sábado, 29 de agosto de 2015

A Peneira dos rasos ou a delicadeza das gentes

Me desculpem os felizes.
Sei que existem vários.
Eu também, tirando o resto, sou feliz.
Se alguém conseguir tirar todo o resto de si, me avise.
Como diz Pessoa, meu favorito, "estou farto de semideuses / onde é  que há gente nesse mundo? "
E de resto, que se acumula em pedras no caminho, eu não me preocupo.
Me disseram, gentilmente, de minha tristeza.
Paradoxalmente, fiquei feliz. Nunca imaginei que aquilo cairia em mim como uma touca nessa minha cabeça maluca.
Ergo então a bandeira da tristeza para que seja normal.
Fique triste antes que seja tarde demais e acabe por se afogar sem ajuda nessa existência miserável.
Não aceitar a tristeza é como deixar a alma pela metade.
É como não permitir um descanso da guerra.
É como se vestir de Coringa e nunca mais ser Chaplin.
A tristeza é o suspense do silêncio entre uma música e outra.
Ficar triste é como se permitir numa normalidade rasa, longe dos super, Iron,  inabaláveis homens.
Tão importante estar ali com mazelas e dores normais das saudades, das perdas, dos fracassos...
Esqueça a pressa e tenha uma tarde ouvindo Cartola... "ainda é cedo amor / mal começastes a conhecer a vida / já anuncias a hora de partida / sem saber mesmo o rumo que irás tomar /  Preste atenção querida / embora eu saiba que estais resolvida / em cada esquina cai um pouco tua vida / em pouco tempo não serás mais o que és..."
Derrame lágrimas no papel borrado de tinta de um ridículo João Palito.
E quando a música acabar, sentirá uma normalidade, talvez até certa euforia. Sentirá que é humano.
Quem sabe pensará seriamente em largar aquele emprego insuportável, quem sabe terá um sorriso mais sincero, quem sabe descobrirá que tem desejos de outras coisas na vida.
É meu amigo. Tristeza, por incrível que pareça, é uma permissão para normalidade.
Mas, cuidado. Se perder o controle e passar dos limites, procure um analista. Talvez sua normalidade seja exuberante, linda, intensa. Talvez a tristeza acumulada de uma vida, Cartola não dê  conta. Talvez tua história precise ser contada de novo para saber porque ficou assim, tão normal, cheio de furos.
E nessa peneira humana quem sabe poderá deixar que as pedras grandes fiquem por aí e escoe dessa vida tão importante e insignificante uma areia fina, delicada, digna de seu desejo que um dia foi "ser feliz".
Para terminar então, meu outro favorito e acalento para os tristes, diz Leminski:
"Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Com se chegando atrasado
Chegasse mais adiante..."

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Arte Turva

A arte de morrer aos poucos.
Assim, vai-se, como areia, sem chance alguma de recolher os dias nos bolsos.
Pequenas e grandes emoções, alegrias e tristezas vão se acumulando na pele que vai secando, murchando. 
Pela quarta vez.
Eu, que sou tristeza, não me engano.
Talvez não saiba mostrar, mas, sei que também sou amor.
E, embora tão ínfimo, sei o que é coragem. Pequena mas, eu tenho.
E quando sou alegria, sei rir de mim quando riem junto comigo.
O que chamam desejo. Ah, eu tenho.
Preguiça. Disso eu sofro um bocado.
E lidando com essa arte, encontro um grão de areia no fundo do bolso.
E neste grão estava escrito: não foi desta vez!
Sorri assustado e aliviado.
Guardei aquele grão numa cumbuca feita de tranças e nós, junto com outros três grãos que também diziam: não foi desta vez!
Decanto o susto novo e sigo em frente. Evaporam palavras e no fundo desta garrafa feita de areia sobra um oco de mim.  
É que dessa arte, não tenho a menor vontade, ainda, de deixar saudade.

sábado, 15 de agosto de 2015

Normalidade

Passeando pelo jardim
Das Dores

Viu borboletas
Nas flores

Sombras de sossego
Das vidas inquietas
Vazias

Passarinhos cantam
Pousam devagarinho

Apesar das flores
Das orquídeas
Das Marias

Sopra um vento da boca do céu
Empurrando caravelas brancas
Com marujos resgatados
Pendurados
Cansados

Das Dores dá de ombros
Vai preparar o café
Tem visita

O sol já acena do alto.

sábado, 8 de agosto de 2015

Carta para minha filha

Minha querida,
No dia de sua homenagem lá na escola, no dia dos pais, eu faltei.
Faltei.
Confundi a hora e no momento em que apresentava a música da formiguinha eu atendia alguém no meu trabalho. Cheguei na escola atrasado quando tudo já tinha acabado.
Eu senti uma vergonha e uma dor tão grande quando percebi que estava fora do tempo. Quis reparar, te peguei no colo, me mostrou seu quadrinho em que pintou a borboleta e a libélula. 
Você foi muito gentil. Me sorriu e me abraçou.
Me acolheu, me mostrou sua grandeza, contornando com palavras e gestos o vazio que se apresentou ali entre nós. E logo foi correr e brincar por ali como se eu pudesse entender: "tudo bem papai!"
Eu estava arrasado!
"Acontece!", diziam todos que me viam perdido lá.
Acontece, minha pequena.
Acontece de você ter um pai imperfeito.
De ser perfeito, nunca tive esta pretensão. Mas também, nunca quis e nem quero que sofra. Apesar de saber do impossível dessa vontade.
E você,  nos seus poucos cinco anos de vida, já lidou com tantas imperfeições.
E vai lidar com tantas e tantas que chegará o dia em que poderás ver que faltamos,  erramos. Acontece! E nem por isso deixamos de amar.
Eu aqui, ainda lidando com isso, podes perceber como não é fácil engolir esse "acontece!". Demora.
Pois bem flor, escrevo essa carta só para te dizer, mesmo que ainda não saiba ler, que nesse dia dos pais, deste lugar imperfeito, que a gente se bate a vida toda, obrigado por me acolher neste lugar de Pai, de pai que faz falta.