sexta-feira, 16 de julho de 2010

Revista

A caneca de metal barato vazia de todo líquido, seca de borda manchada do café que bebeu ontem. Hoje, só água, até agora. Quem me deu foi tia, na sua primeira vinda. Com ela trouxe zorba, gilete, bolacha e pão com mortadela e queijo. Chorava a tia de pena de mim. Eu não chorava. Nunca chorei, só tinha vergonha, mas, disfarçava. Não tinha culpa. Tia vinha sempre que podia. Cuidava de mim, que ninguém mais cuidava. Pegava 5 ônibus e tinha que andar mais um quilometro em rua de barro poeirenta até chegar aqui. E o pior era aqui. Revistada, pelada e se agachando na frente da agente, que se faltava quem fazia o serviço saia no sorteio e o Anselmo felizardo morreu faz pouco tempo por ter deixado a mulher do Luiz Trinta e Dois sem uma pecinha de roupa. Mas, tia não ligava, vinha de cabeça erguida, sempre bem vestida e para facilitar, de saia comprida. Devia ser mulher bonita quando jovem. Agora já tem seus cinquenta, eu acho. Depois que ficou viúva se fechou para a vida. Antes gostava de ir aos bailes, fazia feijoada no sábado com samba e pagode. Tio tocava pandeiro e sempre tinha uma desculpa para fazer festa. Morreu sambando de ataque. Tio foi um cara de sorte.
Saudades da tia. Faz dois meses que não vem aqui. Da última vez trouxe o que sempre trazia e como sempre sentamos no mesmo banco do pátio. Veio já triste, mas acho que não era por mim. Quando chegou me abraçou forte, alisou minhas costas e eu alisei as delas. Carinhosa, perguntou como estava e contou da família, da mãe que se recusa a vir aqui por causa da revista, dos irmãos, dos primos, de todo mundo. Me olhava fundo. As rugas de seu rosto marcavam seu tempo de alegria e agora de tristeza. Seu cabelo preso parecia estar comprido, que nunca mais vi solto. A blusa de botão tinha os dois de cima abertos e se eu fosse malandro olhava lá pra dentro e via o volume de sua vitalidade. A saia preta reta e comprida tinha um corte do lado muito discreto. O sapato preto também e fechado escondia uma meia fina, cor da pele.
E desta vez tia me disse que iria morar com ela quando saísse. Falta muito ainda tia. Mas, tudo bem, a gente espera.
Ela abriu a bolsa, tirou um espelhinho, se olhou e enxugou as lágrimas. Não sabia porque chorava. Tinha vaidade. E era bonita. Vou indo então. Obrigado. Ela se levantou e meu deu outro abraço, mais forte ainda e mais demorado. Depois beijou meu rosto e disse, fica com deus meu filho. Foi embora. Vi ela indo, com a bolsa preta a tira colo. Saiu. Até agora não veio mais.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Dia internacional do Rock and Roll

“Domingo de manhã saí pra caçar rã
Foi quando à minha frente apareceu a sua irmã
Que sarro! Ah! Que sarro! Ah!
Posso perder minha mulher, minha mãe
Desde que eu tenha o meu rock and roll!"
(Arnaldo Dias Baptista, Ritta Lee e Arnolpho Lima Filho - MUTANTES)

Não sei mais aonde está, quem toca por aí, o que acontece nos porões, se é que existam porões aonde tocam a boa e velha batida, marcada e que faz o coração entrar no mesmo ritmo. O Rock and Roll de sempre dá muita saudade. Mutantes, Lou Reed, Casa das Máquinas... Os Titãs no tempo do Cabeça Dinossauro, dos Bichos Escrotos, Polícia, Nome aos Bois e por aí vai. Raulzito, sempre maluco, sempre beleza. Sem contar Pink Floyd, Rush, Led Zeppeling.
Jovem, sempre jovem se descobre este ritmo, essa música que tem vida própria. Diziam que era feito pelo “coisa ruim”. Talvez por provocar no mais temente a Deus algum prazer indescritível.
E quando é descoberto, torna-se coisa íntima, confidente dos maiores segredos. Quando é ouvido ou dançado com alguém... canta junto, dança como vier, sem a regra da valsa, da salsa ou do samba. Neste dia, enfim, saudades do meu rock and roll...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Tá valendo

Vale a pena? Perguntaram-me um dia, sobre a vida. Questão existencial, humana, subjetiva.
Não respondi. Não sabia. Mas, pensei, a gente simplesmente vive, vai vivendo. Não se pergunta quando acorda, se vale a pena ir trabalhar. Ou se pergunta, logo encontra uma resposta com toda a certeza que vale! Sim, é meu emprego, meu salário, que poderia ser melhor, mas é o que tenho.
Então vale. Mas, vale a pena viver?
A gente nasce, sofre um bocado na vida para entender que o homem não é bicho, que come com talheres e finalmente consegue distinguir entre o que é bom e o que é ruim. Se bem, que nem sempre isso é assim tão simples. Ruim é salada de cebola para quem odeia a tal. Bom é um “rolmops” para quem adora as coisas ácidas, excentricidades dos gostos que a boca dá.
Mas, então, a gente nasce e sofre um tanto até aprender algum rumo na vida. E segue adiante. Um dia, pela primeira vez, geralmente no auge da juventude, surge esta pergunta, o que estou fazendo? Isso vale a pena? E logo uma resposta de plena erupção vem de encontro a uma explosão de hormônios, músculos, pele, boca, ânus, ouvidos... sexo. O sexo na forma adulta, genital se apresenta como uma saída já há muito tempo. Mas, junto com ele também encontra o primeiro grande amor e muitas vezes a primeira grande queda. Vale a pena?
Claro, diria qualquer rapazinho querendo namorar, ficar, trepar, beber, fumar, gozar, jogar, arriscar, driblar a morte, vencer a morte.
É certo que vale. Mas, vale o que o que? Geralmente, a pena, que seria então em regime fechado por toda a vida. Fechado numa jaula civilizatória com a seguinte ordem, você pode fazer o que quiser aí dentro, mas se abrir essa porta e sair estará condenado a nunca mais viver entre os homens e voltará ao encontro com os macacos e lá até poderá ser feliz, mas sob o risco sempre de morrer pela segunda vez.
Então, nesse caso, vale a pena não é? Até porque nessa jaula há muito o que se fazer. Você não pode matar, que seria sair da jaula, mas pode falar que algo morreu para você. Você não pode viver a vida toda agarrado em sua mãe, mas pode ter outras coisas ou pessoas onde se agarrar. E por aí vai... Cada um que invente o que fazer nessa vida. Uns inventam algo esperando a vida passar, outros têm objetivos mais nobres. Mesmo assim, um destino é certo para todos, sair da jaula, de cena, vestir o paletó de madeira... Até lá, que se faça a vida valer a pena.

domingo, 4 de julho de 2010

Faísca

Simples
Muito
Simples

Vida assim
Que a gente
Complica

Simples
Assim

Sem flor
Sem luz
Sem pudor

Simples
Vida

Assim
A gente
Sem flor

Pudor

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Lado B

Arrasta a face escura
Ininterrupta circulação
Ignora em gesto constante
Parasitas em proliferação

Céu e mar iludem
Produzem alucinação
Terra seca e batida
É ser nada no sertão

Complexa simetria
Ora vida, ora morte
Terra santa em plena guerra
Terra a vista, pura sorte

Num canto escuro da cidade
Vira terra de ninguém
Tensão, paixão ou crueldade

Destino é o mais além
Ninguém escapa, nem o frade
Sete palmos de terra, amém.