quinta-feira, 6 de julho de 2017

O canto

A vida ficou cravada, não em memórias de belos dias e sim na pele que se enrugou, se espremeu, se apertou e se dobrou em sulcos profundos.
O corpo encurvado, não para o chão e sim para dentro. Em força de seguir.
Tudo que foi para segurar essa vida ali dentro, só por um pouco mais. Só um pouco mais.
Foi como o marujo, encantado pelo canto da sereia que o levou para o fundo do mar e depois o devorou.
Entre o encanto e o fundo, nesse intervalo, é onde a vida aconteceu.
Alguns sabiam do fim desse mergulho, outros simplesmente foram. Mas, sabido ou não - e ele sabia - o que fez nesse intervalo é o que contou, o que justificou uma escolha carregada de força que valeu por toda imensidão de um mar.
O canto da sereia foi o engano, o furo e a causa mas, ao mesmo tempo, foi a certeza. A única que teve durante todo o mergulho.
A pele se dobrou, puxando toda a vida para dentro de si.
Não teve tempo de dizer mas, de certo diria, pelo que pude ver daqui em seu semblante:
- foi o canto mais lindo que já ouvi.

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