domingo, 27 de dezembro de 2015

Férias de mim.

De férias de mim.
Abandonei alguns sofrimentos.
Deixei-os nos cantos, nas gavetas.
As preocupações, guardo-as na mochila.
Mas, não mexo nelas. Evito-as.
Esqueço-as.
Acordei tarde por vários dias e nem me dei bom dia.
Tomei café, molhei metade da bolacha maria e nem lembrei do calor.
E com palavras mexidas no fundo da xícara, queimei a língua.
Tomei banho de mar. Fiz castelos de areia com crianças ao redor.
Subi serra, tomei chuva.
Cantei alto aquelas músicas antigas
Preferidas.
De férias de mim.
Eu pela metade, fui feliz.
Outros por ali andavam inteiros.
Não me importei.
Me olharam estranho quando saí da loja só com o pé esquerdo da havaiana.
Riram.
Não quis um par.
Quis ser ímpar.
Eu de férias de mim.
De férias de mim, fiquei com saudades.
Tentei voltar, ser inteiro mas, estava longe demais.
Aguentei.
E quando voltei, cheguei ansioso, querendo me ver.
E não me encontrei.
Era outro.
Pela metade.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Três da tarde

Quando escrevo um poema
Me liberto de algo
Mas me prendo nessas palavras
E quando vejo, é o poema quem me escreve.

Quase nada.
Apenas meio ser.

Metade de um, que por aí tropeça.
Para quê esperança se o dia não acaba?
E o sol não se move.

O sol não se move.
O sol das três da tarde vai perdendo a força.
Não se põe.

Como um toco de cera e um pavio sustentando o fogo ainda forte.
Mas, não é o fogo que ilumina e sim a vela que desaparece.

Luz que se vai sem movimento com  letras que dão claridade no dia
Que não se move...

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Para quem nasce em plena luta

Ei menina!
Eu não te conheço e você não me conhece.
Eu te vi numa foto apenas.
Você tão frágil. Tinha acabado de nascer.
Sei que sua irmã seguiu em frente após luta como a tua.
Mas saiba, ninguém te deixou pra trás.
Todos te esperam ali, logo ali! Se pudesse eu te mostrava que falta bem pouco e logo estará com os teus mais queridos, que tanto desejam as tuas vitórias.
Meninas que já nascem em plena luta, mergulhadas no combate verdadeiro, já crescem em força de sopros e em ventos, espalhando vida e fazendo luz nos cantos de escuridão.
Ei menina!
A vida te espera!

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A escolha de voar ou quem não conhece janelas

É uma escolha dos pássaros voarem?
Um aqui ficou preso na varanda.
Pássaros não conhecem janelas.
Vai ver que não precisam, menos ainda de portas.
Aqui, se batia contra o vidro.
Corri para ajudá-lo dizendo, calma calma...
Pássaros não entendem palavras. Só cantam músicas de dias de sol e flores.
Peguei ele com cuidado. 
Pássaros não nos querem perto, nem para cuidar.
Abri o pano que o cobria.
E ele ficou mais alguns segundos ali, imóvel. E voou.
Pássaros só querem voar e cantar. E também a quirera que deixo ali no jardim.
E eu escolhi andar, falar e escutar os homens que escolheram voar, cantar, sonhar...
Quem tem asas, que voe.
Escolhas...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Flores, destinos e Led Zeppelin

No ponto de ônibus, escorado, esperando e ouvindo Led Zeppelin, "Standing on a hill in my mountain of dreams, Telling myself it's not as hard, hard, hard as it seems..."
Não é tão difícil como parece!
Nos domingos o ônibus demora mais, passam poucos carros e as senhoras de saias, anáguas e coques carregam flores para os túmulos dos seus que já foram. Cultivam um apreço pela ida sem volta, numa saudade tão inesgotável como suas lágrimas que todos os domingos umedecem os terços de contas gastas.
Carregam as flores jovens senhoras velhas.
Eu ali, também tenho flores. E as senhoras aguardam outro ônibus, outro caminho.
Flores em comum, na vida e na morte.
Flores sempre, para celebrar e flores para velar, chorar e esperar.
Eu ali espero a hora, minha hora de seguir meu destino.
Elas ali, atrás de um destino que já foi.
Será tão difícil assim?

Vai para onde moço? Interrompe a senhora os meus pensamentos e ansiedades.
Tiro os fones do ouvido.
Oi?
Vai para onde moço?
Vou lá no Cabral.
Está demorando o ônibus, sabe que horas passa?
Acho que deve ser de quarenta em quarenta hoje.
Quase nunca saio domingo, sempre sábado. Mas, ontem choveu e já viu... eu já estou velha demais para carregar flores em dias de chuva.
Para quem são as flores? Pergunto.
Para meu finado marido. Visito seu túmulo toda semana, há oito anos. Só falhei uma vez que tive um problema e fiquei um mês  sem ir. Tropecei na escada e torci o pé. Era para ter ficado mais tempo mas convenci minha vizinha de me levar até lá com o carro dela.
Olho outras duas senhoras mais ali ao lado que conversam sobre o culto recém acabado.
Vai num encontro moço?
Sim.
Que bonito um jovem com flores na mão. Bem melhor do que uma velha como eu.
Fica óbvio aqui o destino de cada um, não é?
Mas, eu não me importo. Também vou num encontro. Ele também me dava flores e foi assim que chegou pela primeira vez lá em casa para conversar com meu pai. Eu tinha dezenove anos.
Ele tremia, coitado. Mas, meu pai foi gentil com ele. No fundo, achava que eu iria encalhar sabe - disse a senhora sorrindo e com olhos cheios de tudo que a vida pôde dar.
Eu era a filha mais velha e não tinha nenhum pretendente até aquela tarde. Foi lindo. Claro que eu me apaixonei. Ele era forte e alto. Tinha sobrancelhas grossas e suas mãos eram compridas e finas. Lia latim. Foi nessa que ganhou meu pai, eu sei.
E quantas vezes andei de braços dados com ele por aqui nesta rua. Eu ficava toda orgulhosa... Olha lá meu ônibus, interrompeu.
Vi ela subindo ali naqueles degraus altos do ônibus. Lá de dentro ainda me acenou. Acenei, colocando de volta os fones de ouvido.
Não é tão difícil mesmo! Pensei.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O menino chegou na praia...

E o menino chegou na praia
Sozinho.
O menino poderia ser eu.
Você.
Todos nós.
Na areia.
Sem castelos.
E o menino chegou.
Cansado.

Todos choram o menino.
O mundo chora o menino.
Menos o mundo.

Eu chorei o menino. Por dentro.
Engasguei e quis tanto que ele se levantasse.
Devia ter frio e fome e quis muito que alguém lhe pegasse nos braços e que o levasse dali.
Que fosse chorando.
Que fosse gritando.
Que fosse vivo.
E o menino chegou na praia.

Ei menino!

A velha, bizarra, estúpida Europa carrega agora o menino. Morto.
Os americanos carregam o menino.
Os latinos, os asiáticos, os judeus, os muçulmanos,  os crentes, os ateus, os africanos, os palestinos, os russos... O mundo carrega o menino. Morto.
Somos todos estúpidos!
Choramos e agora é tarde.

A mágica simbólica agora inverte a lógica.
É que na morte do menino que chegou na praia, morre o mundo e mais do que nunca, vive o menino.
Que ele permaneça vivo por anos, décadas e séculos.
Que esse menino interdite a morte e reacenda a  máxima de uma civilização: o homem não pode ser o lobo do homem!

Que não seja em vão.
Não é assim que os meninos chegam na praia. Não é!

"O senhor da guerra
Não gosta de crianças..."

sábado, 29 de agosto de 2015

A Peneira dos rasos ou a delicadeza das gentes

Me desculpem os felizes.
Sei que existem vários.
Eu também, tirando o resto, sou feliz.
Se alguém conseguir tirar todo o resto de si, me avise.
Como diz Pessoa, meu favorito, "estou farto de semideuses / onde é  que há gente nesse mundo? "
E de resto, que se acumula em pedras no caminho, eu não me preocupo.
Me disseram, gentilmente, de minha tristeza.
Paradoxalmente, fiquei feliz. Nunca imaginei que aquilo cairia em mim como uma touca nessa minha cabeça maluca.
Ergo então a bandeira da tristeza para que seja normal.
Fique triste antes que seja tarde demais e acabe por se afogar sem ajuda nessa existência miserável.
Não aceitar a tristeza é como deixar a alma pela metade.
É como não permitir um descanso da guerra.
É como se vestir de Coringa e nunca mais ser Chaplin.
A tristeza é o suspense do silêncio entre uma música e outra.
Ficar triste é como se permitir numa normalidade rasa, longe dos super, Iron,  inabaláveis homens.
Tão importante estar ali com mazelas e dores normais das saudades, das perdas, dos fracassos...
Esqueça a pressa e tenha uma tarde ouvindo Cartola... "ainda é cedo amor / mal começastes a conhecer a vida / já anuncias a hora de partida / sem saber mesmo o rumo que irás tomar /  Preste atenção querida / embora eu saiba que estais resolvida / em cada esquina cai um pouco tua vida / em pouco tempo não serás mais o que és..."
Derrame lágrimas no papel borrado de tinta de um ridículo João Palito.
E quando a música acabar, sentirá uma normalidade, talvez até certa euforia. Sentirá que é humano.
Quem sabe pensará seriamente em largar aquele emprego insuportável, quem sabe terá um sorriso mais sincero, quem sabe descobrirá que tem desejos de outras coisas na vida.
É meu amigo. Tristeza, por incrível que pareça, é uma permissão para normalidade.
Mas, cuidado. Se perder o controle e passar dos limites, procure um analista. Talvez sua normalidade seja exuberante, linda, intensa. Talvez a tristeza acumulada de uma vida, Cartola não dê  conta. Talvez tua história precise ser contada de novo para saber porque ficou assim, tão normal, cheio de furos.
E nessa peneira humana quem sabe poderá deixar que as pedras grandes fiquem por aí e escoe dessa vida tão importante e insignificante uma areia fina, delicada, digna de seu desejo que um dia foi "ser feliz".
Para terminar então, meu outro favorito e acalento para os tristes, diz Leminski:
"Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante..."

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Arte Turva

A arte de morrer aos poucos.
Assim, vai-se, como areia, sem chance alguma de recolher os dias nos bolsos.
Pequenas e grandes emoções, alegrias e tristezas vão se acumulando na pele que vai secando, murchando. 
Pela quarta vez.
Eu, que sou tristeza, não me engano.
Talvez não saiba mostrar, mas, sei que também sou amor.
E, embora tão ínfimo, sei o que é coragem. Pequena mas, eu tenho.
E quando sou alegria, sei rir de mim quando riem junto comigo.
O que chamam desejo. Ah, eu tenho.
Preguiça. Disso eu sofro um bocado.
E lidando com essa arte, encontro um grão de areia no fundo do bolso.
E neste grão estava escrito: não foi desta vez!
Sorri assustado e aliviado.
Guardei aquele grão numa cumbuca feita de tranças e nós, junto com outros três grãos que também diziam: não foi desta vez!
Decanto o susto novo e sigo em frente. Evaporam palavras e no fundo desta garrafa feita de areia sobra um oco de mim.  
É que dessa arte, não tenho a menor vontade, ainda, de deixar saudade.

sábado, 15 de agosto de 2015

Normalidade

Passeando pelo jardim
Das Dores

Viu borboletas
Nas flores

Sombras de sossego
Das vidas inquietas
Vazias

Passarinhos cantam
Pousam devagarinho

Apesar das flores
Das orquídeas
Das Marias

Sopra um vento da boca do céu
Empurrando caravelas brancas
Com marujos resgatados
Pendurados
Cansados

Das Dores dá de ombros
Vai preparar o café
Tem visita

O sol já acena do alto.

sábado, 8 de agosto de 2015

Carta para minha filha

Minha querida,
No dia de sua homenagem lá na escola, no dia dos pais, eu faltei.
Faltei.
Confundi a hora e no momento em que apresentava a música da formiguinha eu atendia alguém no meu trabalho. Cheguei na escola atrasado quando tudo já tinha acabado.
Eu senti uma vergonha e uma dor tão grande quando percebi que estava fora do tempo. Quis reparar, te peguei no colo, me mostrou seu quadrinho em que pintou a borboleta e a libélula. 
Você foi muito gentil. Me sorriu e me abraçou.
Me acolheu, me mostrou sua grandeza, contornando com palavras e gestos o vazio que se apresentou ali entre nós. E logo foi correr e brincar por ali como se eu pudesse entender: "tudo bem papai!"
Eu estava arrasado!
"Acontece!", diziam todos que me viam perdido lá.
Acontece, minha pequena.
Acontece de você ter um pai imperfeito.
De ser perfeito, nunca tive esta pretensão. Mas também, nunca quis e nem quero que sofra. Apesar de saber do impossível dessa vontade.
E você,  nos seus poucos cinco anos de vida, já lidou com tantas imperfeições.
E vai lidar com tantas e tantas que chegará o dia em que poderás ver que faltamos,  erramos. Acontece! E nem por isso deixamos de amar.
Eu aqui, ainda lidando com isso, podes perceber como não é fácil engolir esse "acontece!". Demora.
Pois bem flor, escrevo essa carta só para te dizer, mesmo que ainda não saiba ler, que nesse dia dos pais, deste lugar imperfeito, que a gente se bate a vida toda, obrigado por me acolher neste lugar de Pai, de pai que faz falta.

sábado, 11 de julho de 2015

O Boi Anônimo

Um anônimo, beira da janela do décimo segundo andar.
O vento gelado dos dias frios passa despercebido. Lhe corta a pele seca e jovem.
O silêncio dentro de si se opõe ao barulho insuportável e eterno da cidade. Carros, máquinas, vozes. Motos histéricas gritam no caminho opaco da rua lá embaixo.
Do alto, longe, como o busto de barro daquelas negras coloridas que contemplam nas janelas, permanece, mas, sem cor, sem sorriso no canto da boca, sem mistério.
Lá no mundo ninguém ouve, ninguém vê.
O anônimo, na beira da janela, põe as pernas para fora  do mundo.

Em mil novecentos e oitenta, o menino, de pouca fala, tido como retardado pela ignorância da palavra mal dita, observava os destinos, pendurado numa cerca alta de madeira. As ripas largas separavam o homem dos bichos.
Homens falavam e riam.
Talvez fosse dia de festa.
Mas, os olhos grandes e arregalados dos bichos denunciavam outra coisa. Nenhum mugido, o silêncio dos olhos era como se pudessem sumir dali.
Naquele cercado os bois se agrupavam, unidos. Os gritos dos homens assustavam a todos.
Os bois sabiam, acreditava o menino.
A saída do cerco abria para um corredor.
Outro menino, acostumado com aquela lida, acompanhava os homens nos trabalhos e não tinha susto no rosto.
Cotidiano.
Sem pai, nem mãe, que talvez também não suportassem as cenas, tão cegos e surdos, deixavam o menino à revelia da vida, dos destinos e do primo esperto e vivido.
E um a um, cada bicho seguia pelo caminho estreito e sem volta, até ser barrado pela última cerca.

E ali, parado, o boi olha por entre a cerca os olhos do menino.
Sem adeus ou qualquer coisa de gente, uma marreta de ferro, desmorona aquele bicho grande e desprovido de inteligência suficiente para escapar daquilo.
O menino engole sua mudez.
O susto.

Em baixo do bicho, engenhocas com rodas puxam-no para dentro do lugar e lá, com uma faca, acertam em cheio o coração. O bicho sacode já sem existir.
Outras engenhocas penduram o boi pelas pernas de trás e o sangue vermelho, intenso, inunda todo o lugar.
Se soubesse ler, talvez estaria mais advertido e preparado para saída de seu mundo. A placa era grande e ia de ponta a ponta do lugar: Matadouro Córdova.

A morte de qualquer coisa é uma cena terrível, pensou o anônimo, retirando as pernas de fora do mundo.

sábado, 4 de julho de 2015

Tempo de ver

Um fósforo
Apenas um

O risco da luz

O tempo da madeira
É o suficiente

Até a pele arder
E apagar

Já  basta.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Para os dias mais cinzentos

Queria ter aqui, nesse som que sai de minha boca, algum que fosse mágico e te tirasse da dor.
Queria ter ali, na ponta dos dedos, uma sequência exata de toques, que te lesse algum verso e te fizesse em alma leve. 
Mas, eu sei. Eu queria tantas coisas.

Eu quis, um dia, que o mundo inteiro parasse, todas as pessoas, como estátuas. Os carros e bicicletas parados onde o encanto se fez. E andaria por entre as pessoas paradas. Todas elas congeladas no tempo. Entraria nos mercados, comeria os chocolates e tomaria os refrigerantes.  Queria que tudo parasse só para que eu pudesse comer todos os chocolates do mundo.
E depois voltaria para casa onde minha mãe estaria parada na frente do fogão. Meu pai, diante da notícia do jornal que dizia da velocidade dos dias. Meus irmãos no meio do caminho entre o colégio e a casa, rindo, no final da piada.
Aí já não queria mais. Era solidão demais. E assim passei a querer escolher quem estaria comigo num mundo congelado. Primeiro um, depois outro e outro...E para cada um que escolhia, estabelecia critérios cada vez mais amplos porque não queria ninguém triste ou com saudades... E de tanta gente, abri mão de todos os chocolates do mundo. Lá eu já sabia, sem saber assim, que a vida é feita de laços e talvez de chocolates.
Ainda penso, de vez em quando, quando tudo parece perdido, numa saída para meu querer o mundo congelado e todos os chocolates do mundo... E sempre acabo na mesma: que a vida é feita de laços e que todos também querem todos os chocolates do mundo!
Coisa antiga de menino.
Mas, hoje, eu queria uma mágica,  um feitiço,  bem aqui nessas palavras, tão poderoso como congelar o mundo, e te dar a força que precisa, a alegria pela vida, a calma para as brigas, um sorriso para os dias ficarem mais leves... algo como deve ser, por um instante,  comer todos os chocolates num mundo congelado.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pessoas

Não bastasse tudo, ainda temos as mortes para velar.
Não bastassem as mortes, ainda temos a pressa de todos os dias, sem tempo para velar.
Não bastasse a pressa, ainda temos tudo pela frente, inclusive a morte.
Aqui, Tabacaria de Fernando Pessoa,  por Abujamra.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quarenta de tartaruga

E os meus trinta e nove anos se vão escorrendo pelos dias. A idade é coisa que não deixo de lembrar. Desde que me conheço por gente, conto os anos de vida.
E sempre tive uma certa pressa em crescer,  quando pequeno queria ser grande e depois de grande queria ser maior ainda e agora continuo querendo, só que com medo das certezas que me disseram.
De que a vida começa aos quarenta,  lá quando se tinha filhos aos vinte anos e se casava aos dezoito com uma mulher de dezesseis. E logo que a vida começava,  com sessenta já se ia.
E dessa certeza, mesmo se casando bem depois e tendo filhos mais tarde ainda, é assustador estar sob o imperativo de que a vida nem começou!
Aí está. 
Eu,  que tenho poucas certezas, desfaço mais essa lenda de uma vida que está por vir.
Argumento comigo mesmo que vivo. Já estou vivo e vivi até aqui de forma até que intensa. Que vida,  por mais parada que seja não é intensa?
E aquela juventude louca que ficou para trás.
Que tal vida é essa que vai começar?
Na propaganda de margarina boa para o coração eu vejo famílias estáveis e sorridentes que escondem os psicotrópicos nos bolsos na hora da fotografia. E lá está o quarentão ou cinquentão com agasalho de atividade física,  sem esconder os grisalhos cabelos. Feliz.
Que bom para propaganda.
Eu, na minha eterna angústia (esta nasceu comigo), me canso com alegrias de margarinas ou coca-colas. Essa coisa livre de qualquer afeto, conflito ou desencontro, gente feita de plástico estéril me incomoda.
Eu aqui, já cheio dessas mazelas humanas,  não vejo nada de novo no horizonte dos meus quarenta, pelo menos no que diz dos dias já vividos. Um número que diz muito e quase nada.
Meus amigos que já cruzaram as portas desse tempo, eu os vejo indo em frente, cada qual no seu tempo. Não foram abduzidos, nem reciclados e não mudaram em nada na manhã seguinte.
Mas, para mim, quarenta de qualquer coisa é coisa para caramba. Nem tanto assim para uma tartaruga, que vê o mundo bem mais devagar.
Acho que queria ser uma tartaruga. Sair da velocidade dos dias e olhar lentamente para os lados, sentir o passo num longo movimento, mastigar devagar, tendo a certeza que o tempo, isso é coisa de gente.
Gente como eu que não é uma tartaruga.
Porque se eu fosse, quase quarenta seria quase um jovem, sabendo quase nada da vida, longe e sem pressa de chegar ao ápice e sem a promessa desse "agora sim! Vai ser animal!"

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Enquanto isso, num casamento

(...)E à nós aqui  foi dada a tarefa e a honra de testemunhar este gesto que, muito além do que se anuncia num casamento.  Um gesto que nos prova que não estamos errados quando confessamos à nós mesmos que achamos incrível as coisas muitas vezes banais... uma borboleta, uma lâmpada que acende,  um pássaro que voa... estamos certos em supor, lá, bem escondido, que a vida tem tantos encantos e que, nem sempre, parecer bobo para um mundo rápido e superficial demais é sinal de fraqueza.
Hoje estamos permitidos, autorizados a celebrar os encantos de algo fundamental para a vida e que se anuncia aqui: o amor.
Dizem por aí que as poesias estão sempre um passo à frente da civilização.
Elas, que anunciam em seus versos a vida, o amor e as escolhas de um humano, só não estão na frente da vida.
É na vida que tudo acontece antes. Primeiro fez-se o verbo, dizem.
Antes era o grito.
Mas, antes do verbo, para acalmar o grito e dizer qualquer palavra, alguém, que seja deus, antes de dizer, só pode ter sofrido, se dobrado, se encantado por isso que vamos hoje testemunhar.
Há que ter amado. Deus só podia estar apaixonado...(...)

segunda-feira, 2 de março de 2015

Para quem vira pedra

A vida estranha dos dias cinzentos, já que o cinza tem tons, coisa que nem sabia.
Enquanto o céu empalidece,  os sonhos se movem em silêncio para dentro da névoa densa.
O jovem anda em seu tempo, desatento à vida, num mundo virtual. Sorri e meio que dança,  olhando o buraco da tela. Deve ser paixão.
A pedra que está acima das outras tem no destino o tropeço do jovem.  Ainda lhe resta a habilidade do corpo e não cai. Mas, a pedra,
se move.
Queria eu ser jovem.
Nem velho sou para me queixar da idade. Nesse limbo do meio tempo,
a falsa e sofrida liberdade, não tenho mais.
Tão longe do jovem que ruboriza e segue meio desengonçado, sem sorriso. Talvez um pouco de susto.
Tive vontade de lhe dar a mão ou palavra. Algo que o jovem pudesse pelo menos ver a pedra.
Lhe apontar o chão. 
A pedra existe.
O buraco da tela, não.
O jovem seguiu.
Eu aqui, não. 
Nessa pasmaceira, vendo o jovem não existindo.
Me agarrei na pedra.
Apesar da resistência,  da força e do peso.
Disso que existe.
Devolvi a pedra ao seu lugar de tropeço!
Sorri.
Eu sou pedra!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Rolo de filme

Neste sábado nublado com seus cinquenta tons de cinza, sabendo que os embalos de sábado à noite não são mais os mesmos, pois um sonho de liberdade foi embora e só ficou o cheiro do ralo, eu pensei que se a vida é bela e se temos bons companheiros, não tem porquê dizer corra Lola corra!
Vamos abrir as asas do desejo,  coloque seu veludo azul, coma uns morangos silvestres e chame um taxi driver.
Mas, se isso te dá gritos e sussuros, lembre-se que você não é um ET e que o medo devora a alma.
Enfim, fale com ela, viva o amor à flor da pele, pare de ficar procurando o Nemo que isso pode ser uma psicose e faça com que a vida tenha gosto de cereja!
Se a vida imita a arte, que seja  numa outra direção pois, se assim caminha a humanidade, parece que estamos numa fogueira das vaidades.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Passos líquidos

A chuva chegou avisando lá de longe.
Não lhe dei ouvidos.
Ela enfurecida, trovejou.
Lhe dei as costas.
Continuei andando.

A chuva chegou devagar.
Um pingo aqui
Outro lá.

Não parei.

A chuva falava sério
Avisando que ia enxarcar
Pingo grosso

Um
atrás
do outro.

Molhando tudo
Fazendo rio na calçada
Deixando gente apressada
Mas, não corri.
Virei sopa ambulante.

Aqui estou agora
Todo molhado.

Não liguei muito.
Tudo seca.
Sem exceção, 
se não molhar,
tudo seca!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Eu bem que avisei!

Hoje matei uma aranha!
Era marrom.
Mas, mesmo sendo marrom, pobre aranha...
Mesmo sendo um inseto, insignificante, acabou tudo para ela. Espero que tenha sido rápido e com pouca dor.
Juro! Eu penso e pior... eu sofro!

Quando vejo uma formiga na pia, dentro de uma tigela com água,  retiro ela com cuidado e lhe dou uma segunda chance.

Pela manhã encontro os besouros no chão, atrapalhados que são,  se perdem quando caem de barriga para cima. Lhes dou meu dedo e como náufragos que agarram as cordas que lhes salvam, o besouro gruda. Parece que vejo ele respirando aliviado. Coloco na terra e rapidamente vai se enfiando e se esconde para dormir depois da noite mal vivida.

Por vezes entra pela janela do quarto um vagalume. E sem saber que nem sempre o céu é infinito, fica a bater e bater no teto e nas paredes. A cada batida digo a ele numa torcida em silêncio, é por ali! É por ali! Não!  Outro lado! Até que encontra a saída.... Aeeeeee! Voa longe piscando e comemorando comigo!
Aceno e aviso, aqui o céu é finito.

Tento ser político com as lagartas que comem a laranjeira. Tiro elas, jogo longe e já dou um toque, só voltem aqui borboletas!

Não consigo matar.
Aqui em casa, todos sabem. Não pode matar. Eu não deixo.

Mas, a aranha, coitada. Deu azar no seu destino de ser aranha, de ser marrom e se enfiar onde não podia.
Confesso que já salvei algumas. Jogo longe, do outro lado do muro.
Mas, aquela eu matei. Eu bem que avisei...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

perdi a mão

Perdi a mão
Empresta a tua
Me ajuda?

Ando tremendo
Amasso o papel
Talvez tenha medo

Perdi a mão
A minha
Canhota sem jeito

A tinta borrada
A letra apagando
Sinto suada

Volto ainda à ativa
Com versos pequenos
Já sem rima

Volto ainda num sonho
Ter as manhas do ofício

De não ser tão ingênuo

Ter mão boa, ser poeta
Abrir mão do sacrifício.