sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Quase sempre estranho

As pessoas são estranhas.
Olhei as pessoas ao meu redor, dentro do metrô e pensei que meu cabelo não estava estranho. Haviam outros muito mais estranhos que o meu.
Os bebês nascem quase todos iguais, a cara do joelho da mãe e vão crescendo e mudando, virando partes da mãe, do pai, de nenhum dos dois e depois se viram, num crescente de estranhamentos.
Se pintam, se furam, se cortam. Se pintam na pele para sempre, como se para sempre fosse mais que uma vida inteira.
As pessoas também devem me achar estranho. Acho que olho meio assustado, meio tenso e nunca sei direito o que fazer com minhas mãos.
Esse meu cabelo, talvez devesse dar um jeito nele e quem sabe usar sapatos e camisas alinhadas dentro de calças, seguradas por um cinto de couro preto, como se o couro, que também é pele, durasse para sempre.
Talvez o estranho ali seja o silêncio e a solidão de todos nós, pois ali do lado, três jovens, suponho que tenham a idade dos bons tempos, conversam e riem da vida, talvez se si mesmos, talvez de mim, são todos pintados, furados e com cabelos abusados de experimentos. Eles ali são agradavelmente estranhos. Que curiosidade a minha de saber do que riem.
Que vontade me deu aqui pendurado nesse mundo de ser um pouco estranho e esquecer a pele, o couro, a camisa, o cabelo e deixar para lá isso de que nada é para sempre. Um quase sempre, naquele instante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário