quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Flores, destinos e Led Zeppelin

No ponto de ônibus, escorado, esperando e ouvindo Led Zeppelin, "Standing on a hill in my mountain of dreams, Telling myself it's not as hard, hard, hard as it seems..."
Não é tão difícil como parece!
Nos domingos o ônibus demora mais, passam poucos carros e as senhoras de saias, anáguas e coques carregam flores para os túmulos dos seus que já foram. Cultivam um apreço pela ida sem volta, numa saudade tão inesgotável como suas lágrimas que todos os domingos umedecem os terços de contas gastas.
Carregam as flores jovens senhoras velhas.
Eu ali, também tenho flores. E as senhoras aguardam outro ônibus, outro caminho.
Flores em comum, na vida e na morte.
Flores sempre, para celebrar e flores para velar, chorar e esperar.
Eu ali espero a hora, minha hora de seguir meu destino.
Elas ali, atrás de um destino que já foi.
Será tão difícil assim?

Vai para onde moço? Interrompe a senhora os meus pensamentos e ansiedades.
Tiro os fones do ouvido.
Oi?
Vai para onde moço?
Vou lá no Cabral.
Está demorando o ônibus, sabe que horas passa?
Acho que deve ser de quarenta em quarenta hoje.
Quase nunca saio domingo, sempre sábado. Mas, ontem choveu e já viu... eu já estou velha demais para carregar flores em dias de chuva.
Para quem são as flores? Pergunto.
Para meu finado marido. Visito seu túmulo toda semana, há oito anos. Só falhei uma vez que tive um problema e fiquei um mês  sem ir. Tropecei na escada e torci o pé. Era para ter ficado mais tempo mas convenci minha vizinha de me levar até lá com o carro dela.
Olho outras duas senhoras mais ali ao lado que conversam sobre o culto recém acabado.
Vai num encontro moço?
Sim.
Que bonito um jovem com flores na mão. Bem melhor do que uma velha como eu.
Fica óbvio aqui o destino de cada um, não é?
Mas, eu não me importo. Também vou num encontro. Ele também me dava flores e foi assim que chegou pela primeira vez lá em casa para conversar com meu pai. Eu tinha dezenove anos.
Ele tremia, coitado. Mas, meu pai foi gentil com ele. No fundo, achava que eu iria encalhar sabe - disse a senhora sorrindo e com olhos cheios de tudo que a vida pôde dar.
Eu era a filha mais velha e não tinha nenhum pretendente até aquela tarde. Foi lindo. Claro que eu me apaixonei. Ele era forte e alto. Tinha sobrancelhas grossas e suas mãos eram compridas e finas. Lia latim. Foi nessa que ganhou meu pai, eu sei.
E quantas vezes andei de braços dados com ele por aqui nesta rua. Eu ficava toda orgulhosa... Olha lá meu ônibus, interrompeu.
Vi ela subindo ali naqueles degraus altos do ônibus. Lá de dentro ainda me acenou. Acenei, colocando de volta os fones de ouvido.
Não é tão difícil mesmo! Pensei.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O menino chegou na praia...

E o menino chegou na praia
Sozinho.
O menino poderia ser eu.
Você.
Todos nós.
Na areia.
Sem castelos.
E o menino chegou.
Cansado.

Todos choram o menino.
O mundo chora o menino.
Menos o mundo.

Eu chorei o menino. Por dentro.
Engasguei e quis tanto que ele se levantasse.
Devia ter frio e fome e quis muito que alguém lhe pegasse nos braços e que o levasse dali.
Que fosse chorando.
Que fosse gritando.
Que fosse vivo.
E o menino chegou na praia.

Ei menino!

A velha, bizarra, estúpida Europa carrega agora o menino. Morto.
Os americanos carregam o menino.
Os latinos, os asiáticos, os judeus, os muçulmanos,  os crentes, os ateus, os africanos, os palestinos, os russos... O mundo carrega o menino. Morto.
Somos todos estúpidos!
Choramos e agora é tarde.

A mágica simbólica agora inverte a lógica.
É que na morte do menino que chegou na praia, morre o mundo e mais do que nunca, vive o menino.
Que ele permaneça vivo por anos, décadas e séculos.
Que esse menino interdite a morte e reacenda a  máxima de uma civilização: o homem não pode ser o lobo do homem!

Que não seja em vão.
Não é assim que os meninos chegam na praia. Não é!

"O senhor da guerra
Não gosta de crianças..."