terça-feira, 26 de maio de 2015

Para os dias mais cinzentos

Queria ter aqui, nesse som que sai de minha boca, algum que fosse mágico e te tirasse da dor.
Queria ter ali, na ponta dos dedos, uma sequência exata de toques, que te lesse algum verso e te fizesse em alma leve. 
Mas, eu sei. Eu queria tantas coisas.

Eu quis, um dia, que o mundo inteiro parasse, todas as pessoas, como estátuas. Os carros e bicicletas parados onde o encanto se fez. E andaria por entre as pessoas paradas. Todas elas congeladas no tempo. Entraria nos mercados, comeria os chocolates e tomaria os refrigerantes.  Queria que tudo parasse só para que eu pudesse comer todos os chocolates do mundo.
E depois voltaria para casa onde minha mãe estaria parada na frente do fogão. Meu pai, diante da notícia do jornal que dizia da velocidade dos dias. Meus irmãos no meio do caminho entre o colégio e a casa, rindo, no final da piada.
Aí já não queria mais. Era solidão demais. E assim passei a querer escolher quem estaria comigo num mundo congelado. Primeiro um, depois outro e outro...E para cada um que escolhia, estabelecia critérios cada vez mais amplos porque não queria ninguém triste ou com saudades... E de tanta gente, abri mão de todos os chocolates do mundo. Lá eu já sabia, sem saber assim, que a vida é feita de laços e talvez de chocolates.
Ainda penso, de vez em quando, quando tudo parece perdido, numa saída para meu querer o mundo congelado e todos os chocolates do mundo... E sempre acabo na mesma: que a vida é feita de laços e que todos também querem todos os chocolates do mundo!
Coisa antiga de menino.
Mas, hoje, eu queria uma mágica,  um feitiço,  bem aqui nessas palavras, tão poderoso como congelar o mundo, e te dar a força que precisa, a alegria pela vida, a calma para as brigas, um sorriso para os dias ficarem mais leves... algo como deve ser, por um instante,  comer todos os chocolates num mundo congelado.