sábado, 11 de julho de 2015

O Boi Anônimo

Um anônimo, beira da janela do décimo segundo andar.
O vento gelado dos dias frios passa despercebido. Lhe corta a pele seca e jovem.
O silêncio dentro de si se opõe ao barulho insuportável e eterno da cidade. Carros, máquinas, vozes. Motos histéricas gritam no caminho opaco da rua lá embaixo.
Do alto, longe, como o busto de barro daquelas negras coloridas que contemplam nas janelas, permanece, mas, sem cor, sem sorriso no canto da boca, sem mistério.
Lá no mundo ninguém ouve, ninguém vê.
O anônimo, na beira da janela, põe as pernas para fora  do mundo.

Em mil novecentos e oitenta, o menino, de pouca fala, tido como retardado pela ignorância da palavra mal dita, observava os destinos, pendurado numa cerca alta de madeira. As ripas largas separavam o homem dos bichos.
Homens falavam e riam.
Talvez fosse dia de festa.
Mas, os olhos grandes e arregalados dos bichos denunciavam outra coisa. Nenhum mugido, o silêncio dos olhos era como se pudessem sumir dali.
Naquele cercado os bois se agrupavam, unidos. Os gritos dos homens assustavam a todos.
Os bois sabiam, acreditava o menino.
A saída do cerco abria para um corredor.
Outro menino, acostumado com aquela lida, acompanhava os homens nos trabalhos e não tinha susto no rosto.
Cotidiano.
Sem pai, nem mãe, que talvez também não suportassem as cenas, tão cegos e surdos, deixavam o menino à revelia da vida, dos destinos e do primo esperto e vivido.
E um a um, cada bicho seguia pelo caminho estreito e sem volta, até ser barrado pela última cerca.

E ali, parado, o boi olha por entre a cerca os olhos do menino.
Sem adeus ou qualquer coisa de gente, uma marreta de ferro, desmorona aquele bicho grande e desprovido de inteligência suficiente para escapar daquilo.
O menino engole sua mudez.
O susto.

Em baixo do bicho, engenhocas com rodas puxam-no para dentro do lugar e lá, com uma faca, acertam em cheio o coração. O bicho sacode já sem existir.
Outras engenhocas penduram o boi pelas pernas de trás e o sangue vermelho, intenso, inunda todo o lugar.
Se soubesse ler, talvez estaria mais advertido e preparado para saída de seu mundo. A placa era grande e ia de ponta a ponta do lugar: Matadouro Córdova.

A morte de qualquer coisa é uma cena terrível, pensou o anônimo, retirando as pernas de fora do mundo.

sábado, 4 de julho de 2015

Tempo de ver

Um fósforo
Apenas um

O risco da luz

O tempo da madeira
É o suficiente

Até a pele arder
E apagar

Já  basta.