sábado, 30 de janeiro de 2010

Dia de Visita

*Criado e estabelecido por Eduardo Cassanho de Oliveira e Wagner Rengel

- Quarenta e quatro horas por semana! Pesado demais!
Esse pensamento se mistura com o som agudo e estridente do despertador. Uma manhã nublada e fria. Naquela hora da manhã é sempre uma incógnita se chove, se faz sol, se fica o dia inteiro naquele cinza frio e opaco. O primeiro cigarro já não espera mais a água fervendo atravessar o pó do café e já está na boca sendo sugado sem saber ao certo onde foi aceso.
Da janela olha a rua e se depara com o dia, 'hoje é quinta-feira!'

O movimento repetitivo e alheio aumenta progressivamente lá fora. As pessoas vão e vêm sem distinção. Lembra do filme do Pink Floyd onde crianças sem rostos aparecem numa esteira, todas enfileiradas indo à direção de uma máquina de moer carne. Viu incansáveis vezes durante sua adolescência. Assistia ao filme inteiro de qualquer jeito: alegre ou triste, são ou completamente entorpecido. Mas aquela rua lhe esperava. Mais um sem rosto estará lá para servir a outro que vai olhar na janela e sabe lá o que vai pensar! Objetos de um sistema sem rei, nem castelos.

Põe o pé para fora de casa e num gesto, já de sua rotina, acende outro cigarro. Esse já lhe faz mal, têm ânsia, pensa em jogá-lo fora, mas resiste, pois o ponto de ônibus está ali. ‘Fazer o quê ali parado sem cigarro?’ Claro que prefere o cigarro àquelas pessoas estranhas também ali paradas com as mesmas caras, talvez até interessantes, mas o Dr. Pacheco ‘Para que? Se eu começar a falar, nos outros dias estarão li todos de novo e aí sim vou ter que conversar sobre as misérias que já estou farto de saber: o preço do ônibus, o tempo, a falta de dinheiro; e se pegar intimidade ainda vão falar que fumo demais ou então vão me filar cigarros ou pedir qualquer outra coisa! Pior ainda se souberem aonde trabalho...’

Chega o ônibus. O mesmo ritual. Bom dia, bom dia, com licença. Tem vezes que o ônibus está cheio, aí fica em pé, procura uma janela ou uma mulher para olhar. Olhar só por olhar, olhar através. Se tiver lugar para sentar, senta e abre algum livro, mas não lê, apenas abre e deixa-o ali. O balanço do ônibus lhe dá enjôo. Esse enjôo não é novidade, ele já é sentido desde que o Dr. Pacheco tinha seus 10 anos quando, pela primeira vez, teve a curiosidade de abrir um livro e percorrer com seus olhinhos miúdos aquelas várias páginas dedicadas ao amor. Até então não havia conhecido algo tão repugnante que fizesse com que as pessoas fixassem um sorriso no rosto e se enchessem de esperança, boa vontade, felicidade, deixando-as num estado tal de exaltação que era impossível alcançá-las. Nesse dia um abismo se abriu entre Pachequinho e o mundo.
Ainda no ônibus e não havendo nenhuma mulher para olhar através, pensou na sua esposa. Ultimamente doutor Pacheco acorda com a estranha sensação de não reconhecer essa mulher que dorme ao seu lado. Toda lembrança da sua companheira desfaz-se no exato momento em que fixa a atenção naquele rosto imóvel. Para ele aquela imagem é uma confirmação da morte iminente onde aquele rosto será para toda eternidade apenas uma máscara sem lembrança. Não quer mais pensar nisso. Olha ao redor e toma consciência de onde está. Às vezes os pensamentos lhe deixa tão desorientado que até o equilíbrio é difícil. Está preste a desembarcar. Nesse momento mais ‘com licenças’.

Fora do ônibus um alívio aloja-se na sua pessoa. Como conseguia fazer essa via-crúcis todos os dias durante três anos? Um cigarro para acalmar, o alívio, e um instante parado até que aquela persistente força, que nunca soube de onde veio, tira-lhe do lugar.

‘Quem tem que vir que venha, quem tem que ir que vá... conheço um cara que comeu manga com leite, foi picado por serpente e conseguiu sobreviver. E aquele outro pisou numa taturana teve morte instantânea não dá nem pra entender’. Determinadas músicas sempre lhe vêem à cabeça quando transita nessa calçada. Parado em frente a grade verde esperando aquele passo decisivo leu em voz alta: ‘Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora dos Desavisados... senhora dos... desa.. visados?' Olhou para os lados e agradeceu não haver alguém por perto. As pessoas poderiam dizer que ele está ficando louco, que precisa tomar remédios, essas coisas que se diz quando se trabalha num lugar assim. E, pior ainda, se esses comentários fossem motivo de gracejos. Tudo que Dr. Pacheco odeia, principalmente pela manhã, são àquelas piadinhas que as pessoas fazem uma com as outras para se sentirem mais íntimas e que terminam com o dedo em riste cutucando a barriga da outra pessoa.

O passo é dado. Adentra na recepção e ‘bom-dia-como-vai-tudo-bem’ pra quem quer que seja. Afinal, é isso que diz a política da empresa com aquelas apostilas que ditam tudo o que deve ser feito como o sorriso e o bom dia pela manhã e toda a racionalidade ignorante que transforma as pessoas em máquinas gentis de produção. O que é bastante conhecido no mundo capitalista. Tudo o que acompanha determinações e regras subentendidas de um sistema de gestão chamado ISO que, mesmo tendo sido incansavelmente explicado por especialistas em sistemas de gestão, ou de gestação, ‘ainda não consigo seguir aquelas regras sem me dar um mal estar, um frio na barriga, estou traindo a mim mesmo’, pensou.

Não são por acaso que, para ele, a essa hora da manhã todos os rostos parecem novos com exceção dos olhos, esses sim não enganam. A amargura corre pelos riozinhos vermelhos que se destacam sob o fundo branco dos olhos e vão desembocar bem no centro onde tudo é escuridão. Os olhos das pessoas têm esse aspecto em comum, todos têm esse ponto negro que resiste à luz e que permite a visão. É no escuro que se vê.

O hospital passa por um processo de reconstrução. Apenas essa parte em que se encontra já foi reformado, o cheiro da tinta ainda persiste. Passa-se rapidamente nesse local, pois serve apenas como balcão de informações aos visitantes e lugar de passagem dos funcionários para o interior do hospital. É uma fronteira. Uma fronteira entre a incerteza no livre arbítrio dos homens e a confirmação da condição de espectadores da nossa própria vida. Antes de sair da recepção e encaminhar-se à unidade onde trabalha escuta: ‘Bom dia doutor. Pacheco’, e com a mesma cordialidade responde: ‘Bom dia’.

Um tremor toma conta do seu corpo, teve a ligeira impressão de que esse diálogo não aconteceu naquele momento, mas foi mais uma lembrança que persistia em tornar-se realidade. Talvez não esteja acordado ainda e tudo não passa de um sonho. Antes de entrar na unidade onde trabalha é indispensável mais um cigarro e café. No refeitório o café é amargo e o cigarro fraco.
- Bom dia Pacheco.
- Bom dia Pacheco!
- Ah...bom dia Rubens...Sim?
- O senhor está bem?
- Sim, sim... Hoje o dia é agitado não é... dia de visitas...
Esta manhã doutor. Pacheco não parece nada bem. Nem ele, nem ninguém.
Antes de entrar na Unidade parou para terminar o cigarro. Ficou ali vendo aquelas máquinas e homens re-construindo um jardim. Seu pensamento voa e vai muito longe.

O barulho das máquinas e a poeira lhe trazem na memória que havia ali, naquele emaranhado de terra, tubos e pedras, um belo jardim. Muitas árvores, grandes, fazendo boas sombras aos visitantes e aos funcionários. Haviam diversos caminhos com carvalhos e dizem que até pau-brasil tinha ali. Um tempo onde o jardim era belo. Uma beleza que formava um grande espaço entre as unidades e a administração, prédio central que abriga os senhores, donos de um sistema e antigamente também era o lugar das irmãs, senhoras com olhar sereno, mas que compartilhavam com um sistema de exclusão e abandono.

Muitas histórias aconteceram naquele jardim. Contam os mais antigos que paciente com risco de suicídio não há o que fazer. Dizem que um deles tentou se matar ingerindo um saco plástico utilizado para colocar as roupas sujas, mas foi socorrido a tempo. Não satisfeito com seu fracasso, num dia de visitas o dito sai da unidade e numa única investida se jogou dentro do poço de água, fundo o suficiente para atestar uma vitória. Enfim, descansou em paz. Essa frase é ótima. Descansou em paz. Ali naquele lugar não há paz. O horror esta instalado. E dizem que já foi muito pior. Haviam médicos bêbados com máquinas de choque, plantonistas com prostitutas e cocaína, enfermeiros psicopatas que estupravam os pacientes; haviam trocas, favores, regalias, torturas. Um horror silencioso que as paredes com um metro ou mais de largura escondiam.

Mas, quinta-feira sempre foi assim. Todos põem roupas e chinelos para sair. Lógico, somente para sair. Na volta as irmãzinhas como eram conhecidas recolhiam tudo o que era de bom. O bom é para as visitas.
- Nerso!!!
Uma voz grave e conhecida lhe chega ao ouvido. Um paciente lhe olha pela estreita janela. Há quanto tempo ele lhe observa? A dúvida se instala: O que é ser louco?
- Bom dia Bastião. Tudo bem?
- Bastião? Ahã...é! Piá! Dá um boinho pá eu, piá!!!
- Você já tomou café? Hoje tem visita. Tomara que seus parentes venham e aí você vai lá na cantina comer um bolinho. Eu já vou entrar aí a gente conversa mais.
- Dá um boinho piá!
Doutor Pacheco joga a bituca no chão e não pisa porque sabe que algum paciente irá pegar e fumar a ‘segunda’. Ergue a cabeça que já está pesada e entra na unidade. Cento e quatro pacientes lhe esperam.
- Bastião, vá lá no refeitório que eles já devem estar servindo o café.
Os olhos voltam ao chão novamente.
Entra na Unidade.
- bom dia a todos!
- bom dia! Responderam alguns.

No posto de enfermagem por onde se entra tem aquele cheiro de hospital. Álcool, metal e plástico formam uma mistura de odores. Os papéis dos prontuários e as faixas de contenção também ficam ali, mas tem outros cheiros.

Uma porta inteira fechada separa os doentes e os normais de jalecos. Uma distinção fundamental para alguns. Uma confirmação de que loucura se pega pela fala e principalmente pela ausência dela. Ali não há um ser vivo que não esteja contaminado.

Dentro da Unidade, corredores escuros. Pela manhã as coisas são ainda piores. Seres humanos sujos de tudo que possa sair desta espécie. Merda, mijo, porra, saliva e sangue. As noites neste lugar são escuras demais. O medo, a violência e o gozo caminham como fantasmas, atravessando paredes.
Então, pela manhã é necessário limpar a sujeira. Organizar o mundo.
‘Mas, tudo bem. Já foi bem pior. Houve um tempo em que banho era só na quinta-feira, no dia de visitas’, pensou.
Dia de visita. Familiares e pacientes passeiam por todos os lados em meio a poeira do jardim em reforma. Nesse instante também passeiam Dr. Pacheco e um grupo de pacientes que não têm (e nunca terão) visita familiar. O grupo sai de sua unidade em alguma direção – nesse dia não se percebia alguma direção: casais, pequenos grupos e as pessoas de branco entram e saem das aberturas das unidades como formigas no formigueiro mas, sem carregar nada a não ser o fardo da normalidade. A cantina é cheia, toda quinta-feira a comida tornava-se um eficiente instrumento para amenizar as dores, o ódio e o descaso. O grupo do doutor Pacheco caminha por esse circo de horrores atento e ao mesmo tempo alheio a esse cotidiano. Chegam do lado oposto onde a caminhada teve seu início. O percurso de volta é ainda mais silencioso; os familiares, na sua maioria, já foram embora e os pacientes voltaram às suas respectivas unidades. Voltaram ou fugiram?

Algumas marcas no chão chamam a atenção do grupo. Sangue? Essas pequeninas manchas fazem rastro. O grupo segue lentamente, todos se concentram na descoberta desse novo trajeto e lançam olhar onde supostamente seria o fim ou talvez o início. Avistam um objeto depositado sobre o banco de cimento mergulhado num laguinho vermelho. Mais perto, mais nítido, de olhos apertados, todos distinguem: Um dedo!
‘Perigooooso’, alguém comenta desfazendo o silêncio. Ficam ali por alguns instantes e sem mais palavras retornam à unidade. Lá dentro o grupo se dispersa e no gabinete o doutor se depara com o vazio daquele dia. Perigoso, ele pensa. Perigoso.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Navegando em outros mares

Escrevi um artigo sobre dificuldades na aprendizagem e na "ensinagem" que foi publicado hoje no Jornal Gazeta do Povo. Mesmo sendo um artigo técnico, ali estou eu... Clique aqui se quiser ver o texto.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O tempo e o singular

O tempo que passa é algo tão estranho. Quando somos pequenos a tarde que antecipa a chegada dos presentes de natal é interminável. Depois, quando jovens, o tempo do sono é pouco e o tempo de viver é sempre curto, nunca vai dar tempo e pior, se não der, nunca mais vai dar.
Depois, adultos, o tempo é um tormento. Os sonhos e ideais já não cabem mais, foram ficando para trás e agora, faça-se o que for possível com o tempo que lhe resta.
E quanto encontramos alguém muito mais velho, este vai dizer que ainda somos jovens.
Agora, quando olho para trás e vejo meus amigos, suas faces já não tão lisas como antes, seus corpos já não tão atléticos como antes, suas palavras já não tão revolucionárias como antes... Fico feliz. Não estou sozinho.
O mais incrível nisso é ver que os cortes profundos da infância marcam em nós de tal maneira que a vida inteira, por mais que as rugas se esforcem em esconder, jamais desaparecerão. Aí está o que chamo de singularidade.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dois

Buscando o novo me perco

nas letras soltas no céu

que fedem como esterco

que borram este papel


Na violência do cerco

arranco as letras do céu

ódio de novo, me perco

mundo, mundão, mundaréu


Caminho de pouca sorte

na vida que ouso ter

o resto de mim que sofre

é sobra do meu viver


Mas que bela porcaria

diria ele abusado

vem de longe a tirania

é resto do meu passado


Do meu lado a poesia

do outro, fazer riqueza

um trabalho de alegria

uma vida de tristeza


A luta que vive em mim

desespero e aflição

fico esperando o fim

um pouco de ilusão.