. Há quanto tempo ele lhe observa? A dúvida se instala: O que é ser louco?
- Bom dia Bastião. Tudo bem?
- Bastião? Ahã...é! Piá! Dá um boinho pá eu, piá!!!
- Você já tomou café? Hoje tem visita. Tomara que seus parentes venham e aí você vai lá na cantina comer um bolinho. Eu já vou entrar aí a gente conversa mais.
- Dá um boinho piá!
Doutor Pacheco joga a bituca no chão e não pisa porque sabe que algum paciente irá pegar e fumar a ‘segunda’. Ergue a cabeça que já está pesada e entra na unidade. Cento e quatro pacientes lhe esperam.
- Bastião, vá lá no refeitório que eles já devem estar servindo o café.
Os olhos voltam ao chão novamente.
Entra na Unidade.
- bom dia a todos!
- bom dia! Responderam alguns.

No posto de enfermagem por onde se entra tem aquele cheiro de hospital. Álcool, metal e plástico formam uma mistura de odores. Os papéis dos prontuários e as faixas de contenção também ficam ali, mas tem outros cheiros.

Uma porta inteira fechada separa os doentes e os normais de jalecos. Uma distinção fundamental para alguns. Uma confirmação de que loucura se pega pela fala e principalmente pela ausência dela. Ali não há um ser vivo que não esteja contaminado.

Dentro da Unidade, corredores escuros. Pela manhã as coisas são ainda piores. Seres humanos sujos de tudo que possa sair desta espécie. Merda, mijo, porra, saliva e sangue. As noites neste lugar são escuras demais. O medo, a violência e o gozo caminham como fantasmas, atravessando paredes.
Então, pela manhã é necessário limpar a sujeira. Organizar o mundo.
‘Mas, tudo bem. Já foi bem pior. Houve um tempo em que banho era só na quinta-feira, no dia de visitas’, pensou.
Dia de visita. Familiares e pacientes passeiam por todos os lados em meio a poeira do jardim em reforma. Nesse instante também passeiam Dr. Pacheco e um grupo de pacientes que não têm (e nunca terão) visita familiar. O grupo sai de sua unidade em alguma direção – nesse dia não se percebia alguma direção: casais, pequenos grupos e as pessoas de branco entram e saem das aberturas das unidades como formigas no formigueiro mas, sem carregar nada a não ser o fardo da normalidade. A cantina é cheia, toda quinta-feira a comida tornava-se um eficiente instrumento para amenizar as dores, o ódio e o descaso. O grupo do doutor Pacheco caminha por esse circo de horrores atento e ao mesmo tempo alheio a esse cotidiano. Chegam do lado oposto onde a caminhada teve seu início. O percurso de volta é ainda mais silencioso; os familiares, na sua maioria, já foram embora e os pacientes voltaram às suas respectivas unidades. Voltaram ou fugiram?

Algumas marcas no chão chamam a atenção do grupo. Sangue? Essas pequeninas manchas fazem rastro. O grupo segue lentamente, todos se concentram na descoberta desse novo trajeto e lançam olhar onde supostamente seria o fim ou talvez o início. Avistam um objeto depositado sobre o banco de cimento mergulhado num laguinho vermelho. Mais perto, mais nítido, de olhos apertados, todos distinguem: Um dedo!
‘Perigooooso’, alguém comenta desfazendo o silêncio. Ficam ali por alguns instantes e sem mais palavras retornam à unidade. Lá dentro o grupo se dispersa e no gabinete o doutor se depara com o vazio daquele dia. Perigoso, ele pensa. Perigoso.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Navegando em outros mares

Escrevi um artigo sobre dificuldades na aprendizagem e na "ensinagem" que foi publicado hoje no Jornal Gazeta do Povo. Mesmo sendo um artigo técnico, ali estou eu... Clique aqui se quiser ver o texto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O tempo e o singular

O tempo que passa é algo tão estranho. Quando somos pequenos a tarde que antecipa a chegada dos presentes de natal é interminável. Depois, quando jovens, o tempo do sono é pouco e o tempo de viver é sempre curto, nunca vai dar tempo e pior, se não der, nunca mais vai dar.
Depois, adultos, o tempo é um tormento. Os sonhos e ideais já não cabem mais, foram ficando para trás e agora, faça-se o que for possível com o tempo que lhe resta.
E quanto encontramos alguém muito mais velho, este vai dizer que ainda somos jovens.
Agora, quando olho para trás e vejo meus amigos, suas faces já não tão lisas como antes, seus corpos já não tão atléticos como antes, suas palavras já não tão revolucionárias como antes... Fico feliz. Não estou sozinho.
O mais incrível nisso é ver que os cortes profundos da infância marcam em nós de tal maneira que a vida inteira, por mais que as rugas se esforcem em esconder, jamais desaparecerão. Aí está o que chamo de singularidade.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dois

Buscando o novo me perco

nas letras soltas no céu

que fedem como esterco

que borram este papel


Na violência do cerco

arranco as letras do céu

ódio de novo, me perco

mundo, mundão, mundaréu


Caminho de pouca sorte

na vida que ouso ter

o resto de mim que sofre

é sobra do meu viver


Mas que bela porcaria

diria ele abusado

vem de longe a tirania

é resto do meu passado


Do meu lado a poesia

do outro, fazer riqueza

um trabalho de alegria

uma vida de tristeza


A luta que vive em mim

desespero e aflição

fico esperando o fim

um pouco de ilusão.