quinta-feira, 19 de maio de 2011

Quem Desdenha...

(Após longo tempo sem escrever aqui, resolvi publicar um pequeno conto, que dedico a minha colega e amiga Cassiana pela sua forma de rezar tão singular. Espero que se divirtam e comam menos a noite depois disso...)

Foi-se o tempo da fantasia, do conhecimento que vai assim passando de boca em boca, de mãe para filha. O trabalho agora é técnico, mental e nunca mais braçal. Até o braçal é técnico. Ninguém mais acredita em nada que não venha de estatísticas, comprovações e ciência. Muita ciência. É ela quem domina todo nosso conhecimento. Eu só acredito nisso. Disse Aurélio quebrando seu silêncio, entre uma garfada e um gole de vinho.

Noite de sexta-feira, jantar em sua casa com amigos, colegas de trabalho. Professor de história, gosta de falar tanto quanto de comer. Mas, enquanto come, dificilmente fala.

O assunto era sobre o fracasso das lendas e do folclore nos dias de hoje. Aurélio, um cético inveterado, desdenha com toda a franqueza de qualquer indício de tudo que não foi comprovado, testado e quantificado pelos métodos lógicos e matemáticos.

Cuidado disse Antônia, professora de geografia, de tanto ter certeza vai ainda dar de cara com o saci que vai encher de nó nessa tua cabeleira.

Não me venha com essa, francamente. Aqueles nós nos rabos dos cavalos eram os carrapichos e o vento que iam aos poucos fazendo aquele ninho nos rabos. Disso para um Saci, esse povo tem muita imaginação.

Mas, eu já vi, disse Josué, professor de matemática.

Já viu o que?

Um Saci, Aurélio. Juro por tudo. Até hoje meu cachorro não pode ver um homem de uma perna só que se treme inteiro.

Essa é boa.

Eu não vou insistir, porque você, mesmo se dar de cara com a mula sem cabeça vai dizer que é uma explosão de metano devido a qualquer coisa de sei lá o que.

Isso mesmo...

Mas, olha, disse Antônia, procurando sua vez de falar. Do jeito que tá comendo esse pernil tá dando margem para Pisadeira. Ela já tá de olho em você.

Ôh gente! Que é isso? Vamos mudar de assunto. Vocês estão me massacrando com essa conversa. Para mim é tudo muito bonito e alegre para os livros, para aqueles que gostam de ler histórias, como Chapeuzinho Vermelho ou João e Maria.

Vai por mim, remendou Antônia. Ela tá te olhando.

Tá bom. Vou mastigar sessenta vezes.

Riram. Mudaram de assunto. Mas, Aurélio ficou com a Pisadeira na cabeça.

O que é isso? Pisadeira?

Quase duas da manhã. Quatro garrafas de vinho. Um pernil de carneiro ao molho de vinho tinto e alecrim acompanhado por uma massa estavam divinos. Sobrou só o osso.

Arrotando e cambaleando, Aurélio se despede dos amigos da soleira da porta.

Pisadeira, pensou.

Voltou para a mesa. Estava feliz. Foi bom ter amigos em casa.

Tomou o resto do vinho que estava em sua taça.

Amanhã arrumo essa bagunça.

No quarto, cama de viúva. Solteirão. Tirou o sapato sem se abaixar. Naquele gesto rápido entre o dedão e o calcanhar. Ufa. Relaxou.

Deitou, ou melhor caiu de braços abertos. Fechou os olhos.

De repente ouviu um estalo.

Deve ter algum gambá nesse telhado.

Nem se mexeu.

Um vento frio. Abriu os olhos. Virou a cabeça para a janela que estava fechada. Estranho.

Assustou-se. Fiquei impressionado com a conversa, pensou. Deve ser isso. Vou pegar um café, isso sim, vai me ajudar.

No que foi se levantar sentiu um peso no peito.

Nossa. Eu acho que to passando mal. To paralisado!!! Meu deus, será que é um derrame?

Desdenhou de mim, não é minino? Ti avisaram que eu tava di olho nocê. Comeu inté si lambuzá. Achei qui fosse dormir abraçado cum osso qui sobrou lá na mesa.

Ergueu a cabeça para procurar quem estava ali e se deparou com uma velha cadavérica flutuando na frente da porta. Vestia preto, mas, era meio transparente.

Que é isso? Que palhaçada é essa. Antônia, para com isso. Não tem graça! Antônia?

Sua amiga tá em casa já faz tempo minino. Agora é só eu i ocê aqui. I eu vô ti dá um sufoco que não vai mi isquece tão cedo.

Tá bom, tá bom. Há há há. Já deu pessoal. Desliga esse projetor. E me desamarrem daqui. Não sei como conseguiram, mas façam o favor de me soltar? Porra!

Mas ocê não tá mi veno? Eu vô começá logo prá mor di acabá di uma veis.

De repente a velha voa para cima do peito de Aurélio e solta uma gargalhada em sua cara com um bafo banguela que lembra peixaria com chorume.

Aurélio perde o fôlego. A velha pula em seu peito, em seu abdome, e ri.

Eu já tava di olho nocê, se fartando, lambuzando com aquela cumilança toda. I agora, ainda não acredita na velha Pisadeira?

Aurélio, que sempre foi homem de tudo, quase roxo, chora. Acredito sim! Para com isso! Diz, quando é possível respirar.

Fecha os olhos e reza. Coisa que nem sabia como fazer, rezou: Ave Maria cheia de graça, é ela menina que vem e que passa... Me ajuda!

Abre os olhos, silêncio. A cortina do quarto se acalmando depois do último vento.

Consegue se mexer. Se encolhe. Sente que se urinou.

Ainda bem que não me caguei, pensou.

Levanta, tremendo.

Pega o celular.

Alô? Antônia? Me ajuda. A Pisadeira acabou de passar aqui. To todo mijado!


* Inspirado no folclore brasileiro, a lenda da Pisadeira tem origem nas regiões do interior de Minas Gerais e São Paulo.