quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

de tempos ...


De tempos em tempos a gente pensa que está ficando velho para aquilo que outrora fazia. De tempos em tempos a gente tem certeza disso.
De tempos em tempos a gente se depara com o que nunca fez e só de tempos em tempos a gente faz o que outrora jamais faria.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Missão

Spilc é uma coisa. Uma coisa ali no canto. Chegou segurando firme papeis que não podiam ser grampeados. Lhe tiram e lhe põem assim, como qualquer coisa.

Spilc já é antigo. Percorreu por tantos lugares que perdeu a conta, apesar de não saber contar. Quando veio ao mundo tinha um único objetivo, segurar simplesmente. Spilc não sabe ler, não faz ideia do que segura. Mas, segura firme, como se fosse a própria existência. É duro e flexível o suficiente apenas para que entre suas articulações se firmem qualquer coisa fina de papel ou pano. Além disso seu destino é trágico. Se não segura, vai para o lixo. Do lixo para outro lixo maior e do maior para um campo cheio de lixo e lá tomará chuva e muito em breve desaparecerá engolido pela terra.

Seria esse seu destino mais óbvio. Mas, com Spilc foi diferente.

De tanto rodar pelo mundo, de tanto que segurou, um dia uma mulher muito nervosa quis colocar coisas mais grossas e com força superou a dureza de Spilc e entortou-o completamente. Com raiva foi velozmente para o chão ouvindo sons ferozes. Spilc não conhece a língua portuguesa. Aliás, não conhece língua alguma.

No chão, torto e desprezado ainda foi chutado para um canto da sala. No canto da sala um menino segurou Spilc e desentortou-o. Não ficou mais como era antes, mas já estava melhor. O menino colocou Spilc em seu bolso, falou alguma coisa para aquela mulher que lhe respondeu no mesmo tom feroz. O menino saiu dali. Spilc sentia o sacolejar de seus passos. Parou.

Spilc sentiu a mãozinha do menino em seu corpo. Ali, sentado numa calçada ficou segurando, apertando, dobrando, indo e voltando. Até que sem mais nem menos arremessou Spilc para longe ou nem tão longe assim. Do outro lado, na outra calçada ficou. Horas e horas, sem nada para segurar, sem mesa para descansar, seu destino parecia o mesmo de todos os outros como ele.

Mas, não era esse seu destino. Já era quase noite quando um homem de camiseta e boné abaixa e pega Spilc com um sorriso e segue adiante. Anda muito segurando Spilc na mão. Spilc não viu o sorriso.

O homem chega numa cozinha suja e enfia Spilc no meio de uma massa molhada escura. Essa massa vira um bolo de chocolate que é coberto com chantili. Spilc não sabe que a cozinha é suja porque não sabe o que é uma cozinha, muito menos que o bolo era de chocolate, só sente o calor e depois o frio ao seu redor.

O bolo é embrulhado algum tempo depois e novamente o homem sai de casa. Spilc no meio do bolo de chocolate, coberto com chatili.

De repente tudo para novamente. Vozes e mais vozes, outros homens, mulheres e uma lâmina passa muito perto de Spilc. E outra lâmina do outro lado e mais uma. Spilc, que não fala, não lê e não entende o português ou qualquer outra língua, aguarda seu destino.

O bolo é novamente movimentado, todo cortado. O barulho diminuí e agora duas vozes mais perto dele emitem sons. Outras vozes ao redor estão mais longe. Nessa hora, um polegar grande e áspero, junto com um indicador do mesmo jeito pegam-no e lhe arrancam do bolo na direção a boca. Lá permanece entre os dentes e a bochecha. Spilc não sabe o que é boca, dentes ou bochecha, só sente a saliva corroendo seu corpo.

Quanto tempo ficará lá? Spilc não faz ideia, mas fica preocupado. Ele que serve para segurar agora permanece em meio a dentes, língua e saliva. Ali perde a noção de tempo, que nunca teve, até que os dois dedos que lhe tiraram do bolo também lhe tiram da boca. Spilc então sofre ao ser pressionado contra sua natureza e parte de suas articulações são entortadas, dobradas, esticadas. Terminada aquela tortura, aqueles dedos apontam Spilc na direção de uma fechadura. Uma porta de ferro é destrancada com ajuda de Spilc e seu mais novo cúmplice, um pedacinho de ferro. Daí, muitos barulhos, altos, secos. Gritos como aqueles da mulher, mas de homens são ouvidos. Mais barulhos e Spilc vai parar no bolso do homem da boca e dos dedos. Muitos movimentos e mais barulhos. Mais movimentos e silêncio. É retirado do bolso e o homem sorri. Spilc não vê nada disso, porque não tem olhos para ver. Spilc ouve, mas não tem ouvidos. São as vibrações das vozes que ressoam em suas articulações que o fazem distinguir os sons que também não entende.

De volta para o bolso e por um bom tempo permaneceu ali. Até que do bolso é entortado em forma de espiral e soldado. Fica fechado e não pode mais segurar coisa alguma. Depois é mergulhado num líquido quente e amarelo. Spilc não sabe, mas é ouro. E dali uma corrente, que será sua companheira por muitos anos, enlaça Spilc e vai para o pescoço do homem do bolo, dos dedos, da boca, da fechadura e do sorriso.

Spilc, que não lê, não fala, não vê e não ouve talvez ficasse triste em saber que nos jornais circulavam a seguinte manchete: “Ricardinho Pau-de-Arara foge da prisão de segurança máxima usando um clips, um pedaço de ferro e um helicóptero.” Spilc que tinha missão de segurar, acabou soltando. Mas, agora Spilc não tem mais medo. Tem ouro ao redor de si e vive num lugar que, se soubesse de alguma coisa, teria certeza que estava no Paraguai.