quarta-feira, 13 de julho de 2011

Sufoco (4)

Escrevo com pouca métrica
Tem dois motivos
Ninguém verifica
Poemas obsessivos

Tento e morro de fome
Nunca deu, nunca vai dar
Se um dia ganhei um nome
Não foi para me sufocar

Respiro um pouco
Trago o cigarro
Me sentindo louco
Por onde me agarro

Se é por causa do amor
Não sei se cabe tanto assim
Faço por vezes com dor
Tanto por você quanto por mim.

Confissão (3)

Admiro
Os senhores
Os mestres
Os doadores

Os trabalhadores que saem às cinco pra luta
Os pais que têm dois na mesma hora
Os cães que dão a pata, acho batuta
A palavra que da boca aflora

Admiro

A freira na clausura
As letras escritas com a mão
Saber ler a partitura
Quando lembro da respiração

Relógio de corda
Minha filha crescendo
O choro preso que transborda
Quem vai simplesmente vivendo

Admiro

Meu coração apertado
Quando sinto saudade
O teu rosto delicado
A rara felicidade

O céu quando está azul
Deus que não me dá bola
Amigos de Jaraguá do Sul
A hora final de ir embora

Admiro.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DOIS (2)

Quando olho para trás vejo tudo e quanto já vivi

Quando olho para o lado vejo tudo e quanto eu não vivi

Quando olho para frente vejo quanto e tanto ainda tenho

Para viver


Se tenho pressa não passa

Quando é bom, passa depressa

Equilíbrio?

Vida nas costas arcando

Que para um lado

Pesa.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O selo


O velho na sala ao lado, via o jornal nacional enquanto a água ia fervendo, balançando a tampa da chaleira, tac tac tac, exalando vapor pelo bico mudo e sobre ele um envelope que dançava guiado pelo menino. Como um maestro fazia e  o envelope ia e vinha, subia e descia. No fundo a voz de Sidnei Moreira e ali só  o estrebuchar da água e do ferro. 
A dança era interrompida de tempos em tempos para verificar o processo de descolamento do selo e esfriar a mão que fervia junto.
O envelope já aberto continha uma carta já lida. Não era de amor, talvez de amizade que trazia as notícias de outro lugar. O selo voltaria, depois de seco e o carimbo delicadamente apagado com uma borracha limpa, para sua terra de origem.
Já sabia ler e escrever e as contas eram o suficiente para saber que não tinha dinheiro para comprar um novo selo. Aquele já usado receberia novo carimbo do carimbador desatento, pois se olhasse bem, daria para ver os sinais de um carimbo antigo de outro lugar.
Casa de pouca conversa, dirá de pouca escrita. As cartas, o selo, o tempo de espera, o carteiro formavam seu mundo.
Escrevia uma carta, colocava na caixa do correio perto da escola e então, era só esperar o efeito.
Palavras vindas de outro lugar chegariam dizendo talvez da vida bonita, dos amigos em comum, dos tempos de alegria. Palavras simples e de pouca poesia. Eram relatos vindos em papel bonito, pequeno, as vezes perfumado. E quanto menor, maior a sua decepção. Queria mais, saber mais. Mas, diziam apenas das rotinas ou alguma novidade pequena, sem efeitos para sua vida. O que mais gostava dessas pequenas cartas eram os elogios que recebia de suas próprias cartas. Sentia-se bem e estimulado a escrever de novo.
Reconhecia-se naquilo.
E escrevia como deveria ser, em folha fina para não pesar, em frente e verso. Escrevendo sobre tudo, filosofando, falando de si, como se falasse a um analista, sem saber. 
Haverá um dia em que terá muita curiosidade em saber o que escrevia, pois esquecerá. Então, fará análise talvez para lembrar, talvez para esquecer, dar outro lugar às cartas, os selos, a distância, o velho, o jornal nacional.