segunda-feira, 27 de maio de 2013

A esperança e Antígona

Enquanto produzia este texto, deparei-me com um desabafo de um conhecido, não pessoalmente, nem na via pública, numa praça ou num aglomerado de pessoas, mas sim no facebook, uma via digamos assim, super pública. Suas palavras, escritas, compactuavam fortemente com Fernando Pessoa, em sua poesia, POEMA DA LINHA RETA, que num trecho diz assim:
"Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?"

E passei um tempo lendo isso e não entendendo. Me debatendo para escrever isso aqui para vocês. As coisas não estavam fáceis. E foi então que, pelo mesmo facebook, que uma colega me pergunta sobre o dia e horário de minha apresentação em que lhe respondo e a partir daí outras pessoas entram na conversa, perguntando sobre o que falaria, etc, e que a mesma colega responde a um amigo dela, que eu represento a Associação Psicanalítica de Curitiba. Sim, de fato. Mas, o que já tinha escrito e o que estava em minha mente estava por escrever, evaporou-se. Parei na palavra REPRESENTA.
E de fato represento, faço parte desta instituição onde faço minha formação, onde encontrei colegas e parceiros de trabalho e principalmente, é onde me reconheço e sou reconhecido, sendo a APC o representante de um social, como Analista.
E de fato vacilei naquele instante e fui tomado por um dever, eu como representante, como significante, deveria cumprir um papel que mantivesse a cadeia na ordem em que está estabelecida por outros significantes, dos bons trabalhos, dos psicanalistas, das referências sociais que este lugar ocupa. Ou seja, me vi a serviço de um bem e aí, o desejo foi engolido por esta onda e tomei um caldo que estou até agora me recuperando, ainda tentando entender aonde é o céu e aonde é o fundo. Ou se dá na mesma nadar para cima ou para baixo.
De qualquer forma, nadar é preciso, pois o barco robusto dos ideais já está se afundando. E não adianta jogar água para fora dele, pois o que está fora é infinitamente maior.
E só me dei conta que deveria nadar e abandonar o barco quando percebi isso, que inevitavelmente eu represento e que também, da mesma forma não. Como diz Lacan, o desejo como metonímia do ser.
Represento como efeito deste desejo. Diferentemente do que se propõe no campo moral, em que a representação se coloca como um dever, no campo do desejo, a representação é efeito e causa de um desejo. Se represento algo, é de um desejo que se trata.
Pois, do que se trata isso? Se falo de ética da psicanálise, se falo de Antígona, só posso falar disso, só me autorizo neste ponto aqui. No que se refere a ética, só posso falar dela aqui por esta via, do desejo.
Afinal, é isso que fica de Antígona, seu desejo. O resto está morto.
A Ética da psicanálise está além de qualquer sentimento de obrigação ou coação social, não se trata de querer o bem ou o mal. É indiferente. Mas, também não se trata da barbárie ou de um sentimento anarquista que a psicanálise propõe. E sim, ética da psicanálise é uma ética da castração. Pois estamos advertidos de que não há nenhum bem. Sendo assim, é da verdade do desejo, particular a cada um que se trata. O efeito desta verdade é a preparação da ação moral, como diz Lacan. Nunca o inverso.
Pois bem. Voltando ao trecho do poema de Fernando Pessoa, ao que ele se questiona aonde estão os humanos neste mundo, sujeitos furados, castrados e divididos, considero uma pergunta completamente atual. Eu responderia a ele que estão escondidos, como sempre estiveram. Pois, nem um pouco diferente do que sempre foi o homem, desde que Adão comeu a maçã e teve a luz do discernimento entre o bem e o mau, a ordem moral, talvez muito mais intensa nos dias de hoje, convoca a todos num imperativo não do bem, mas sim, do goza! Ou melhor, dá na mesma, tanto faz. Kant ou Sade, tanto faz, disse Lacan.
Todos querem sua quota. E sabemos que, embora acredite que nenhum de nós estejamos lá, podemos saber pelos mais corajosos que lá estiveram, que uma massa miserável e sedenta pulsa e está prestes a explodir. É um direito moralmente estabelecido. E para garantir este direito, aos bens de gozo, as regras e leis sociais são completamente abandonadas e se não tem por bem, tem por mal. É isso que escuto de colegas que estão lá, na linha de frente, junto com menores infratores, com usuários de crack, que não estão alheios aos bens e sabem onde querem gozar. É assustador. Desejo? Aqui, estamos longe disso. O social prega e anseia por justiça, querem ver os ditos menores na cadeia, querem longe de suas calçadas e olhares os usuários de crack. Querem o bem deles, que sejam cuidados, tratados e presos mas também, que sejam mortos. É o melhor para eles. Eles tem suas razões, pois são estes os marginais que estão no centro do furo moral e social, um enorme buraco denunciando que não somos imagem e semelhança de Deus. Nós somos a evolução do macaco!
Vale uma observação de que Freud nos diz que Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização. (...) O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.” FREUD, Sigmund: O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro, Editora Imago, 1997
Me parece que o homem civilizado quer segurança, mas, sem abrir mão de toda a felicidade. Aí é que está o grande conflito.
Acho incrível nossa capacidade narcísica de crer que não somos outra coisa que não deuses. O Olimpo está lotado, precisando urgente de um metrô! Os humanos, herdeiros dos chipanzés, estão escondidos. E quando mais este real se apresenta enquanto nada, enquanto sujeito humano, mais forte vem a resposta de alguma coisa para aplacar a angústia desta limitação, de castração. E vem com violência.
E esta violência, sempre para afogar o desejo, é da ordem moral. É normal, mesmo com os intensos alertas de muitos, é normal o uso de medicamentos, para aplacar o mal estar, isso que é inerente ao humano. Em algumas escolas hoje em dia, os próprios professores brincam, falando muito sério, que poderiam colocar Ritalina direto no bebedouro das crianças e fluoxetina no dos professores. Pois é este o imperativo: sejam felizes, comportados mas, felizes. Produzam mais, não façam birra, pois isso já é doença, não chorem, pois isso também é doença. Esta é a ordem. E todos obedecem, ou melhor quase todos. Ainda bem. Ainda restam alguns humanos pendurados nas árvores.
Ainda sim, há humanos, ou sujeitos, seja como for, que ousam, se arriscam nesta empreitada da vida, assumindo sua verdade, seu desejo. Como disse Lacan, “É sempre por meio de um ultrapassamento do limite, benéfico, que o homem faz a experiência de seu desejo”.
Esta frase, que já me deu pano pra manga, é tão verdadeira em mim, pois para isso é preciso coragem. Sim, coragem em se lançar ao vento, de cima deste galho e sentir o chão da terra e fazer o que puder com isso que é dito como desejo.
Pois, é nesta terra nosso último lugar. Como é dito, é o ser para morte. Longe de supor um endeusamento do homem, como se para alcançar o desejo fosse necessário uma força superior, pelo contrário, é sabendo de que fim se trata, é sabendo de que há marcara simbólicas profundas que nos fazem ser o que somos, que podemos acessar o desejo, particular, a verdade de cada um.
Assim, acessando esta verdade, cai por terra o Olimpo. Não há deuses na terra. Esta é a trapaça da ciência, senhora poderosa, dona dos objetos, de nos fazer crer nisso.

Mas, aqui vai a esperança. Palavra sempre bonita, acolhedora. Esperança. Só para constar aqui, que mesmo sabendo que além do céu não há nada, ainda sim, e talvez somente assim, é que podemos contemplar as estrelas.

(Texto escrito para "X Jornadas de Direito e Psicanálise - UFPR" de maio de 2013, cujo tema era Antígona).

terça-feira, 7 de maio de 2013

Previsão de um tempo

E da janela que vejo o mundo. E o mundo de tão grande, por pouco não vou me embora com ele. Minhas pernas ainda são pequenas para um mundo tão grande. Mas, elas crescem e um dia a janela será porta e aí...
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