quarta-feira, 29 de abril de 2015

Pessoas

Não bastasse tudo, ainda temos as mortes para velar.
Não bastassem as mortes, ainda temos a pressa de todos os dias, sem tempo para velar.
Não bastasse a pressa, ainda temos tudo pela frente, inclusive a morte.
Aqui, Tabacaria de Fernando Pessoa,  por Abujamra.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Quarenta de tartaruga

E os meus trinta e nove anos se vão escorrendo pelos dias. A idade é coisa que não deixo de lembrar. Desde que me conheço por gente, conto os anos de vida.
E sempre tive uma certa pressa em crescer,  quando pequeno queria ser grande e depois de grande queria ser maior ainda e agora continuo querendo, só que com medo das certezas que me disseram.
De que a vida começa aos quarenta,  lá quando se tinha filhos aos vinte anos e se casava aos dezoito com uma mulher de dezesseis. E logo que a vida começava,  com sessenta já se ia.
E dessa certeza, mesmo se casando bem depois e tendo filhos mais tarde ainda, é assustador estar sob o imperativo de que a vida nem começou!
Aí está. 
Eu,  que tenho poucas certezas, desfaço mais essa lenda de uma vida que está por vir.
Argumento comigo mesmo que vivo. Já estou vivo e vivi até aqui de forma até que intensa. Que vida,  por mais parada que seja não é intensa?
E aquela juventude louca que ficou para trás.
Que tal vida é essa que vai começar?
Na propaganda de margarina boa para o coração eu vejo famílias estáveis e sorridentes que escondem os psicotrópicos nos bolsos na hora da fotografia. E lá está o quarentão ou cinquentão com agasalho de atividade física,  sem esconder os grisalhos cabelos. Feliz.
Que bom para propaganda.
Eu, na minha eterna angústia (esta nasceu comigo), me canso com alegrias de margarinas ou coca-colas. Essa coisa livre de qualquer afeto, conflito ou desencontro, gente feita de plástico estéril me incomoda.
Eu aqui, já cheio dessas mazelas humanas,  não vejo nada de novo no horizonte dos meus quarenta, pelo menos no que diz dos dias já vividos. Um número que diz muito e quase nada.
Meus amigos que já cruzaram as portas desse tempo, eu os vejo indo em frente, cada qual no seu tempo. Não foram abduzidos, nem reciclados e não mudaram em nada na manhã seguinte.
Mas, para mim, quarenta de qualquer coisa é coisa para caramba. Nem tanto assim para uma tartaruga, que vê o mundo bem mais devagar.
Acho que queria ser uma tartaruga. Sair da velocidade dos dias e olhar lentamente para os lados, sentir o passo num longo movimento, mastigar devagar, tendo a certeza que o tempo, isso é coisa de gente.
Gente como eu que não é uma tartaruga.
Porque se eu fosse, quase quarenta seria quase um jovem, sabendo quase nada da vida, longe e sem pressa de chegar ao ápice e sem a promessa desse "agora sim! Vai ser animal!"

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Enquanto isso, num casamento

(...)E à nós aqui  foi dada a tarefa e a honra de testemunhar este gesto que, muito além do que se anuncia num casamento.  Um gesto que nos prova que não estamos errados quando confessamos à nós mesmos que achamos incrível as coisas muitas vezes banais... uma borboleta, uma lâmpada que acende,  um pássaro que voa... estamos certos em supor, lá, bem escondido, que a vida tem tantos encantos e que, nem sempre, parecer bobo para um mundo rápido e superficial demais é sinal de fraqueza.
Hoje estamos permitidos, autorizados a celebrar os encantos de algo fundamental para a vida e que se anuncia aqui: o amor.
Dizem por aí que as poesias estão sempre um passo à frente da civilização.
Elas, que anunciam em seus versos a vida, o amor e as escolhas de um humano, só não estão na frente da vida.
É na vida que tudo acontece antes. Primeiro fez-se o verbo, dizem.
Antes era o grito.
Mas, antes do verbo, para acalmar o grito e dizer qualquer palavra, alguém, que seja deus, antes de dizer, só pode ter sofrido, se dobrado, se encantado por isso que vamos hoje testemunhar.
Há que ter amado. Deus só podia estar apaixonado...(...)