quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pedras

Quando se vive mais ou menos, num trabalho intenso, de pouca arte, de pouca criação, de uma rotina rígida, sem quebras, com o fim de semana tal qual um copo de água para um andarilho num deserto... Quando a vida fica assim, há, de início, dois caminhos:
Mudar e reler a história. Permitir-se olhar a vida por um novo ângulo, mesmo que seja a mesma paisagem de sempre. Talvez não consiga sozinho. Talvez a angústia seja tão grande que fique paralisado. Mas, mesmo assim, é possível.
Ou então, enrijecer-se nisso, formar uma crosta dura e áspera contra a realidade e contra si. E assim passar a vida saboreando as migalhas de uma história do passado, revivendo, revivendo, revivendo... E viver que é bom... Se afogando num mar de pedras.
No fim de todo ano, é bom pensar em qual caminho se está seguindo... Mesmo que seja árduo demais, mesmo que seja uma das promessas para 2013.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Da telha

Ali voa um passarinho
Beliscando o azul do céu
Perto dali, num chapéu
O chiado do bicho no ninho

Abrindo as cortinas de cinza
Um tanto de vento no céu
Tirando do mundo esse véu
A cor de todo ranzinza

Pingados de sonhos secretos
Alimentando a faminta ilusão
Céu de algum tecelão
Tapete trançado de afetos


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Mania

Se eu pudesse não dormiria mais. Viraria todas as noites e dias numa vida arregalada absorvendo as coisas dos dias e os vazios das noites.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Desencontro

Enquanto espero
Há tempo
Você não chega
Aguento

O tempo passa
Na hora
Você não chama
Ignora

Vai dando sono
Na vista
Você não olha
Desista

As pernas se movem
Pra fora
Você não engana
Embora.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Curto

A felicidade é um instante, um afeto, uma sensação. Acontece de vez em quando e só de vez em quando. Por isso que ela tem graça.

A felicidade nunca surge sozinha. Antes dela é preciso um trabalho, um cansaço, um susto, uma surpresa, uma fome, algumas palavras, uma verdade... Para ter felicidade támbem pode ser uma boa mentira.

Se for felicidade constante, não se engane, isso se chama tédio.

Felicidade não é riso. Esse é muito mais fácil. Tem riso amarelo, de lado, sem dentes, sincero, escandaloso, patético...
Quer coisa mais fácil que riso de político em campanha prometendo a sua felicidade?

domingo, 19 de agosto de 2012

Zé mané

O vazio é a pressão que empurra para fora de minha alma as letras confusas dentro de mim.
     Escrevo.

Tenho a esperança, todos os dias, todas as horas. Em todas as curvas, esquinas ou portas espero encontrar aquilo que nem sei ao certo, mas que me faça concluir que "agora sim!" Porque estou cansado de concluir que "agora não"!

Não espero mais do que sonhos e mistérios nas noites dormidas. Naquelas não dormidas, não espero nada mais do que o silêncio profundo da escuridão. 

     Para ver a escuridão, somente de olhos bem abertos.

O tempo é uma construção. Tenho cada vez mais certeza de que preciso jogar os relógios fora, pular deste trem desesperado que não tem a menor ideia de onde vai parar.
Espero que você aí também tenha esta vontade, porque se não percebeu, estamos na mesma. 
Eu sei, é preciso coragem. 
     Sair da roda viva, circulante e ininterrupta, de alguns padrões que foram empurrados goela abaixo sabe-se lá por quem. Por deus, talvez! Faz tempo então. Que deus?

De forma alguma procuro a anarquia ou o fim das ilusões. Quero apenas escrever, aqui, por enquanto. 
                       
                          As ilusões fazem bem, nos dão esperanças, vazias, mas, carregadas de sonhos, otimismos e para alguns, fé. Veja a anarquia. Uma ilusão absurda, mas, fundamental ao punk, ao artista, ao amante da liberdade.
                     Liberdade? Quando encontrei a liberdade, fiquei apavorado!

O que procuro? Nada. Simples assim. 
            Nada, como o vazio que empurra para fora de minha alma as letras confusas dentro de mim.
     Escrevo.




sábado, 4 de agosto de 2012

pau é pau


Pau é pau
Pedra
É
Pedra
No
Sá pato!

Uma no caminho não
Duas sim
Em mim
Uma em cada mão
Pau a pau

Pau
Quantos da canoa?
Que virou.

Pau
Obra
Toda
Pedra
Pedro
O Pedro tem o peito preto
O peito do pedro é preto

Pau é pau
Pedra
É pedra?

O pau encontrou a pedra
O pau quis pisar na pedra
O pau se quebrou no chão
A pedra era sabão.

sábado, 7 de julho de 2012

Noite

O silêncio da madrugada é estilhaçado por um coração que bate forte em meu peito. Uma batida só. Tum!
Tão forte que escuto daqui de fora e sinto tremer meu corpo querendo dormir. A cabeça, esta ingrata e cheia de nós, esquece de tudo e fica aí, acordada, zumbizando pela casa. As gotas que caem no metal da calha ali fora marcam o compasso de um tempo paralisado. Eu sei, o tempo não me deixa em paz, mas, a cabeça, essa maldita, recusa o tempo e fica marcando as gotas como pedaços do céu.
O céu que de tão azul foi ficando roxo e o brilho e o grito do céu anunciam sua queda. Em suor de água, sem sal.
O que escuto no compasso das gotas... Raul Seixas!


  A 
E da janela desses quartos 
                  C 
De pensão eu com cobertor 
        D 
Transquilo eu tento 
              G    G7 
Uma transmutação... 
                 C 
Oh! Oh! Oh! Seu Moço! 
    D        Bm 
Do disco voador 
    Em         C 
Me leve com você 
      D        G   G7 
Pra onde você for 




Quero-quero que lá fora pia e voa revela que nem todo silêncio é de paz. Sorrateiro, de certo o gato gordo do vizinho anda pelo campo aberto dos ninhos, caçando como última tentativa de manter pateticamente um instinto já há muito tempo perdido.
A noite calada, sem voz nem nada.
Só as letras aqui, dançando, dançando, dançando. Noite adentro do silêncio.
Caralho...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Folha

A folha branca é o começo de tudo. Numa folha branca. Num vazio contagioso. Um nada que o passar do tempo faz expandir, crescer e quando percebo, estou inteiramente tomado, mergulhado e branco no fundo branco da folha. Sou nada fumando um cigarro.
Uma folha branca repleto de nada sou eu amarrado ao mundo por um cigarro.
Pelo cigarro alcanço a mão, que sinto ansiosa. O papel, a caneta e a luz.
Um vazio de luz. Sim. Ali estou eu. Num vazio de luz. Sem paisagem e sem conversa, só o branco do papel cheio de luz. E eu. Um papel vazio, eu e a luz.
Ainda assim é nada.
A mão segura o cigarro, por onde me seguro no mundo, que gira segurando no sol, que então segue solto, viajando no vazio do espaço.
Mas, o mundo já é alguma coisa.
A mão, como o sol também pode se mover no vazio do mundo. Mão, encontra a caneta e se aproxima do vazio de luz e de mim. E risca, a caneta falha. Risca forte no canto da folha.
Eu, ali no vazio do papel, sinto a mão e vejo o risco.
A mão escreve. E quando escreve, os traços fazem sombra na folha, que já não é mais cheia de nada e luz.
Na sombra da letra me escondo do vazio branco do papel.
O cigarro acabou, na última e forte tragada. Agora é pela sombra escura da letra por onde deixo o vazio. Mas, por via das dúvidas, acendo outro cigarro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Re Tomando

Já faz um bom tempo
Um longo tempo jaz
Daquilo que não escrevo
Urgência de tanto faz

Tanto fêz que não aguento
Foi-se o tempo do talvez
Agora só aqui num tento
Rascunho de insensatez

Meio estranho é, eu sei
Sempre tentando retomar
Quem já foi filho de rei
Tem pouca história pra contar

Não canso de tentar
Escrever algo que preste
No susto, tentar acordar
Louco, tomado pela peste.