quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pela metade

Vi a rua por entre a persiana de uma janela como se aquela paisagem fosse censurada com faixas horizontais.
Alguém não quer todo o sol, nem tudo que os olhos alcançam. Só uns pedaços de inevitáveis verdades. Mais suportáveis.
Que a rua está ali para chegar e partir.
E o sol vai aquecer, iluminar, queimar a pele.
A censura sugere pequenos pedaços de sol, linhas desenhadas de luz no chão.
E a rua, a paisagem recortada, vela e revela ao mesmo tempo um caminho cheio de fins abruptos. Os olhos cansam.
Ali dentro um rádio toca músicas para preencher o espaço inteiro que a persiana recortou.
Escuto.
Duas mulheres conversam ao lado. Espero.
Falam de amor, de risos e de um homem.  Quem é esse homem na boca dessas mulheres, eu penso.
A janela e a música me atrapalham. Queria saber do homem que faz àquelas mulheres daquele jeito.
Pouco antes de seguir embora e ter a rua inteira coberta de sol escuto Merda! seguido de um choro contido mas,  desaguado.
Falavam de um homem inteiro.

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