segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Desejos de começo e fim

Texto do amigo, amigo de verdade
e conterrâneo CHARLES GILBERTO GUNTHER.

O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho...
É viver cada momento e construir a felicidade aqui e agora.
Claro que a vida prega peças.
O bolo não cresce, o pneu fura, chove demais, perdemos pessoas que amamos...
Mas pensa só:
Tem graça viver sem rir de gargalhar, pelo menos uma vez ao dia?
Tem sentido estragar o dia por causa de
uma discussão na ida pro trabalho?
Eu quero viver bem...
E você?
... 2011 foi um ano cheio de coisas boas, mas também de problemas e desilusões,
tristezas e perdas, reencontros...
Normal...
2012 não vai ser diferente.
Muda o século, o milênio muda, mas o homem é cheio de imperfeições,
a natureza tem sua personalidade, que nem sempre é a que a gente deseja,
mas, e aí?
Fazer o quê?
Acabar com o seu dia?
Com seu bom humor?
Com sua esperança?
O que eu desejo pra todos nós é sabedoria. E que todos nós saibamos transformar tudo em uma boa experiência. O nosso desejo não se realizou?
Beleza... Não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa para aquele momento.
Mas todos merecem, e sempre devem ter uma segunda chance.
Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano...
Mas, se a gente se entender e permitir olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam diferentes.
Desejo para todo mundo esse olhar especial!
... 2012 pode ser um ano especial, se nosso olhar for diferente.
Pode ser muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso.
Somos fracos, mas podemos melhorar.
Somos egoístas, mas podemos entender o outro.
2012 pode ser o máximo, maravilhoso, lindo, especial!
Depende de mim... De você... Do amor... Da amizade!!!
E que assim seja!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Flores

Realmente a beleza não está nas cores ou nos perfumes das flores.
A beleza das flores está no ato que elas convocam.
A beleza é a construção de um jardim.
A beleza é o vento que empurra seu perfume.


O belo de uma flor não é a flor em si, mas, sim a colheita da flor, ainda botão, para chegar aonde deve, se abrindo e... morrendo.
Flores condensam o tempo e metaforizam nossas vidas... Desabrochamos, abrimos, exalamos nossos cheiros, convocamos, seduzimos, somos cheios de brilho, de vida, de energia... e desejamos o que podemos. Mas, por mais força que temos, eis que, cedo ou tarde, nos curvaremos, aos poucos, e cairemos, morreremos.
Aí está a beleza das flores. Representando a vida e a morte.
Uma flor quando é dada, qualquer flor, representa a vida sendo entregue.
A flor, quando morre, deixa seu fruto, sua força vital.
Quando damos frutos, como as flores, morremos.
No ato de criação, deixamos de ser o que fomos. A criação da vida pela morte.
Eis aí a beleza das flores.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

(Des)Abafo

Não tente me entender
Nem traduzir minha poesia

Se achar uma bobeira
Não tem grandes problemas
Eu também acho, tantas vezes

Se não entender
Leia de novo
Só que sem pressa

Leia como se lê um mistério
Como se cantasse um verso

Deixe a palavra te levar
Agarre nela com força

Como se pudesse segurar nas patas de um passarinho
E sair voando
Vendo o chão lá longe
E o vento te deixando surdo
Sem saber onde parar

E se nunca mais quiser voltar
Vá embora

Não te quero bem
Não te quero mal

Quero apenas que a palavra
Esta palavra aqui continue viva

Numa gaiola o pássaro está morto
Numa gaveta a palavra está morta

Palavra viva
É palavra lida.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O começo é o (ar)risco

Lacan diz em seu seminário: “É sempre por meio de um ultrapassamento do limite, benéfico, que o homem faz a experiência de seu desejo”.
Por diversas questões, teóricas ou pessoais, esta frase ecou em mim no tempo de concluir e escrever este texto para apresentar aqui.
Vi, durante este percurso, que falar de ética da psicanálise é falar de nada, é falar do vazio que habita o lugar do analista em seu trabalho.
A ética da psicanálise não tem função normatizadora ou reguladora desta práxis, como se vê em outras instâncias de trabalho, quer seja, psicológica, médica ou pedagógica. Ela apenas afirma: não ceder de seu desejo, sendo que Lacan coloca como, só podendo ser abordada dentro do campo analítico.
Esta é a ética.
Uma pergunta que se colocou para mim é que Lacan afirma a ética através de uma negativa. Não ceder. Estaria então o psicanalista “tentado” ou inclinado a outra posição? Qual seria?
A maçã foi mordida já faz tempo, que possibilitou aos homens o discernimento do bem e do mal, segundo o gênesis. O bem, tão abordado por Lacan, está no mesmo lugar do mal. Assim, que Kant e Sade dão as mãos, no prazer e no gozo, querendo algo do homem. Seu bem ou seu mal. Dá na mesma. Seria esta a inclinação? Querer o bem do sujeito que procura uma análise? Querer seu próprio bem? Querer seu mal, o que seria mais escandaloso, mas, talvez mais honesto?
Não ceder. Não recuar. Este me parece ser o limite, benéfico, de ultrapassamento. Pois o analista quer o que? Deseja o que?
O que vi foi que o analista deseja o desejo, ou seja, que a análise aconteça e o sujeito ali perdido em seus bens, suas dores, alcance seu desejo. Como é dito neste seminário: “A dimensão do bem levanta uma muralha poderosa na via de nosso desejo. É mesmo a primeira com a qual lidamos em cada instante e sempre (pg 280)”. Mais adiante Lacan dirá que “não há outro bem senão o que pode servir para pagar o preço ao acesso ao desejo – na medida em que esse desejo, nós o definimos alhures como a metonímia de nosso ser.”
Está claro, talvez até claro demais para os desavisados, ofuscando as imagens (como em Édipo que fura seus olhos, para enxergar a verdade) que neste ponto sem volta, de um risco, marca significante, alcança um arriscar para a vida, que é ser para a morte.
Aqui, caem as ilusões dos bens, dos pequenos objetos para definir que o que interessa nessa vida, pois só há esta vida ou então, se preferirem, como disse Lacan, contabilizem essa perdas em outro lugar, pois, “não nos encheram suficientemente o saco com o desejo nesta terra, é preciso que uma parte da eternidade se ocupe em fazer as contas de tudo isso”, (pg 380). Tal esperança só é possível pela estrutura de linguagem que divide o sujeito.
Pois bem, o desejo é o que interessa como metonímia do ser. Seguindo a proposição freudiana, um parte inapreensível, escondida. Ou então, boa parte que o sujeito não acessa e se perde em espelhos e imagens e paixões.
Ser para a morte relativiza-o. Inapreensível, a morte produz significantes que Lacan aproxima o desejo e vai coloca-lo junto ao juízo final, pois, como diz ele, é somente no final.
Ceder aos bens e ao poder dos bens é colocar o desejo numa salmoura, como diz Lacan lembrando Hitler chegando em paris: “vim libertá-los disso ou daquilo. O essencial, diz ele, é isto – continuem trabalhando. Que o trabalho não pare. O que quer dizer – Que esteja claro que não é absolutamente uma ocasião para manifestar o mínimo desejo. A moral do poder, do serviço dos bens é – quanto aos desejos, vocês podem ficar esperando sentados” (378).

Pergunta permanente num percurso de formação: Qual o seu desejo? Que voi?
Quando se cede, sabendo ou não, esta é a única culpa, como diz Lacan. Assim, as coisas complicam, pois a traição está colocada, não interessando qual é a empreitada, da fuga súbita, abandonar as armas, os pincéis, as canetas. Há uma traição e o desejo se esvai por entre os furos da alma. A morte está posta. Antígona recusa esta morte, optando pela morte de seu corpo, preservando, vivendo, morrendo viva em seu desejo.
Esta posição radical torna-se ponto que define a relação do psicanalista com seu desejo. Radical da palavra, que em qualquer conjugação, presente, passado ou futuro, marca e funda o sujeito em seu desejo.
Este sujeito furado e manco caminha e se constitui pelas bordas e tropeços, culpando a deus pela sua imperfeição, quer esteja ele fora ou dentro, até encontrar um analista em seu caminho tortuoso. E quando o encontra, logo percebe que o divã não é lugar mais apropriado para descansar. Ali é onde ele verdadeiramente trabalha.
A saída, ponto que necessita ser colocado, a saída da análise, como dizem, é daí que surge um analista. Sujeito ainda furado e manco, sem o engodo de felicidade, mas, que na melhor das hipóteses, muda o objeto, sublima, sob o custo de renunciar a um gozo e estar numa condição onde o recalque não tem mais o mesmo peso. A sublimação é a saída, onde o objeto vira a coisa, o vazio da falta, motor do desejo.
A ética do psicanalista é a ética do homem comum, mas, a diferença se apresenta na advertência de que sua práxis é deixar-se vazio de qualquer coisa e sustentar o desejo de desejo.
Como diz o título deste trabalho, o risco que faz significante marca a vida que impõe que arriscar-se nela é a única via para aproximar-se do desejo. Geralmente, num texto, num conto ou poema, o título cria-se por último. Aqui veio por primeiro, mas, a liberdade da criação é uma ilusão, pois mesmo preso a vida insiste e a história nos mostra que a prisão não está nas grades ou muros ou a liberdade nos impensáveis acessos ao gozo e objetos. Liberdade é um engodo, uma trapaça, que o analista sabe muito bem, pois aquilo que possibilita o acesso ao desejo é a prisão inevitável da vida, que não escapa da morte. Ater-se àquilo que chamo aqui de pequenas coisas, de pequenos bens, sintomas com migalhas de prazer, é isso que se perde e o que a ética propõe, renunciar a isso, derrubando essa muralha e alcançar o desejo.
É o caminho da análise, onde as palavras compõe a terra e o céu e ali está o psicanalista que paga por isso com seu ser, vazio. Revelar-se o desejo ao sujeito exige um percurso é isso que interessa numa análise.
Por mais óbvio que seja, neste cartel, coincidindo com meu percurso, descobri que a vida acaba, que é preciso se arriscar nela, que o desejo é o que se pode ter de mais verdadeiro como metonimia do ser e que o tempo, emergência contemporânea, não está nem aí para os nossos caprichos.

Referência: Lacan, O Seminário, Livro 7.