segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Desejos de começo e fim

Texto do amigo, amigo de verdade
e conterrâneo CHARLES GILBERTO GUNTHER.

O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho...
É viver cada momento e construir a felicidade aqui e agora.
Claro que a vida prega peças.
O bolo não cresce, o pneu fura, chove demais, perdemos pessoas que amamos...
Mas pensa só:
Tem graça viver sem rir de gargalhar, pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido estragar o dia por causa de
uma discussão na ida pro trabalho?
Eu quero viver bem...
E você?
... 2011 foi um ano cheio de coisas boas, mas também de problemas e desilusões,
tristezas e perdas, reencontros...
Normal...
2012 não vai ser diferente.
Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições,
a natureza tem sua personalidade, que nem sempre é a que a gente deseja,
mas, e aí?
Fazer o quê?
Acabar com o seu dia?
Com seu bom humor?
Com sua esperança?
O que eu desejo pra todos nós é sabedoria. E que todos nós saibamos transformar tudo em uma boa experiência. O nosso desejo não se realizou?
Beleza... Não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa para aquele momento.
Mas todos merecem, e sempre devem ter uma segunda chance.
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano...
Mas, se a gente se entender e permitir olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.
Desejo para todo mundo esse olhar especial!
... 2012 pode ser um ano especial, se nosso olhar for diferente.
Pode ser muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso.
Somos fracos, mas podemos melhorar.
Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
2012 pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, especial!
Depende de mim... De você... Do amor... Da amizade!!!
E que assim seja!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Flores

Realmente a beleza não está nas cores ou nos perfumes das flores.
A beleza das flores está no ato que elas convocam.
A beleza é a construção de um jardim.
A beleza é o vento que empurra seu perfume.


O belo de uma flor não é a flor em si, mas, sim a colheita da flor, ainda botão, para chegar aonde deve, se abrindo e... morrendo.
Flores condensam o tempo e metaforizam nossas vidas... Desabrochamos, abrimos, exalamos nossos cheiros, convocamos, seduzimos, somos cheios de brilho, de vida, de energia... e desejamos o que podemos. Mas, por mais força que temos, eis que, cedo ou tarde, nos curvaremos, aos poucos, e cairemos, morreremos.
Aí está a beleza das flores. Representando a vida e a morte.
Uma flor quando é dada, qualquer flor, representa a vida sendo entregue.
A flor, quando morre, deixa seu fruto, sua força vital.
Quando damos frutos, como as flores, morremos.
No ato de criação, deixamos de ser o que fomos. A criação da vida pela morte.
Eis aí a beleza das flores.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

(Des)Abafo

Não tente me entender
Nem traduzir minha poesia

Se achar uma bobeira
Não tem grandes problemas
Eu também acho, tantas vezes

Se não entender
Leia de novo
Só que sem pressa

Leia como se lê um mistério
Como se cantasse um verso

Deixe a palavra te levar
Agarre nela com força

Como se pudesse segurar nas patas de um passarinho
E sair voando
Vendo o chão lá longe
E o vento te deixando surdo
Sem saber onde parar

E se nunca mais quiser voltar
Vá embora

Não te quero bem
Não te quero mal

Quero apenas que a palavra
Esta palavra aqui continue viva

Numa gaiola o pássaro está morto
Numa gaveta a palavra está morta

Palavra viva
É palavra lida.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O começo é o (ar)risco

Lacan diz em seu seminário: “É sempre por meio de um ultrapassamento do limite, benéfico, que o homem faz a experiência de seu desejo”.
Por diversas questões, teóricas ou pessoais, esta frase ecou em mim no tempo de concluir e escrever este texto para apresentar aqui.
Vi, durante este percurso, que falar de ética da psicanálise é falar de nada, é falar do vazio que habita o lugar do analista em seu trabalho.
A ética da psicanálise não tem função normatizadora ou reguladora desta práxis, como se vê em outras instâncias de trabalho, quer seja, psicológica, médica ou pedagógica. Ela apenas afirma: não ceder de seu desejo, sendo que Lacan coloca como, só podendo ser abordada dentro do campo analítico.
Esta é a ética.
Uma pergunta que se colocou para mim é que Lacan afirma a ética através de uma negativa. Não ceder. Estaria então o psicanalista “tentado” ou inclinado a outra posição? Qual seria?
A maçã foi mordida já faz tempo, que possibilitou aos homens o discernimento do bem e do mal, segundo o gênesis. O bem, tão abordado por Lacan, está no mesmo lugar do mal. Assim, que Kant e Sade dão as mãos, no prazer e no gozo, querendo algo do homem. Seu bem ou seu mal. Dá na mesma. Seria esta a inclinação? Querer o bem do sujeito que procura uma análise? Querer seu próprio bem? Querer seu mal, o que seria mais escandaloso, mas, talvez mais honesto?
Não ceder. Não recuar. Este me parece ser o limite, benéfico, de ultrapassamento. Pois o analista quer o que? Deseja o que?
O que vi foi que o analista deseja o desejo, ou seja, que a análise aconteça e o sujeito ali perdido em seus bens, suas dores, alcance seu desejo. Como é dito neste seminário: “A dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo. É mesmo a primeira com a qual lidamos em cada instante e sempre (pg 280)”. Mais adiante Lacan dirá que “não há outro bem senão o que pode servir para pagar o preço ao acesso ao desejo – na medida em que esse desejo, nós o definimos alhures como a metonímia de nosso ser.”
Está claro, talvez até claro demais para os desavisados, ofuscando as imagens (como em Édipo que fura seus olhos, para enxergar a verdade) que neste ponto sem volta, de um risco, marca significante, alcança um arriscar para a vida, que é ser para a morte.
Aqui, caem as ilusões dos bens, dos pequenos objetos para definir que o que interessa nessa vida, pois só há esta vida ou então, se preferirem, como disse Lacan, contabilizem essa perdas em outro lugar, pois, “não nos encheram suficientemente o saco com o desejo nesta terra, é preciso que uma parte da eternidade se ocupe em fazer as contas de tudo isso”, (pg 380). Tal esperança só é possível pela estrutura de linguagem que divide o sujeito.
Pois bem, o desejo é o que interessa como metonímia do ser. Seguindo a proposição freudiana, um parte inapreensível, escondida. Ou então, boa parte que o sujeito não acessa e se perde em espelhos e imagens e paixões.
Ser para a morte relativiza-o. Inapreensível, a morte produz significantes que Lacan aproxima o desejo e vai coloca-lo junto ao juízo final, pois, como diz ele, é somente no final.
Ceder aos bens e ao poder dos bens é colocar o desejo numa salmoura, como diz Lacan lembrando Hitler chegando em paris: “vim libertá-los disso ou daquilo. O essencial, diz ele, é isto – continuem trabalhando. Que o trabalho não pare. O que quer dizer – Que esteja claro que não é absolutamente uma ocasião para manifestar o mínimo desejo. A moral do poder, do serviço dos bens é – quanto aos desejos, vocês podem ficar esperando sentados” (378).

Pergunta permanente num percurso de formação: Qual o seu desejo? Que voi?
Quando se cede, sabendo ou não, esta é a única culpa, como diz Lacan. Assim, as coisas complicam, pois a traição está colocada, não interessando qual é a empreitada, da fuga súbita, abandonar as armas, os pincéis, as canetas. Há uma traição e o desejo se esvai por entre os furos da alma. A morte está posta. Antígona recusa esta morte, optando pela morte de seu corpo, preservando, vivendo, morrendo viva em seu desejo.
Esta posição radical torna-se ponto que define a relação do psicanalista com seu desejo. Radical da palavra, que em qualquer conjugação, presente, passado ou futuro, marca e funda o sujeito em seu desejo.
Este sujeito furado e manco caminha e se constitui pelas bordas e tropeços, culpando a deus pela sua imperfeição, quer esteja ele fora ou dentro, até encontrar um analista em seu caminho tortuoso. E quando o encontra, logo percebe que o divã não é lugar mais apropriado para descansar. Ali é onde ele verdadeiramente trabalha.
A saída, ponto que necessita ser colocado, a saída da análise, como dizem, é daí que surge um analista. Sujeito ainda furado e manco, sem o engodo de felicidade, mas, que na melhor das hipóteses, muda o objeto, sublima, sob o custo de renunciar a um gozo e estar numa condição onde o recalque não tem mais o mesmo peso. A sublimação é a saída, onde o objeto vira a coisa, o vazio da falta, motor do desejo.
A ética do psicanalista é a ética do homem comum, mas, a diferença se apresenta na advertência de que sua práxis é deixar-se vazio de qualquer coisa e sustentar o desejo de desejo.
Como diz o título deste trabalho, o risco que faz significante marca a vida que impõe que arriscar-se nela é a única via para aproximar-se do desejo. Geralmente, num texto, num conto ou poema, o título cria-se por último. Aqui veio por primeiro, mas, a liberdade da criação é uma ilusão, pois mesmo preso a vida insiste e a história nos mostra que a prisão não está nas grades ou muros ou a liberdade nos impensáveis acessos ao gozo e objetos. Liberdade é um engodo, uma trapaça, que o analista sabe muito bem, pois aquilo que possibilita o acesso ao desejo é a prisão inevitável da vida, que não escapa da morte. Ater-se àquilo que chamo aqui de pequenas coisas, de pequenos bens, sintomas com migalhas de prazer, é isso que se perde e o que a ética propõe, renunciar a isso, derrubando essa muralha e alcançar o desejo.
É o caminho da análise, onde as palavras compõe a terra e o céu e ali está o psicanalista que paga por isso com seu ser, vazio. Revelar-se o desejo ao sujeito exige um percurso é isso que interessa numa análise.
Por mais óbvio que seja, neste cartel, coincidindo com meu percurso, descobri que a vida acaba, que é preciso se arriscar nela, que o desejo é o que se pode ter de mais verdadeiro como metonimia do ser e que o tempo, emergência contemporânea, não está nem aí para os nossos caprichos.

Referência: Lacan, O Seminário, Livro 7.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Centrismo (11)

Eu só faço o que gosto
Quando precisa
Sei que posso

Mas, mesmo assim
Só faço o que gosto

Se trabalho?
Não digo que sim
Muito menos que não

Se trabalho é sofrido
Quase escravo

Se trabalho é daquele jeito
Diz que faz porque deve
Tá feito

Eu só faço o que gosto
Se precisar
Tá bom, eu faço

Comer rúcula, alface
Pão integral
Espinafre
tudo que não faz mal

Se eu gosto?
É legal
Mas, bom não é

Bom é pururuca
Feijoada
Doce de leite
Mariscada

Boa é a cerveja
A caipirinha
A paella
A empadinha

Então, quando faço
Eu gosto

E quando não gosto
Fazer o que
Posso fazer

Mas, do jeito que gosto
No tempo que posso

Eu gosto.

domingo, 2 de outubro de 2011

Fissura (replay)

Publiquei e escrevi esta poesia em setembro de 2009. Estou colocando aqui de novo, chacoalhando o pó do passado para dar vida à minha loucura presente. A foto é só para dar uma cor.

Letras mancando no branco
Eu, que de pouca alegria
Busco a história vazia
O que da vida é só pó

Silêncio que faz o tempo
Deste que resta do dia
Na sombra da noite fria
Vazia, mesmo tão só

Na mesa o papel esqueço
Traço de minha agonia
De longe a morte vigia
Enquanto desato o nó

Manchas da tinta escura
Do nada, primeiro o risco
Ferida que busca a cura

Depois a palavra pura
Assim, com medo insisto
Vou gotejando loucura.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ilusão (10)

Quanto tempo leva
Me disseram
Caminha

Quanto custa
Me disseram
Pague

Quando é
Não disseram
... ... ... ... ...

Levei mais de ano
Parei no caminho
Sonhei com carinho
Foi bem freudiano

Vai, Acredita na vida
Deixa de lado a preguiça
Larga o padre, deixa a missa
É hora da despedida

Lá, todo paralizado
Vi elefante voando
Ali pensei vou andando
Melhor ser acelerado

Bem ali onde parei
Vi que o mundo sempre gira
Pra não sair dessa pira
Tive certeza: Sarei!

domingo, 25 de setembro de 2011

Seis cordas (9)

Comprei um violão
Bonito
Elétrico
Cordas de aço

Quando menino fiz aula
Com Ingo Rech
Não sei ao certo se assim se escreve
Aprendi com ele a tocar "chalana"
Sabe aquela? "Lá vai a chalana, bem longe se vai,
... o remanso do rio Paraguai"
E balam... balam... balam... batendo nas cordas...

Mas, de tanto tempo que passou
Não sei mais tocar
Nem a chalana
Que já se foi

No auge da minha adolescência
Quando os Titãs ferviam nos palcos
Quando era lançado infinita Highway
Quando decorava Faroeste Caboclo

Era nesse tempo que comprava as revistinhas nas bancas
E tocava em casa no quarto fechado
E ouvia as músicas em fitas que mandava gravar

As meninas usavam lycra
E polainas
E tinham verdadeiros orgasmos (sem saber) quando viam
os cabeludos com faixas nas cabeças e calças apertadas cantando "dança....canta.... sem parar... não se reprima, não se reprima..."

É, nessa época eu tinha um violão
Sabia alguma coisa
E escrevia cartas
Muitas cartas...
Anos oitenta

Hoje, não sei mais tocar
Mas, só de lembrar disso
Da dor nos dedos pressionados contra as cordas
Das músicas, da vida, dos amigos, das meninas

Anos oitenta
Como dizia Raul
"Hey! Anos oitenta!
Charrete que perdeu o condutor
Melancolia e promessas de amor"

sábado, 24 de setembro de 2011

A dor de existir (8)

Escutei no rádio uma psicanalista falando sobre o suicídio do menino de dez anos com um tiro após tentar matar a professora.
Não sei ao certo as razões que levaram um humano tão jovem a cometer tamanha brutalidade contra o outro e contra si próprio.
Mas, o que quero colocar aqui, abrindo um espaço para além das criações, é que o ato deste garoto me fez refletir sobre para onde estamos caminhando. Não vem ao caso aqui elaborar um diagnóstico tardio do menino ou então que medidas devem ser tomadas com as demais crianças, com esta geração que está aí. Pelo menos para mim, ir por esse caminho é permanecer num campo de hipóteses e soluções educativas. Deixo isso para outros lugares.
Aqui, sem me estender muito, vi no ato deste menino o resumo de uma tragédia. De tão assustador, parece-me que este menino faz em ato como o mundo se apresenta para ele, ou seja, tão assustador quanto seu ato em si.
Em nossa cultura, por mais que esteja na televisão, nos desenhos, nos gibis o tempo todo falando de que se deve respeitar as diferenças, que se acabem com todos os preconceitos de cor, raça, credo, escolha sexual, social, etc... Há por debaixo, correndo pelos cantos escuros, ágeis e espertos como os ratos, uma destruidora massa de necessidade de sempre, eu disse SEMPRE, ser feliz, ser perfeito, ser bonito! E como impulsionador disso, o amor do próximo, quer seja dos pais, dos amigos, da professora. Uma alta exigência que define o que é Bom por conta da sociedade produz uma exclusão social de tudo aquilo que não é. Para a sociedade é Bom fazer esportes, por exemplo e isso é cantado como um hino de guerra. Então, como fica o menino que não gosta por conta de determinada dificuldade motora? Num ambiente infantil ele será o alvo certo para todas as projeções, todas as violências das demais crianças, pois, é aonde elas vão depositar em ato a pressão que vivem sendo objetos de uma ditadura da perfeição, da felicidade.
Isso que fez este menino, como disse, resume uma tragédia maior, que é a impossibilidade de uma sociedade inteira e global em lidar com as mazelas da vida, pois é só se aceitando limitado e parcial é que se pode aceitar o resto todo como tal. E o mundo caminha perdido numa utopia, em fotos de revistas, de facebook, negando aquilo que é inerente ao ser humano: a impossibilidade de SER plenamente satisfeito, feliz e em paz.

E eu que queria falar da chegada da PrimaVera!!!
Que venha a perfumada Vera, faça a vida se renovar, provoque surtos de renite, espalhe o pólen das flores por todo esse nosso ar poluído. Ah PrimaVera, traga de volta o canto do sabiá, às quatro da manhã acordando tanta gente que não consegue mais dormir. Venha Vera, prolongue os dias, aqueça as tardes e me deixe com mais vontade e culpa de fazer nada!! Saudades de você PrimaVera!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Reflexo (7)

Daqui debaixo mesmo, da ralé, distante um pouco mais de um metro da terra crua, o Homem se vangloria de sua potência.
Não importa de forma alguma qual o seu feito, o Homem age como se fosse senhor absoluto deste mundo e muitas vezes, em outras línguas, do universo.
O Homem é brasileiro, mas, tem orgulho de ser descendente de europeus ou africanos. Mas, também "é o cara" orgulhoso do seu jeitinho, da sua malemolência tupiniquim.
O Homem é o todo poderoso em seu reino. Mesmo que seja de dez metros quadrados divididos com mais trinta iguais, sem sol, sem cama, sem ar. E nos pequenos poderes, sustenta-se em pé.
Um pouco mais de um metro do chão.
O Homem é forte, sábio e tem polegar opositor e encéfalo desenvolvido (para lembrar o clássico "Ilha das flores"). Um pouco mais de um metro do chão.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Oráculo (6)

Tudo, uma hora, trava
A mente trava
O computador trava
A coluna trava

O relógio trava
O cadeado trava
A porta quando sai, trava

Quando menos se espera, acaba
O filme francês, acaba
A água, no banho, acaba
O gás, a comida na panela, acaba

Quando menos se quer, cai
Os dentes caem
Os cabelos caem
O garfo cai
A ficha
Cai

A certeza de um fim
Quando amanhece o dia
Quando a madrugada chega
Quando a garrafa vazia
A taça cheia

Quando chega a hora
Do primeiro beijo
De pegar no sono
Amarrar o  tênis
Ir embora para sempre

Rodar a baiana chutar o pau da barraca vendo o circo pegar fogo
Enfim,
Uma hora DEStrava!!!





terça-feira, 20 de setembro de 2011

Curto e grosso de galho em galho (5)

Quando descobri que vim do macaco
Até que não foi de todo ruim
Afinal, vai tudo para o mesmo buraco
Cabeça, cabelo, pulmão e rim.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sufoco (4)

Escrevo com pouca métrica
Tem dois motivos
Ninguém verifica
Poemas obsessivos

Tento e morro de fome
Nunca deu, nunca vai dar
Se um dia ganhei um nome
Não foi para me sufocar

Respiro um pouco
Trago o cigarro
Me sentindo louco
Por onde me agarro

Se é por causa do amor
Não sei se cabe tanto assim
Faço por vezes com dor
Tanto por você quanto por mim.

Confissão (3)

Admiro
Os senhores
Os mestres
Os doadores

Os trabalhadores que saem às cinco pra luta
Os pais que têm dois na mesma hora
Os cães que dão a pata, acho batuta
A palavra que da boca aflora

Admiro

A freira na clausura
As letras escritas com a mão
Saber ler a partitura
Quando lembro da respiração

Relógio de corda
Minha filha crescendo
O choro preso que transborda
Quem vai simplesmente vivendo

Admiro

Meu coração apertado
Quando sinto saudade
O teu rosto delicado
A rara felicidade

O céu quando está azul
Deus que não me dá bola
Amigos de Jaraguá do Sul
A hora final de ir embora

Admiro.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DOIS (2)

Quando olho para trás vejo tudo e quanto já vivi

Quando olho para o lado vejo tudo e quanto eu não vivi

Quando olho para frente vejo quanto e tanto ainda tenho

Para viver


Se tenho pressa não passa

Quando é bom, passa depressa

Equilíbrio?

Vida nas costas arcando

Que para um lado

Pesa.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O selo


O velho na sala ao lado, via o jornal nacional enquanto a água ia fervendo, balançando a tampa da chaleira, tac tac tac, exalando vapor pelo bico mudo e sobre ele um envelope que dançava guiado pelo menino. Como um maestro fazia e  o envelope ia e vinha, subia e descia. No fundo a voz de Sidnei Moreira e ali só  o estrebuchar da água e do ferro. 
A dança era interrompida de tempos em tempos para verificar o processo de descolamento do selo e esfriar a mão que fervia junto.
O envelope já aberto continha uma carta já lida. Não era de amor, talvez de amizade que trazia as notícias de outro lugar. O selo voltaria, depois de seco e o carimbo delicadamente apagado com uma borracha limpa, para sua terra de origem.
Já sabia ler e escrever e as contas eram o suficiente para saber que não tinha dinheiro para comprar um novo selo. Aquele já usado receberia novo carimbo do carimbador desatento, pois se olhasse bem, daria para ver os sinais de um carimbo antigo de outro lugar.
Casa de pouca conversa, dirá de pouca escrita. As cartas, o selo, o tempo de espera, o carteiro formavam seu mundo.
Escrevia uma carta, colocava na caixa do correio perto da escola e então, era só esperar o efeito.
Palavras vindas de outro lugar chegariam dizendo talvez da vida bonita, dos amigos em comum, dos tempos de alegria. Palavras simples e de pouca poesia. Eram relatos vindos em papel bonito, pequeno, as vezes perfumado. E quanto menor, maior a sua decepção. Queria mais, saber mais. Mas, diziam apenas das rotinas ou alguma novidade pequena, sem efeitos para sua vida. O que mais gostava dessas pequenas cartas eram os elogios que recebia de suas próprias cartas. Sentia-se bem e estimulado a escrever de novo.
Reconhecia-se naquilo.
E escrevia como deveria ser, em folha fina para não pesar, em frente e verso. Escrevendo sobre tudo, filosofando, falando de si, como se falasse a um analista, sem saber. 
Haverá um dia em que terá muita curiosidade em saber o que escrevia, pois esquecerá. Então, fará análise talvez para lembrar, talvez para esquecer, dar outro lugar às cartas, os selos, a distância, o velho, o jornal nacional.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Formigas


O sol que demora a sair me dá uma sensação de que não haverá sol tão cedo. Aqui é tudo sombra e as luzes das ruas ainda persistem em iluminar os caminhos, como se ainda fossem tão úteis como na noite.

O café já esfriou e das sensações que tenho o tempo todo, dessa eu não me livro. São formigas dentro de mim carregando, incansáveis, restos de tristeza e construindo dutos sustentados por lembranças tão embaraçosas como malhas que se fixam nas paredes ocas dentro de mim. Ocas.

E o sol que demora a chegar.

Ela passeia pela casa,vem até mim, para do meu lado, sorri, segue seu caminho. Cheia de vida, ignora minha dor e ao mesmo tempo, com uma dedada mata as formigas que passam pelo seu caminho. Ainda bem.

Simples com um gesto qualquer muito bem calculado esmaga a formiga no chão sentindo a dureza de sua estrutura rígida. Depois pega o cadáver, o resto embaraçado e completamente disforme, olha com cuidado, por vezes come, por outras despreza-o num canto qualquer e segue. Que bom que segue.

Eu, me compadeço das pobrezinhas, elas que sustentam minha dor, preenchendo meu vazio de túneis de lembranças com migalhas insignificantes de tristezas. São elas a razão dos meus devaneios, dos meus pensamentos escuros, das minhas atitudes decadentes.

Bebo o café frio mesmo sem querer sair daqui onde estou. Goles pequenos para molhar a garganta. O gosto amargo combina com a manhã sem sol, com as formigas mortas, com todos os meus lamentos.

Mas, não combina com ela que agora se estica toda para pegar um livro na parte baixa da estante. Sorri e dá gritinhos de alegria pela pequena conquista. Sem formigas, sem café frio, sem migalhas de tristezas, sem pensamentos escuros... Ali o sol nunca deixou de surgir por todas as manhãs de sua pequena vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Quem Desdenha...

(Após longo tempo sem escrever aqui, resolvi publicar um pequeno conto, que dedico a minha colega e amiga Cassiana pela sua forma de rezar tão singular. Espero que se divirtam e comam menos a noite depois disso...)

Foi-se o tempo da fantasia, do conhecimento que vai assim passando de boca em boca, de mãe para filha. O trabalho agora é técnico, mental e nunca mais braçal. Até o braçal é técnico. Ninguém mais acredita em nada que não venha de estatísticas, comprovações e ciência. Muita ciência. É ela quem domina todo nosso conhecimento. Eu só acredito nisso. Disse Aurélio quebrando seu silêncio, entre uma garfada e um gole de vinho.

Noite de sexta-feira, jantar em sua casa com amigos, colegas de trabalho. Professor de história, gosta de falar tanto quanto de comer. Mas, enquanto come, dificilmente fala.

O assunto era sobre o fracasso das lendas e do folclore nos dias de hoje. Aurélio, um cético inveterado, desdenha com toda a franqueza de qualquer indício de tudo que não foi comprovado, testado e quantificado pelos métodos lógicos e matemáticos.

Cuidado disse Antônia, professora de geografia, de tanto ter certeza vai ainda dar de cara com o saci que vai encher de nó nessa tua cabeleira.

Não me venha com essa, francamente. Aqueles nós nos rabos dos cavalos eram os carrapichos e o vento que iam aos poucos fazendo aquele ninho nos rabos. Disso para um Saci, esse povo tem muita imaginação.

Mas, eu já vi, disse Josué, professor de matemática.

Já viu o que?

Um Saci, Aurélio. Juro por tudo. Até hoje meu cachorro não pode ver um homem de uma perna só que se treme inteiro.

Essa é boa.

Eu não vou insistir, porque você, mesmo se dar de cara com a mula sem cabeça vai dizer que é uma explosão de metano devido a qualquer coisa de sei lá o que.

Isso mesmo...

Mas, olha, disse Antônia, procurando sua vez de falar. Do jeito que tá comendo esse pernil tá dando margem para Pisadeira. Ela já tá de olho em você.

Ôh gente! Que é isso? Vamos mudar de assunto. Vocês estão me massacrando com essa conversa. Para mim é tudo muito bonito e alegre para os livros, para aqueles que gostam de ler histórias, como Chapeuzinho Vermelho ou João e Maria.

Vai por mim, remendou Antônia. Ela tá te olhando.

Tá bom. Vou mastigar sessenta vezes.

Riram. Mudaram de assunto. Mas, Aurélio ficou com a Pisadeira na cabeça.

O que é isso? Pisadeira?

Quase duas da manhã. Quatro garrafas de vinho. Um pernil de carneiro ao molho de vinho tinto e alecrim acompanhado por uma massa estavam divinos. Sobrou só o osso.

Arrotando e cambaleando, Aurélio se despede dos amigos da soleira da porta.

Pisadeira, pensou.

Voltou para a mesa. Estava feliz. Foi bom ter amigos em casa.

Tomou o resto do vinho que estava em sua taça.

Amanhã arrumo essa bagunça.

No quarto, cama de viúva. Solteirão. Tirou o sapato sem se abaixar. Naquele gesto rápido entre o dedão e o calcanhar. Ufa. Relaxou.

Deitou, ou melhor caiu de braços abertos. Fechou os olhos.

De repente ouviu um estalo.

Deve ter algum gambá nesse telhado.

Nem se mexeu.

Um vento frio. Abriu os olhos. Virou a cabeça para a janela que estava fechada. Estranho.

Assustou-se. Fiquei impressionado com a conversa, pensou. Deve ser isso. Vou pegar um café, isso sim, vai me ajudar.

No que foi se levantar sentiu um peso no peito.

Nossa. Eu acho que to passando mal. To paralisado!!! Meu deus, será que é um derrame?

Desdenhou de mim, não é minino? Ti avisaram que eu tava di olho nocê. Comeu inté si lambuzá. Achei qui fosse dormir abraçado cum osso qui sobrou lá na mesa.

Ergueu a cabeça para procurar quem estava ali e se deparou com uma velha cadavérica flutuando na frente da porta. Vestia preto, mas, era meio transparente.

Que é isso? Que palhaçada é essa. Antônia, para com isso. Não tem graça! Antônia?

Sua amiga tá em casa já faz tempo minino. Agora é só eu i ocê aqui. I eu vô ti dá um sufoco que não vai mi isquece tão cedo.

Tá bom, tá bom. Há há há. Já deu pessoal. Desliga esse projetor. E me desamarrem daqui. Não sei como conseguiram, mas façam o favor de me soltar? Porra!

Mas ocê não tá mi veno? Eu vô começá logo prá mor di acabá di uma veis.

De repente a velha voa para cima do peito de Aurélio e solta uma gargalhada em sua cara com um bafo banguela que lembra peixaria com chorume.

Aurélio perde o fôlego. A velha pula em seu peito, em seu abdome, e ri.

Eu já tava di olho nocê, se fartando, lambuzando com aquela cumilança toda. I agora, ainda não acredita na velha Pisadeira?

Aurélio, que sempre foi homem de tudo, quase roxo, chora. Acredito sim! Para com isso! Diz, quando é possível respirar.

Fecha os olhos e reza. Coisa que nem sabia como fazer, rezou: Ave Maria cheia de graça, é ela menina que vem e que passa... Me ajuda!

Abre os olhos, silêncio. A cortina do quarto se acalmando depois do último vento.

Consegue se mexer. Se encolhe. Sente que se urinou.

Ainda bem que não me caguei, pensou.

Levanta, tremendo.

Pega o celular.

Alô? Antônia? Me ajuda. A Pisadeira acabou de passar aqui. To todo mijado!


* Inspirado no folclore brasileiro, a lenda da Pisadeira tem origem nas regiões do interior de Minas Gerais e São Paulo.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

de tempos ...


De tempos em tempos a gente pensa que está ficando velho para aquilo que outrora fazia. De tempos em tempos a gente tem certeza disso.
De tempos em tempos a gente se depara com o que nunca fez e só de tempos em tempos a gente faz o que outrora jamais faria.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Missão

Spilc é uma coisa. Uma coisa ali no canto. Chegou segurando firme papeis que não podiam ser grampeados. Lhe tiram e lhe põem assim, como qualquer coisa.

Spilc já é antigo. Percorreu por tantos lugares que perdeu a conta, apesar de não saber contar. Quando veio ao mundo tinha um único objetivo, segurar simplesmente. Spilc não sabe ler, não faz ideia do que segura. Mas, segura firme, como se fosse a própria existência. É duro e flexível o suficiente apenas para que entre suas articulações se firmem qualquer coisa fina de papel ou pano. Além disso seu destino é trágico. Se não segura, vai para o lixo. Do lixo para outro lixo maior e do maior para um campo cheio de lixo e lá tomará chuva e muito em breve desaparecerá engolido pela terra.

Seria esse seu destino mais óbvio. Mas, com Spilc foi diferente.

De tanto rodar pelo mundo, de tanto que segurou, um dia uma mulher muito nervosa quis colocar coisas mais grossas e com força superou a dureza de Spilc e entortou-o completamente. Com raiva foi velozmente para o chão ouvindo sons ferozes. Spilc não conhece a língua portuguesa. Aliás, não conhece língua alguma.

No chão, torto e desprezado ainda foi chutado para um canto da sala. No canto da sala um menino segurou Spilc e desentortou-o. Não ficou mais como era antes, mas já estava melhor. O menino colocou Spilc em seu bolso, falou alguma coisa para aquela mulher que lhe respondeu no mesmo tom feroz. O menino saiu dali. Spilc sentia o sacolejar de seus passos. Parou.

Spilc sentiu a mãozinha do menino em seu corpo. Ali, sentado numa calçada ficou segurando, apertando, dobrando, indo e voltando. Até que sem mais nem menos arremessou Spilc para longe ou nem tão longe assim. Do outro lado, na outra calçada ficou. Horas e horas, sem nada para segurar, sem mesa para descansar, seu destino parecia o mesmo de todos os outros como ele.

Mas, não era esse seu destino. Já era quase noite quando um homem de camiseta e boné abaixa e pega Spilc com um sorriso e segue adiante. Anda muito segurando Spilc na mão. Spilc não viu o sorriso.

O homem chega numa cozinha suja e enfia Spilc no meio de uma massa molhada escura. Essa massa vira um bolo de chocolate que é coberto com chantili. Spilc não sabe que a cozinha é suja porque não sabe o que é uma cozinha, muito menos que o bolo era de chocolate, só sente o calor e depois o frio ao seu redor.

O bolo é embrulhado algum tempo depois e novamente o homem sai de casa. Spilc no meio do bolo de chocolate, coberto com chatili.

De repente tudo para novamente. Vozes e mais vozes, outros homens, mulheres e uma lâmina passa muito perto de Spilc. E outra lâmina do outro lado e mais uma. Spilc, que não fala, não lê e não entende o português ou qualquer outra língua, aguarda seu destino.

O bolo é novamente movimentado, todo cortado. O barulho diminuí e agora duas vozes mais perto dele emitem sons. Outras vozes ao redor estão mais longe. Nessa hora, um polegar grande e áspero, junto com um indicador do mesmo jeito pegam-no e lhe arrancam do bolo na direção a boca. Lá permanece entre os dentes e a bochecha. Spilc não sabe o que é boca, dentes ou bochecha, só sente a saliva corroendo seu corpo.

Quanto tempo ficará lá? Spilc não faz ideia, mas fica preocupado. Ele que serve para segurar agora permanece em meio a dentes, língua e saliva. Ali perde a noção de tempo, que nunca teve, até que os dois dedos que lhe tiraram do bolo também lhe tiram da boca. Spilc então sofre ao ser pressionado contra sua natureza e parte de suas articulações são entortadas, dobradas, esticadas. Terminada aquela tortura, aqueles dedos apontam Spilc na direção de uma fechadura. Uma porta de ferro é destrancada com ajuda de Spilc e seu mais novo cúmplice, um pedacinho de ferro. Daí, muitos barulhos, altos, secos. Gritos como aqueles da mulher, mas de homens são ouvidos. Mais barulhos e Spilc vai parar no bolso do homem da boca e dos dedos. Muitos movimentos e mais barulhos. Mais movimentos e silêncio. É retirado do bolso e o homem sorri. Spilc não vê nada disso, porque não tem olhos para ver. Spilc ouve, mas não tem ouvidos. São as vibrações das vozes que ressoam em suas articulações que o fazem distinguir os sons que também não entende.

De volta para o bolso e por um bom tempo permaneceu ali. Até que do bolso é entortado em forma de espiral e soldado. Fica fechado e não pode mais segurar coisa alguma. Depois é mergulhado num líquido quente e amarelo. Spilc não sabe, mas é ouro. E dali uma corrente, que será sua companheira por muitos anos, enlaça Spilc e vai para o pescoço do homem do bolo, dos dedos, da boca, da fechadura e do sorriso.

Spilc, que não lê, não fala, não vê e não ouve talvez ficasse triste em saber que nos jornais circulavam a seguinte manchete: “Ricardinho Pau-de-Arara foge da prisão de segurança máxima usando um clips, um pedaço de ferro e um helicóptero.” Spilc que tinha missão de segurar, acabou soltando. Mas, agora Spilc não tem mais medo. Tem ouro ao redor de si e vive num lugar que, se soubesse de alguma coisa, teria certeza que estava no Paraguai.