sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tic-tac


Faz tempo que nasci. Faz muito tempo. Não é o fim da vida, ainda tem tempo, muito tempo. Mas, faz tempo que nasci.

Faz tempo que deixei a terra onde cresci menino, na rua, no mato, no rio. Faz tempo, mas nem tanto assim.

Difícil é ter a certeza do tempo que já passou. Não sou velho, pelo menos para mim, já sou tio para os púberes e senhor para os garçons.

O tempo sempre soa com estranhamento, por mais familiar que seja. Às vezes o susto diante do espelho, quem é você? Para onde olhar, para frente ou para trás?

Gosto dos olhos. Dentro dos olhos. Ali nada há de novo desde sempre. Os olhos, sempre os mesmos, apesar da visão não mais ser aquela.

Os olhos não têm surpresas, não assustam, acalmam a angústia, acalentam a vida já marcada nas rugas ao seu redor.

Faz tempo. Mas, bons tempos estes de hoje. Apesar da saudade, não me arrependo. Se tivesse escolha, seria por assim envelhecer.

No tempo de menino, no tempo da fúria da juventude, sim, foram bons tempos. Mas, difíceis.

Saudade a gente tem do que foi bom e prefere apagar da traiçoeira memória todo choro, todo corte, toda morte.

Faz tempo. Ainda bem.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Parando de fumar

Primeiro escolha o fatídico dia. Se gosta de ficar em casa, escolha o domingo. Se algo há profundamente irritante em casa, escolha segunda. Use os adesivos. O primeiro, de 21 mg durante um bom tempo. Com ele, se você fumar sentirá fortes dores de cabeça, náuseas e uma irritação maior ainda, primeiro por ter fumado, segundo pela dor de cabeça.
Se suportar isso, vá para o segundo adesivo, de 14 mg. Com ele você já pode fumar um ou outro cigarro escondido. Pode dizer que parou de fumar tranquilamente e que está tudo sob controle. Diga aos amigos que agora sim sente o gosto dos alimentos e os perfumes da natureza. Mas, cuidado. É um ou outro cigarro só. Não vá comprar uma carteira e um isqueiro.
Depois que aguentou firme esta fase, vá para o último adesivo, de 7 mg. Com ele você ainda poderá fumar um ou outro cigarro escondido. Mas, é mais perigoso. Verá que o custo do cigarro solto é mais alto do que comprar uma carteira inteira. Além disso, é melhor desconversar se alguém lhe perguntar sobre parar de fumar. Faça uma expressão de normal, que está tudo bem, que o pior já passou. Diga que teve algumas reacaídas, já antecipando o que vem por aí. Vão dizer que é difícil mesmo mas, que vale a pena.
Por fim, acabaram os adesivos. É a hora da verdade. Já pode comprar uma carteira e um isqueiro. Mantenha a discrição. E se perguntarem se parou de fumar, diga que sim, que parou de parar de fumar.
Repita esta operação até que desistam de lhe importunar.
O Ministério da saúde já faz tempo que adverte.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

a praia

Sábado de sol. Fervendo. A água quente da torneira fria torna o chuveiro um objeto ultrapassado. O sol bem quente. Na praia, também bem quente. Não refresca.

Ficamos embaixo do guarda-sol apenas contemplando as ondas quebrarem. A praia, o mar, nós, gaivotas, siris e um cão.

Num canto vazio da praia, onde o mar é bravo e não se vê pessoa alguma numa distância suficiente para apertar os olhos para alcançar.

As ondas batendo na areia grossa. Um barulho constante. Os siris dando a impressão de que alguém nos vigia, observa e aguarda a hora certa de aparecer. O sol, cruel e implacável.

E nós, protegidos por uma armação de ferro, pano e madeira. Ah, o vento. Sim, o vento. O vento era bom. Trazia gotículas de mar quando a onda forte batia na areia mole.

E nós, ali. Eu e ela, e ela. Tempo grande de um silêncio que por vezes incomodava, por vezes trazia o mar inteiro em paz.

Meu pé afundava a areia e ali o mar não chegava. Queria que chegasse e torcia pela onda forte que não chegava por muito pouco, centímetros. Mas, não chegava.

A onda vinha e eu a via, quase dormindo ali, embalada pelas ondas que não chegavam. Eu cuidando, do sol, das gaivotas, das ondas, dos siris e do cão que sumiu.

Vamos embora?

Quer ir?

Vamos?

Fomos. E lá ficou o mar, o vento, os siris, a areia, as gaivotas, o sol e o cão.

E fomos, eu e ela e ela.