sábado, 21 de agosto de 2010

O Ditador

O barulho do chuveiro desperta o homem daquela cama estranha. Olha ao redor, a cabeça ainda pulsa, como se o cérebro com vida própria quisesse sair pelos olhos. A porta entreaberta do banheiro, percebe que dormiu nu. Avista sua calça jeans no chão, a camiseta, as meias, o sapato, um só, deve estar embaixo da cama, pensou já arquitetando uma saída rápida, não sabia onde estava, nem quem era no chuveiro, nem se estava numa casa, num apartamento, que horas eram?
Era melhor ser rápido, pela dúvida, estar vestido e pronto na hora que não sei quem sair daquele chuveiro. A calça, cadê minha cueca, vai sem ela, a camiseta, as meias, uma, duas, os tênis, um, outro, sabia, embaixo da cama. Pronto. A porta do quarto, vou abrir, sair, o chuveiro é desligado. Agora vou mesmo.
A porta do box do chuveiro range, abre, ouve a toalha. E agora? Não vou ficar plantado no meio do quarto esperando sei lá quem vir me explicar o que aconteceu.
Antônio? Uma voz feminina, de mulher mesmo. Ufa, pelo menos é mulher e não homem.
Oi?
Está acordado?
Sim, já levantei.
Não quer tomar um banho? A noite foi longa não foi? Em tom irônico ela diz.
Não, não precisa, responde ainda sem ver a mulher que se enxuga no banheiro.

A porta se abre inteira. Como numa lenta câmera, vê uma mulher enrolada numa toalha, secando os cabelos. Era linda, morena, alta e com seios e quadris proporcionais no quesito fartura. Tinha a pele morena, os cabelos pretos, os olhos castanhos grandes, a boca forte, lábios grossos. Aparentava no máximo vinte e oito anos. Não acreditou que dormiu com aquela mulher.
Para, sorri e lhe dá um beijo em sua boca.
Antônio, olha, não lembra de nada, tenta montar a história desde a última lembrança. Estava no trabalho, havia combinado com os colegas de irem num bar ali na esquina e beber umas cervejas, era sexa-feira. Foram.
Eram dias difíceis, havia acabado de encerrar um longo processo de separação de sua ex-mulher. Ela queria, ele não. Foi até o fim e se acabou inteiro nessa história, com seus quarenta e cinco anos, envelheceu uns dez. Agora estava só, sua filha ficou com a mãe e a cada quinze dias dormia em seu pequeno apartamento na praça Osório, barato e sem garagem, que seu carro ficou com o advogado nas custas do divórcio.
E, querendo sumir daquele quarto, exitou quando saiu daquele banheiro aquela mulher de feições fortes e ao mesmo tempo gentil.
Vamos tomar um café, perguntou ela com um sorriso.
Vamos, disse ele.
Ela deixou a toalha cair, viu seu corpo nu, era linda, em pleno mês de maio, sustentava marcas pequenas do biquíni, só embaixo, nos seios não haviam marcas. Quem é essa mulher, pensou.
Desculpe, mas estou um pouco confuso, acho que bebi demais ontem, eu não sei seu nome...
Lúcia, respondeu interrompendo-o, eu sei, você bebeu mesmo... deveria tomar um banho. Talvez melhore, erguendo os braços e deixando cair sobre seu corpo nu uma camiseta que cobriu seu sexo até o começo das coxas.
Caramba, pensou ele, já achando que havia tirado a grande sorte, sem saber nem como nem onde jogou.
Vamos tomar um café, já vai me ajudar, disse ele. Mas antes, posso usar o banheiro?
Ah, seu ditador lhe chama...
Ele não entendeu, mas foi ao banheiro, lavou o rosto, se viu no espelho, sentiu-se velho, preciso cortar o cabelo. E agora? Pensou.
Quando saiu, ela não estava mais ali. Abriu a porta do quarto, saiu, era uma casa, grande, desproporcional ao tamanho do quarto. Foi por um corredor, olhou ao redor, várias fotos nas paredes, outras portas, um banheiro aberto, uma sala grande, uma mesa, uma lareira, a cozinha, junto a sala uma janela grande dividia com um jardim, uma varanda, flores, sol.
Ficou ali olhando, ela estava na cozinha, que se ligava a sala por um balcão. O cheiro do café já surgia. Sentiu vontade. Sua dor de cabeça diminuía.
Mora sozinha?
Sim, essa casa era dos meus pais, morreram os dois naquele acidente da Gol, lembra?
Puxa, sinto muito, foi uma tragédia.
Agora já aceitei. Nesse país de merda, a gente morre sempre de forma absurda.
Verdade. Esse país é uma merda, disse pensando no seu divórcio.
Gosta de fotografia?
Você bebeu mesmo né? Eu te falei ontem, trabalho com fotografia.
Realmente, não lembro, aliás, não lembro de nada, nem sei como cheguei aqui.
Não acredito! Nos conhecemos lá no Beto...
Que Beto?
Meu deus, no Beto Batata.
Ah, peraí, você é a mulher do banheiro...
Isso mesmo, disse ela, sorrindo de forma maliciosa.
Por isso que gosto desses bares de banheiros unissex, brincou ele.
Antônio, já mal conseguindo ficar de pé, escorou-se na parede ao lado do banheiro. O bar estava cheio, o barulho alto, quase não se ouvia o piano, a flauta, o pandeiro e o cavaquinho que tocavam chorinhos sem parar, todos iguais. Apertado, esperando já não sabia quanto, bateu na porta para apressar o mijão.
Vamo porra! Quero mijar! Disse ele, coisa que nunca fez foi escândalo ou baixaria por causa de bebedeira. Sempre foi cauteloso e geralmente dormia antes de chegar nesse estágio. Mas, talvez por agora estar sozinho de novo, sentia-se livre também dos olhares censuradores de sua ex. Esta, uma mulher fina, de bom gosto, que sempre bebeu no máximo duas taças de vinho, acompanhadas por quase dois litros de água. Nunca ficava bêbada.
Mas, voltando, quando ia bater de novo na porta, sai Lúcia e outra mulher. Ela olha e diz, mas que pressa é essa? Temos a noite inteira, disse brincando. Ele, sem jeito, encontra a saída, sim temos sim, mas ele aqui é um ditador filho da puta que está me torturando para conseguir entrar aí. Ela acha graça, mais pelo seu estado do que pela tentativa de ser divertido.
Na saída do banheiro é outro homem, como se realmente tivesse se livrado do ditador. Seus amigos já foram, todos casados, pelo menos ainda. Era o primeiro novo solteiro que acabara de atravessar o purgatório da separação. Era tarde, o bar fecha cedo. Pediu outra garrafa de vinho. Saiu para beber cerveja e acabou no vinho. Já era a quinta garrafa da mesa, mas essa beberia sozinho, para fechar a conta. Olha ao redor, sua mesa no canto, vazia, grande e vazia, resolveu mudar, pegar outra mesa, menor, talvez para disfarçar o tamanho de sua solidão. Cambaleando, com a garrafa numa mão e a taça na outra, avista uma mesa e parte, numa agilidade indescritível, que só um bêbado consegue realizar, desviando das pessoas, das mesas, dos garçons e consegue. Senta, coloca a garrafa na mesa, com um cuidado, como se estivesse terminando uma pirâmide de cartas. A taça, em outro gesto de muita proeza, direciona à boca e deixa o líquido esfriar sua garganta. Relaxa.
Quando olha ao lado, a mulher do banheiro olhando e rindo. Talvez o bar inteiro tenha parado para olhar seu percurso ágil. Ele ri para ela, riso de bêbado. Ela pergunta, e o ditador? Ele responde, firme e forte...
Até aí eu sei. Agora como ele foi parar naquela casa...