sexta-feira, 3 de junho de 2011

Formigas


O sol que demora a sair me dá uma sensação de que não haverá sol tão cedo. Aqui é tudo sombra e as luzes das ruas ainda persistem em iluminar os caminhos, como se ainda fossem tão úteis como na noite.

O café já esfriou e das sensações que tenho o tempo todo, dessa eu não me livro. São formigas dentro de mim carregando, incansáveis, restos de tristeza e construindo dutos sustentados por lembranças tão embaraçosas como malhas que se fixam nas paredes ocas dentro de mim. Ocas.

E o sol que demora a chegar.

Ela passeia pela casa,vem até mim, para do meu lado, sorri, segue seu caminho. Cheia de vida, ignora minha dor e ao mesmo tempo, com uma dedada mata as formigas que passam pelo seu caminho. Ainda bem.

Simples com um gesto qualquer muito bem calculado esmaga a formiga no chão sentindo a dureza de sua estrutura rígida. Depois pega o cadáver, o resto embaraçado e completamente disforme, olha com cuidado, por vezes come, por outras despreza-o num canto qualquer e segue. Que bom que segue.

Eu, me compadeço das pobrezinhas, elas que sustentam minha dor, preenchendo meu vazio de túneis de lembranças com migalhas insignificantes de tristezas. São elas a razão dos meus devaneios, dos meus pensamentos escuros, das minhas atitudes decadentes.

Bebo o café frio mesmo sem querer sair daqui onde estou. Goles pequenos para molhar a garganta. O gosto amargo combina com a manhã sem sol, com as formigas mortas, com todos os meus lamentos.

Mas, não combina com ela que agora se estica toda para pegar um livro na parte baixa da estante. Sorri e dá gritinhos de alegria pela pequena conquista. Sem formigas, sem café frio, sem migalhas de tristezas, sem pensamentos escuros... Ali o sol nunca deixou de surgir por todas as manhãs de sua pequena vida.