quarta-feira, 26 de maio de 2010

Outra face (paródia)

Quando cresci, uma pequena fada
Dessas que vivem nas flores
Disse: Vai, Maria! Vai ser rica na vida.

As esquinas espiam os homens
que correm atrás do dinheiro
O dia assim tão cinza
Na falta de um companheiro

Celulares, relógios e pressa
Olhares fugazes transpassam
Minhas pernas, meus seios, minha boca
Me olha homem bonito
Indo embora me deixa louca

Maria de lábios finos
Olhos redondos e negros
Sorri com leve doçura
Na pequena bolsa o batom
Da cor da boca profunda

Virgem Maria aqui estou
Vida vazia na rua
Sozinha e cheia de dor

Rua rua estreita rua
Talvez se fosse Anita
Ainda sem rima, ainda sem solução.
Meu mundo pequeno mundo
Menor ainda foi minha criação

Eu só posso dizer
Nessa rua
Essa cachaça
Fico excitada, querendo essa vida de puta.

domingo, 23 de maio de 2010

O descolamento

O velho na sala ao lado, via o jornal nacional enquanto a água fervendo, borbulhando vapor no envelope que dançava por cima da chaleira guiado pelo menino. Como um maestro o menino fazia e o envelope ia e vinha, subia e descia. No fundo a voz de Sidnei Moreira. A dança era interrompida de tempos em tempos para verificar o processo de descolamento do selo.
O envelope já aberto continha uma carta já lida. Não era de amor, mas de amizade que trazia notícias de outro lugar. O selo voltaria, depois de seco e o carimbo delicadamente apagado com uma borracha limpa, para sua terra de origem.
O menino já sabia ler e escrever e as contas eram o suficiente para saber que não tinha dinheiro para comprar um novo selo. Aquele já usado receberia novo carimbo do carimbador desatento, pois se olhasse bem, daria para ver os sinais de um carimbo antigo de outro lugar.
Casa de pouca conversa, dirá de pouca escrita. As cartas, o selo, o tempo de espera, o carteiro, formavam o mundo do menino. Escrevia uma carta, colocava na caixa perto da escola e então, era só esperar o efeito. Palavras vindas de outro lugar chegariam dizendo da vida bonita, dos amigos em comum, dos tempos de alegria. Palavras simples e de pouca poesia. Eram relatos vindos em papel bonito, pequeno, as vezes perfumado. E quanto menor, maior a decepção do menino. Queria mais, saber mais. Mas, diziam apenas das rotinas ou alguma novidade pequena, sem efeitos para sua vida. O que mais gostava dessas pequenas cartas eram os elogios que recebia de suas próprias cartas. Sentia-se bem e estimulado a escrever de novo. E escrevia como deveria ser, em folha fina para não pesar, em frente e verso. Escrevendo sobre tudo, filosofando, falando de si, como se falasse a um analista.
Haverá um dia em que terá muita curiosidade em saber o que escrevia, pois esquecerá. Então, fará análise talvez para lembrar, talvez para esquecer, as cartas, os selos, a distância, o velho, silêncio, o jornal nacional...

sábado, 15 de maio de 2010

Encontro condensado

Ela
Fêmea
Bela
Cena

Saia
Seio
Aia
Beijo

Rosto
Gosto
Sonho
Corpo

Destino

O sol lá bem longe desperta
Surge a sombra escura e fria
Fico ali, na porta entreaberta
Vendo a boa hora do dia

O vento gelado assobia
Descalço, é o chão que congela
A Sombra em mim arrepia
A luz ali é quase certa

Há de chegar a tal hora
Deixar a sombra vazia
A luz que já anuncia
O mundo inteiro lá fora.