sábado, 25 de fevereiro de 2012

Folha

A folha branca é o começo de tudo. Numa folha branca. Num vazio contagioso. Um nada que o passar do tempo faz expandir, crescer e quando percebo, estou inteiramente tomado, mergulhado e branco no fundo branco da folha. Sou nada fumando um cigarro.
Uma folha branca repleto de nada sou eu amarrado ao mundo por um cigarro.
Pelo cigarro alcanço a mão, que sinto ansiosa. O papel, a caneta e a luz.
Um vazio de luz. Sim. Ali estou eu. Num vazio de luz. Sem paisagem e sem conversa, só o branco do papel cheio de luz. E eu. Um papel vazio, eu e a luz.
Ainda assim é nada.
A mão segura o cigarro, por onde me seguro no mundo, que gira segurando no sol, que então segue solto, viajando no vazio do espaço.
Mas, o mundo já é alguma coisa.
A mão, como o sol também pode se mover no vazio do mundo. Mão, encontra a caneta e se aproxima do vazio de luz e de mim. E risca, a caneta falha. Risca forte no canto da folha.
Eu, ali no vazio do papel, sinto a mão e vejo o risco.
A mão escreve. E quando escreve, os traços fazem sombra na folha, que já não é mais cheia de nada e luz.
Na sombra da letra me escondo do vazio branco do papel.
O cigarro acabou, na última e forte tragada. Agora é pela sombra escura da letra por onde deixo o vazio. Mas, por via das dúvidas, acendo outro cigarro.