sexta-feira, 19 de abril de 2013

Kafka e a redução da maioridade penal

E no jornal de hoje diz que foi aprovada a redução da maioridade penal para zero!
Depois de muito debate e um plebiscito que não deixou dúvidas, nosso presidente sancionou a lei que dá plenos poderes ao sistema jurídico de julgar e condenar qualquer brasileiro acima de zero anos.
Assim, na mesma onda também ficou decidido que o estado irá assumir todos os bebês que nascerem a partir de hoje. Caberá aos pais apenas os cuidados orgânicos e funcionais do bebê e ao estado toda a educação de seus cidadãos. Também ficou afirmado com isso que um pai ou mãe tomado em flagrante dando um olhar, uma atenção, um sorriso, um não ou qualquer outra forma de afeto, será denunciado por exercício ilegal da paternidade ou maternidade e se condenado poderá pegar até vinte anos de prisão, sendo a pena estabelecida como suficiente para eliminar qualquer desejo, saudade ou lembrança de seu filho. Assim como também é considerado suficiente para que o estado retire todas as influências sofridas pelo trauma que o contato com seus pais biológicos produziu.
O estado então garante que não haverá mais criminosos nas ruas.
Porém, se um bebê acordar no meio da noite ou querer qualquer outra coisa que não seja dormir, mamar ou que lhe troque a fralda será levado a um comitê de avaliação para prestar depoimento e assim verificar se de fato se trata de uma infração ou um exagero dos pais biológicos.
Mas, especialistas afirmam que esta parceria público privado está com os dias contados. Muito em breve, afirmam eles, um moderno sistema de cuidados será implantado no país e os bebês sairão direto da maternidade para grandes encubadoras, onde máquinas farão os cuidados orgânicos e uma equipe de médicos, pedagogos e psicólogos farão o trabalho de transformar os bebês em exemplares cidadãos. Também afirmam que com esta medida, em aproximadamente vinte anos, não haverá um crime sequer em todo o país.
Imagem da WEB

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pena.

Fechando os olhos é que se abrem as cortinas da escuridão.
E ali dentro, tateando os cantos do nada, encontro uma pena caída.
De pena da pena que perdeu seu voo, ponho-a atrás da orelha, como se põe caneta, como se põe cigarro, bem ali onde a boca revela um segredo.
Sendo eu a escuridão, mergulho pela janela e caio, sem vôo, com pena, caneta, cigarro e segredo.
Fechando as cortinas, abro os olhos.
Que pena.
 Imagem da WEB

terça-feira, 16 de abril de 2013

Cidade cansada

A cidade corre de louca
Feito louca, que louca é
Cidade mais louca, tão louca
Louca de tão louca é

Cidade que tudo estranha
Estranha, que cidade é
Vesga cidade estranha
Estranha de tão louca é

Cidade louca estranha
Estranha a vida que é
Louca até que se estranha
Vida louca estranha é

Cidade apanha de louca
Apanha o sol da montanha
Louca cidade que canta
Música estranha é Tom Zé

Cidade que dança de louca
A música estranha do Zé
Que não encontrou o Tom
Cidade perdendo a fé

Normal da cidade é louca
Louca de marré deci
Senhora que dorme de touca
Silêncio é seu grito em mim.



segunda-feira, 1 de abril de 2013